por Frederico Braga
Faux pas
Era fim do mês de novembro, mas o calor e a correria para o Natal já haviam começado. Donas de casa, senhorinhas aposentadas e todos aqueles que já haviam recebido a primeira parcela da gratificação natalina estavam ávidos para organizar a casa e receber os convidados.
Afinal de contas, época de final de ano é o período de arrumar a casa para receber as visitas. Cortar a grama, pintar as paredes, lavar as cortinas. Fazer tudo aquilo que foi sonegado ao longo do ano. Não porque realmente estava precisando, mas para a visita não reparar. Inclusive, é importante limpar o sofá também. E eu, que antes passava calor de terno e gravata, resolvi empreender e fui lavar sofá.
Em uma ocasião, no mesmo período em que o ar-condicionado deixa de funcionar e é mais uma coisa para arrumar, fui chamado a desempenhar os meus serviços. O telefone toca.
– Pois não, moço. Como posso ajudar?
Do outro lado da linha, ele diz que precisa do meu trabalho para aquela semana ainda. Pergunto o que aconteceu para justificar a pressa e ouço que não foi nada. É só uma limpeza de rotina. Preço combinado e horário agendado.
Lá chegando, a porta se abre e sou recebido por outro morador, esse de quatro patas. Olhos castanhos, pelo amarelo, sorriso molhado.
– Que lindo!
– É menina!
– Ah... Que linda então.
– Mas ela não é minha. Está aqui só por uns dias. O meu é um York bem velhinho.
Aceno indicando que entendi e início os trabalhos. Era um sofá dois módulos, retrátil. Cinza chumbo. Encosto solto. Tamanho padrão. "Vai ser moleza". E foi porque a situação, de fato, não era das mais desesperadoras. Já o calor, esse sim. E sem ar-condicionado ainda.
Esses primeiros calores encontram nosso corpo preguiçoso e desacostumado porque as manhãs de primavera ainda são um meio terno entre outono e inverno enquanto as tardes são uma prévia do que está por vir. A brusca mudança de temperatura retarda nosso raciocínio assim como impede o crescimento da massa de bolo em forno muito quente. E só pode ter sido o efeito do calor o que se sucedeu.
Antes de terminar, pergunto pelo York. "Será que ele estaria dormindo em outro quarto, já que é idoso?"
Silêncio.
– É que eu tenho guarda compartilhada dele.
– Ah! Tá certo! Quem tem, cuida. Não é porque não deu certo, que não vamos mais ver os bichinhos, né? Tá com a mãe então?
Outro silêncio.
– Não. Com o pai.
Silêncio.
Impossível não me recordar de uma expressão aprendida durante um intercâmbio que serve para dar significado a acontecimentos como esse: faux pas.
Diz-se que Shakespeare foi responsável por introduzir quase duas mil palavras na língua inglesa. Mas quando ele se foi, aparentemente levou junto parte da criatividade dos linguistas que ficaram, e por conta disso, os ingleses acharam por bem se apropriar de palavras e expressões de outros idiomas, o que, convenhamos, não deve ter sido muito difícil para eles, dada sua tradição em pegar para si o que era dos outros. Basta visitar qualquer museu londrino para comprovar.
Por isso, massa é pasta. Thank you, Itália. Mas era do idioma de Amélie Poulain que eles mais gostavam. Talvez por conta das guerras e constantes desavenças do passado. Esse negócio de "pega lá, dá cá" entre França e Inglaterra começou quando os franceses cortavam os dedos dos arqueiros ingleses, o que causa irritação até hoje.
Mas voltando à apropriação de vocabulário, cul-de-sac e faux pas são dois bons exemplos dessa prática. O primeiro, longe de ser um palavrão, significa "rua sem saída" ou beco, no bom português. Já faux pas, literalmente, se traduz por passo em falso.
Rua sem saída e beco são autoexplicativos. Já um faux pas acontece quando perguntamos àquela amiga que não vemos há anos, de quantos meses está o bebê e descobrimos que não existe gravidez alguma. O primo do interior que passa no concurso da prefeitura e logo já queremos saber seu salário e os benefícios.
Assim como pisar em falso nos dá o susto que às vezes precede a queda, o faux pas serve como o despertador que nos acorda para cuidar da nossa vida. Ele existe em todas as línguas. Em qualquer cultura. Acontece. É chato. Mas passa. O que não pode passar é a lição que deve ser aprendida: cuidar do próprio umbigo.
E se você não quiser cometer um faux pas quando visitar a Inglaterra, Irlanda ou qualquer de suas ex-colônias, não peça duas pints usando o indicador e o dedo médio juntos e virados para a frente, pois esses eram os dedos que os arqueiros ingleses usavam para puxar a corda do arco – e que os franceses costumavam cortar, inutilizando para sempre o combatente.
Fazer essa escolha para se refrescar no verão londrino é o mesmo que apontar o dedo do meio sozinho, o que dispensa maiores explicações. Na dúvida, lembre-se de John Lennon e imagine um V de vitória ou um V da Paz.
Frederico é escritor, leitor e advogado. Nem sempre nessa ordem. Começou a ler ainda muito pequeno, gibis da Turma da Mônica e Disney. O hábito da leitura sempre fez parte da sua vida e até hoje, não importa onde esteja, sempre que está à mesa, gosta de ler os rótulos daquilo que está consumindo. Acredita que todo livro é uma viagem e que toda viagem, se bem contada, vira literatura. Por isso criou o projeto chamado "Quem lê, viaja!", um espaço em que se lê para entender o mundo, não apenas cumprir meta. Nele você encontra crônicas, contos, análises literárias e conversas honestas sobre escrita. Sem academicismo. Sem ranking. Sem leitura de perfomace. Apenas a experiência de quem lê. E escreve. E, é claro, as viagens não precisam ser literais. Podem ser na maionese mesmo.