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Fila de padaria

Fila de padaria

por Renata Bäuerle

Todos os dias, quando voltava do trabalho, João parava no mercadinho da esquina de casa. Nem sempre precisava de alguma coisa, mas já tinha virado parte da sua rotina. Naquele dia, precisava de pão.

Ficou decepcionado ao ver que havia uma longa fila na padaria. A menina que atendia ali não era muito ágil e gostava de puxar conversa com cada cliente. Sabia que seria uma longa espera — justo no dia em que o telefone ficou sem bateria.

Por alguns minutos, ficou incomodado. Nada irritava João mais do que esperar. Depois de avaliar todos os produtos que estavam ao alcance dos olhos, notou a conversa que acontecia logo atrás dele.

Eram um homem e uma mulher que pareciam se conhecer a vida inteira. No começo ficou desconfortável por estar ouvindo a conversa alheia, mas não conseguiu evitar. Então, enquanto fingia profundo interesse em um pote de doce de leite, ouviu as histórias mais incríveis: iam de acontecimentos da infância a grandes aventuras e até fama internacional.

Enquanto ouvia, João se imaginava nos cenários. Como seria a vida em alto mar? Ou como um astro do pingue-pongue? Pensava no que faria se tivesse a sorte de montar um negócio e enriquecer, ou se teria a capacidade de superação que aquele homem parecia ter. Por alguns instantes, transportou-se da fila do pão para várias partes do mundo e para diferentes épocas.

Agora, sua angústia não era mais a demora da fila, mas a aproximação da sua vez de ser atendido. As conversas da atendente não eram, nem de perto, tão interessantes quanto aquelas que ouvia enquanto esperava. Mas chegou a sua vez. Pediu seus três cacetinhos, respondeu a duas ou três perguntas que a menina lhe fez e agradeceu pelo serviço.

Saiu caminhando lentamente, tentando encontrar algo em que pudesse fingir interesse para continuar ouvindo um pouco mais das histórias. Não encontrou. Seguiu pelo mercado em direção ao caixa, imaginando que aventuras encontraria na próxima fila.

Renata Bäuerle

Quando a realidade não é como a gente gostaria, além de ajudar a elaborar os sentimentos, escrever permite consertar as imperfeições, atingir o que não se conseguiu e viver o que não nos foi permitido.

@re_escrevinhando

Renata Burmeister Bäuerle é analista de sistemas há mais de 20 anos e atua na empresa pública de tecnologia de Porto Alegre, a Procempa. É mestre em Informática na Educação pelo IFRS e formada em Sistemas de Informação pela UniRitter. Em sua trajetória profissional, dedica-se à liderança de equipes de desenvolvimento de projetos que impactam o cotidiano das pessoas.

Na escrita encontra uma forma de elaborar e compartilhar experiências. Escreve sobre temas que a atravessam — especialmente aqueles ligados às realidades que vive e presencia.

Participa do Curso Online de Formação de Escritores.