por Mileny Brondani
Fahrenheit 451: Que Haja Fogo
Imagine que você, um dia, acorde com o som de sirenes, as luzes piscando através da sua janela lhe incomodam, então você levanta para conferir o que está acontecendo. Quando olha através do vidro, do lado de fora, um grupo de bombeiros está reunido, ateando fogo em uma pilha de livros, CDs, pinturas e tudo que possa ser história ou arte. Além disso, a cena toda é gravada para centenas de milhares de pessoas que os aplaudem pelo bom serviço prestado à comunidade.
Em Fahrenheit 451, somos transportados para uma distopia futurista, no entanto, assustadoramente atual, em que os bombeiros fazem exatamente isto: ateiam fogo. O autor, Ray Bradbury, publicou a obra no ano de 1953, mas a história – vencedora dos prêmios Prometheus e Retro Hugo para Melhor Romance – começou a ser formulada em 1947, à época sob o título de "Bright Phoenix". O livro se tornou um clássico dos gêneros Distopia e Ficção Científica, além de ter consagrado Bradbury como um dos maiores do gênero, tendo o autor ganhado uma estrela na famosa Calçada da Fama, por suas contribuições para a ficção científica na literatura, cinema e televisão. Ray, que nasceu em Illinois, EUA, morreu no ano de 2012, aos 91 anos, depois de ter suas obras adaptadas em diversos meios, incluindo o cinema e até quadrinhos.
No livro, acompanhamos o bombeiro Guy Montag, em suas diversas missões para atear fogo em bibliotecas clandestinas e afins, mas tudo muda quando ele conhece uma garota chamada Clarisse. Ela, que aos olhos de Montag, parece estar sempre divagando com coisas absurdas, o aconselha a ler um dos livros antes de queimá-lo. É então que Guy, já curioso com os objetos que incinera, presencia a terrível cena de uma senhora que, se negando a assistir seus livros queimarem, decide queimar junto. Após esse episódio, o bombeiro começa a se questionar sobre seu trabalho e pouco-a-pouco perde o gosto pelo que faz.
A história – muito bem narrada, por sinal – vai muito além de queimar e assistir. Não é preciso ler mais de uma vez ou analisar a obra com afinco para entender se tratar de uma ditadura velada. No entanto, a questão que parece ser a principal e que permeia toda a narrativa é que, em um sistema ditatorial onde as pessoas não têm liberdade de escolha, onde dizer "não" é receber fogo como resposta, quando passamos de queimar livros para queimar pessoas? Com muita maestria, Bradbury revela como um governo, munido das palavras certas, pode manipular e sobrepujar a massa.
No livro, as pessoas se permitem esquecer e vivem uma vida anestesiada. Do lado de fora, não se encontra quem olhe para o céu, pois todos estão ocupados demais encarando telas vazias com vozes calmas e de respostas prontas. Apesar de assustados, a beleza do livro se encontra em sua poesia oculta, narrando de forma simples o caos de uma sociedade que idolatra o aniquilamento por fogo de sua herança e que aplaude um governo que encaminha os seus para a guerra. O "e se" que ecoa em cada queimada faz gritar o mundo de possibilidades que se perdem em meio às cinzas, onde o povo se acostumou com a diversão fácil e desistiu de questionar aqueles que os governam, revelando, assim, como uma ditadura pode ser silenciosa e mortal, onde o sistema se posiciona para calar vozes diferentes e, ainda assim, não faz estouro algum.
No Mito da Caverna, Platão mostra que a realidade pode ser alterada, dependendo apenas do ponto de vista. Agora juntemos as sombras dessa caverna à política de pão e circo (panem et circenses), onde o governo romano, a fim de manter seu povo obediente e de evitar perguntas que poderiam abalar os poucos que se encontravam no poder, cativava a população com comida e diversão sem fim. A mistura de ambos resulta na perfeita e engenhosa obra de Ray Bradbury, Fahrenheit 451, enlaçando os pontos com tamanha maestria, que não há surpresa em saber que o título continua relevante, se tornando um clássico reverenciado.
Na segunda parte do livro, há um diálogo que impressiona pela sutileza com que revela o cerne da sociedade retratada, com indivíduos que não se importam com nada além de benefícios para si próprios, e que se permitiram o luxo de esquecer: "O que é o fogo? É um mistério. [...] Sua verdadeira beleza é que ele destrói a responsabilidade e as consequências. Se um problema se torna um estorvo pesado demais, para a fornalha com ele".
A reflexão que fica é bela e ampla, quase uma súplica: não esquecer.
A nossa história, literatura, cinema e todas as formas de educação e arte nos contam quem somos e pelo que passamos, refletem detalhes e nuances da existência que, com o tempo, negligenciamos, nos lembra de onde viemos e nos previne, para que não andemos nas valas já cavadas. Todos os dias, devemos exercitar e manter na memória toda a nossa história, guerras e conflitos, o caos instaurado por nós no mundo, e assim lutar para que nunca esqueçamos o modus operandi, a falha, o estopim.
Afinal, a memória é a arma da resistência.
Outubro de 2022.
Mileny é leitora de carteirinha desde que se conhece por gente e compartilha suas opiniões sobre suas leituras em suas redes sociais. Se graduou em Escrita Criativa pela PUCRS e hoje é aluna na pós-graduação de Comunicação Digital e Redes Sociais da UniRitter. Atualmente, atua como Assessora na Diretoria de Educação Continuada da PUCRS, cursa a Formação de Revisores da Editora Metamorfose e edita roteiros longos de RPG. Academicamente, pesquisa sobre os vilões-heróis e anti-heróis da literatura de fantasia contemporânea enquanto transita para a graduação de Letras-Inglês, com foco em Educação Corporativa. Seu portfólio de escrita é recheado com textos sobre horror, amor e os entremeios da condição de ser e estar vivo.