por Ana Cristina Sampaio Alves
Nunca convivi com cães ou gatos durante a minha infância. Criada numa família com seis crianças, o máximo que minha mãe nos permitiu ter como animal doméstico foi um jabuti, chamado "tanque de guerra", que, da mesma forma que chegou em nosso quintal, desapareceu sem deixar vestígios na vizinhança.
Meu medo dos cachorros era enorme, pois o cão de um amigo do meu pai correu atrás de mim por volta dos meus seis anos, provavelmente querendo brincar, mas eu gritei como louca em desabalada carreira, esperando uma mordida feroz, quando o animal atendeu ao chamado do dono e me deixou em paz. Ocorre que essa cena foi tão traumática que me definiu como avessa a qualquer animal doméstico.
Eis que, na transição da minha vida para a fase do ninho vazio, surge Madalena, uma Shih Tzu mini que personifica completamente a nova tendência capturada pela pesquisa da Radar Pet: a do crescimento das famílias que consideram seu animal doméstico como filho, e não mais como animal de estimação. Não, Madalena não é minha filha. Madalena é minha neta. E pensa num amor de vó!
A edição de 2021 da Radar Pet, patrocinada pelo sindicato da indústria de produtos para a saúde animal, identificou que, das casas com cachorros, 21% são de casais sem filhos. Minha filha, mãe de Madalena, se enquadra nesse universo em franco crescimento, embora 65% dos lares dos cães sejam ainda de famílias com filhos.
No entanto, a pesquisa identificou que, entre 2019 e 2021, houve aumento de 7 pontos percentuais no número de tutores que consideram seus cachorros como filhos. Estamos falando de 31% dos 33,8 milhões de domicílios com cães, segundo o IBGE. Na esteira desses números estão situações como a substituição de filhos por pets (criticada pelo Papa Francisco em um de seus discursos), o uso deles como "treinamento" para a condição de pais, e até mesmo demandas na Justiça pela guarda dos animais em caso de divórcio. Para facilitar, cartórios já oferecem certidões de nascimento para animais de estimação. No bairro em que minha filha mora houve até o sequestro de uma cachorrinha no meio da rua por um ex-namorado inconformado com a separação não da mulher, mas do animalzinho. Dias depois, ambos foram encontrados foragidos em outra cidade.
Todo esse cenário tem levado à adoção do termo "famílias multiespécies", tendência que caminha de mãos dadas com o promissor mercado pet, que faturou, no Brasil, R$ 40,8 bilhões em 2020, segundo o Instituto Pet Brasil. Este valor inclui a atividade de pet shops, clínicas e hospitais veterinários, entre outros.
Dentre tantas novas formas de famílias que a sociedade vem abrangendo, as multiespécies são, sem dúvida, uma das mais controversas, mas também as com maiores cotas de amor envolvido. Voltando ao papel de Madalena na família, sim, ela é filha muito amada de Luciana e Felipe, neta mimada desta que vos escreve, e tratada como uma aprendiz de ser humano. Tem brinquedos espalhados pela casa, alimentação balanceada, ração com sabor romã, lacinhos nos cabelos e muita atenção para suas brincadeiras. Porém, a sua maior qualidade tem sido a de me transformar num ser humano melhor. Além do mais, estou confiante que, em breve, ela vai conseguir articular as primeiras palavras.
Ana Cristina Sampaio Alves escreve desde a infância. Ainda criança, já se considerava uma novelista, mesmo que as histórias fossem um misto de contos de fadas com personagens reais. Escolheu o jornalismo como profissão, o qual a permitiu transitar por todo tipo de texto, desde os mais técnicos até os mais criativos, em diversos segmentos de mídias. Continua explorando a escrita e agora se aventura na literária, tendo publicado alguns contos e dezenas de crônicas. Esse é o gênero em que melhor transita.
Embora não tenha ainda publicado narrativas longas, já participou da edição de coletâneas de contos. Segue buscando aprimorar o texto que emociona e traz reflexão. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.