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Férias em casa

Férias em casa

por Carlos Darzé

Férias em casa

 

Na Ilha Esmeralda onde moro

calça marrom, casaco preto

sobre tons de camisas cinza, gorro azul

de linha grossa; luvas. 

Era segunda-feira e eu sibilava 

de ciúmes do Sol

que ardia em outras peles.

Quarta, olhos já feridos de luz  

na Bahia de minha mãe

eu o praguejava sem pudor: 

"fornalha do cão!"

Sexta era coisa outra, faltante

eu, a suspirar um outro gosto: 

Ô, uma ciriguela madura 

da feira de Itaberaba! 

 

Perdoa, Pai

Caleidoscópio invertido

cheio de furos, vaso mais que preencho

coleciono quereres reversos.

Meus pedaços que antes encaixavam

mudam feito sombra em dia de vento. 

Se aqui penso no "lá". 

Lá, as faltas pulam tal pipoca quente.

No avião, vou sangrar saudades dela

ao que hoje furaria o peito

que um dia me amamentou.

É que ela não para: "filho, vem cáaa!"

Carlos Darzé

Carlos nasceu em Itaberaba, Bahia, em uma família barulhenta, afetuosa e obcecada por comida. Foi em Salvador que iniciou sua relação com a arte. Com formação iniciada nos Estados Unidos e passagem pela Universidade Federal da Bahia, construiu uma trajetória de 20 anos no teatro, atuando como ator, produtor, tradutor, preparador e diretor.

Sua escrita surge da cena: começou criando textos para o teatro e desenvolvendo trabalhos sob encomenda, até expandir sua pesquisa no MPhil em Theatre and Performance no Trinity College Dublin, onde investigou a interculturalidade e memória nas artes performativas.

Hoje, entre Dublin e Salvador, transita pela escrita criativa sem se fixar em um único gênero. Embora ainda pouco publicada, sua produção percorre a poesia, a prosa poética, a dramaturgia e o conto curto ? sempre como campo de experimentação.

Sua linguagem é marcada pela inquietação, pela recusa de formas rígidas e pelo desejo de atravessar gêneros. Interessado por psicanálise e pelas tensões entre culturas, Carlos transforma o cotidiano e os vínculos familiares em matéria de criação, explorando as forças invisíveis que moldam a vida comum.

Acredita na literatura como potência transformadora - uma forma de pensar, deslocar e, sobretudo, reinventar o mundo através da palavra.