por Elisa Lempek
— Mãe, eu e o Gu combinamos de abrir pacotes de figurinhas juntos hoje.
— Que ótima ideia, Pedro! Que horas vocês combinaram?
— Depois que eu ganhar as minhas.
— Então chama ele no Whats pra saber que horas ele pode, porque já são quase dez horas.
— Tá bem, já vou chamar!
Pedro pega o celular antes de concluir a própria frase. Eu e meu marido trocamos um olhar de cumplicidade; ele entende o sinal e vai buscar os pacotes de figurinhas reservados para o final de semana.
— Oba! Dez pacotinhos! Obrigado, pai.
— Pedro, pode ir para o nosso quarto quando o Gu ligar. Lá tem mais espaço e vocês ficam mais à vontade — sugiro, enquanto termino o meu café da manhã.
O celular toca. Pedro pega o aparelho e o álbum ao mesmo tempo e atravessa a sala em direção ao nosso quarto, sem perder tempo.
Minutos depois, vencendo as cinco horas de fuso horário, os primos se encontram na tela em uma chamada de vídeo. Cada um abre seus pacotes com mãos ágeis, olhos curiosos e sorrisos contagiantes. O quarto se torna o território compartilhado que, até um ano atrás, eles dividiam lado a lado, na presença física a cada visita. Ao observar a cena, sou envolvida pelas lembranças desses meninos risonhos e travessos que se criaram juntos por uma década, memórias que ficam reverberando em mim junto com a alegria de perceber que, mesmo separados pelo oceano, eles seguem preservando o vínculo construído desde pequenos. Ali, diante da tela, entendo que a distância geográfica não é capaz de diminuir a conexão entre eles. A amizade que eles cultivam é, para mim, a figurinha mais rara daquele álbum.
Texto revisado por Catarina de Fátima Machado
Elisa Lempek é gaúcha, nascida em 1983, mãe de dois, psicóloga e escritora. Na clínica, atua com psicoterapia online para adultos e casais, oferecendo um espaço de escuta sensível e acolhimento às singularidades de cada trajetória. Seu trabalho dedica atenção especial às vivências relacionadas às neurodivergências, aos vínculos e aos processos de perda e transformação. Na escrita, compartilha textos que revelam seu olhar para as sutilezas das relações familiares e as entrelinhas do cotidiano.