×

Filhas de Gaia

Filhas de Gaia

por Amanda Cristina Vargas dos Santos Schmidt

Chove agora, meu bem, e teus olhos se abrem pela primeira vez de encontro ao céu. Tua sorte já nasceu pequena, pois é modesto o teto que te cobre e é frágil a mãe que te carrega. Mas algo no teu brado para essa lua escondida, chamou meu nome. Algo na força com que te anunciou para minha irmã Nix, a noite carregada de nuvens.
Emergi do meu descanso para ver-te. Mais uma. Tuas janelas fechadas com força me deixaram ainda mais ansiosa. Mas sensações grandes provocam isso. Os olhos se fecham. E despertar para a vida deve causar sensação imensa. Há tanto entrego filhas para este espaço dividido, terra e céu, que um de meus filhos, o tempo, me esqueceu. Demoro a entender porque tua mãe chora tanto. O ventre avolumado e o sangue ao redor dela lhe causariam a agonia física, mas não é disso que ela pranteia. Sua dor vem da alma. Observo enquanto ela te leva ao peito, sussurrando. Preciso vencer o véu de Nix para ouvi-la.
- Sinto muito. - ela diz. - Bem vinda, meu amor.
E então, sorri. Sua expressão é uma mistura de orgulho e medo, semelhante a uma guerreira que se posiciona em frente a um exército inimigo, aterrorizada mas confiante de que verá o sol do dia seguinte. Como tantas que já vi, apagadas pela história que os homens escolheram contar.
A menina abre os olhos finalmente e contempla a noite anuviada pela chuva. Sussurro a Zeus que abrande o céus só por um instante, para que as janelas dela deslizem pelo cobertor de Urano.
Como eu, no dia em que surgi do vazio, seus olhos dançam, girando pelo espelho da noite como uma esfera. Mulher.
Um coração de mulher dá início a sua canção ao universo, sutil no começo, mas apaixonado assim que se dá conta da força que possui através de mim. Da terra, diretamente ligada a seu sangue.
Um dia desejei que o todo fosse belo e harmonioso como este primeiro olhar que ela lança. Há uma mistura desenfreada de cores ali, pois ela ainda não decidiu por qual delas caminhará. Ela ainda se descobre, agarrada ao corpo da mãe, pequena e despreparada. Mas um coração de mulher já retumba em meus ouvidos, mais uma para crescer, lutar, cair, amar, gritar até que a ouçam. Mais uma para livrar-se do manto escuro com que tentarão cobri-la.
A mãe se move, tentando deitar-se sobre o leito onde, precariamente, deu à luz. A outra mulher, que a ajudou, retorna com panos limpos e palavras rápidas. Escolho não ouvi-la, pois preciso prestar atenção no que pensa essa menina, que gritou tão alto a ponto de acordar-me.
Lembra-me da minha filha, nascida do sangue de Urano que espalhou-se por mim. Em meio ao ódio daquele ato, Afrodite era o próprio amor. Entendo então, que esta menina nasceu do ódio de um homem. Nasceu da monstruosidade e da violência extrema, e não do ato magnífico do amor. Porém, sua mãe a abraça e a ama, ainda que repita.
- Sinto muito. - entre soluços contidos. - Vai ficar tudo bem. Somos eu e você agora.
Lanço as mãos sobre elas, pois agora entendo. Há tempos eu não conversava com uma de minhas filhas. Mulher, mistério, beleza, não é preciso me esforçar muito para lhe entregar essa verdade. Ela as terá. Toda a dor que vem do sangue e a culpa pelo sofrimento. Mas ao mesmo tempo, seus pés contra a terra te guiarão, meu bem, como guiam as outras, ainda que nem todas entendam de onde tiram tanta força. Tu vens para um mundo melhor do que aquele onde tua mãe chegou e deixarás um ainda mais belo para as mulheres que te seguirão.
As árvores agora começam a cantar, escuto Selene cruzar o céu, pois a chuva foi embora e a lua despeja feminilidade sobre nós quatro. A menina enfim me vê, ajoelhada ao seu lado, recostada no ombro da mãe, que finalmente respira ao invés de ofegar.
- A chuva parou. - fala a parteira, atrás de nós. - Começou o vento.
A mãe fecha os olhos levando a menina ao seio pela primeira vez. Ritual sagrado de mãe e filha, não pode ser perturbado pela voz da noite. Seguro a respiração e lhes deixo no silêncio por um instante. Meu presente de nascimento.
- Essa é sua primavera, meu bem. A primavera da vida- sussurro a elas. -  Mulher, feita da dor ou não, tu tem a força da terra, a força de tua mãe e a força que terá tuas filhas, se as tiver, pois essa é uma escolha tua.
Como se me ouvisse, a menina abre os olhos. Parecem dourados contra a luz das velas. Suas mãos pequenas seguram o seio da mãe, como se fosse ela quem a protegesse.
- O homem vive perdido no seu sentimento de grandeza, como meus filhos que sempre procuraram por mais poder, brigando entre si. - continuo. - Mas minhas filhas plantaram a terra que nos abriga, e semearam empatia nos mortais. No dia de hoje, Perséfone nos entrega mais esta primavera.
Mãe e filha relaxam no abraço mútuo e ambas começam a cochilar ninadas pelo vento. Enquanto o ar entra e sai de seus pulmões, sei que em algum lugar, correndo nas veias que me cobrem, existe um mal ainda destinado a ela. Pois nenhuma só filha passou intacta por este mundo. Mas as duas ainda dormem, entrelaçadas.
-  É aí que está nossa ligação com o divino. Nesse primeiro abraço.
 

 

Amanda Cristina Vargas dos Santos Schmidt

Amanda Schmidt, natural da cidade de Charqueadas, é Artista Visual formada pela UFRGS, pós graduada em História da Arte pela Unyleya. Professora de Artes e Língua Inglesa na escola de Educação básica Ases. Formada em escrita criativa pela Editora Metamorfose, possui participação nas coletâneas: "Pequenas histórias de Porto Alegre", lançada em 2019, "Primeira pessoa", lançada em 2020, e "Verbo feminino", lançada em 2022, todas pela Editora Metamorfose. Autora do romance "A cor do céu depois que chove", lançado em 2022. É apaixonada por literatura e pela arte das palavras, acredita que os livros têm o poder de dar voz aos calados, imortalizar culturas e pessoas e tornar diferentes mundos possíveis.