×

FIM DE UM SONHO

FIM DE UM SONHO

por Jorge Pedro Almeida Lima

 

Em 1844 Alexandre Dumas publicou o romance "Os três Mosqueteiros". O livro fez um sucesso tão grande que foi reeditado em 1846 e desde então, a obra foi traduzida para o inglês em três versões, e encenada para o teatro em 1845, depois em 1858 e finalmente uma última encenação em 1874, após a morte do autor, que faleceu em 1870, com grande sucesso. Alexandre Dumas passou da literatura para o cinema e, atualmente conta com várias versões desde Errol Flynn até Charlie Sheen nos papéis de "D'Artagnam". Sua última versão saiu nos cinemas em 2011 com Luke Evans como "Aramis" e Logan Lerman como "D'Artagnam". Os três mosqueteiros encantaram crianças e adolescentes por gerações a fio e se tornaram seus heróis de capa e espada. Eles também eram meus heróis nas minhas fantasias infanto juvenis e eu sempre os vi dessa forma até conhecê-los.

 Há vários anos minha irmã morou em Paris e eu, estando de férias no trabalho, decidi fazer-lhe uma visita. Enfrentei doze horas de avião sem nunca ter viajado em um e tive aquelas crises de pânico básicas de "marinheiro de primeira viagem" até aterrissarmos em solo parisiense. Ela me esperava no aeroporto com um abraço bem apertado guardado debaixo da manga. Já foi me falando sobre os lugares que devíamos visitar. Achei todos bem clichês: O Louvre, Arco do Triunfo, A Bastilha, Os jardins de Luxemburgo, Champs Elyseès, Torre Eiffel.  Torci o nariz e disse que isso era o que qualquer pessoa quer ver. Queria ver alguma coisa diferente antes de visitar estes cartões postais da cidade.

Chegamos na estalagem onde ela morava, na cidade universitária do Brasil na França. Ela mal deu-me tempo de me trocar e tomar um banho e já me mostrava fotos dos locais que, segundo ela, eu gostaria de visitar. Um deles me interessou. Era um castelo pequeno, belo como o Louvre, mas tinha um aspecto de construção muito antiga. Isso me deixou curioso e perguntei o nome daquele lugar. "Aux de Vicomte", ela disse. Era um castelo que servia de morada para os reis da França antes da construção do Louvre. Sua construção datava do século XVII. Um sorriso se abriu no meu rosto.

No dia seguinte no horário da visitação para turistas, estávamos os dois dentro do castelo que tinha sido a residência do rei Luís XIV. Entramos em um amplo salão com decorações e móveis da época e foi lá que eu me defrontei com eles. Uma visão bem interessante da história francesa. Usavam chapéus de três pontas com uma pena inclinada presa à copa. Espadas, botas, luvas e a flor de lis estampada no peito do uniforme. Estaquei defronte a eles e fiquei em uma espécie de contemplação muda que demorou cinco intermináveis minutos.

Eram estátuas de cera dos três mosqueteiros do rei. Idênticas a um homem em perfeição e em tamanho. Os olhos eram quase vivos. Uma obra de arte. Tirei fotos escondido do guia, que tinha deixado explícito que não era permitido fotos ali, mas eu não resisti. Minha irmã andava a meu lado para transmitir as informações do guia e fez um sinal de censura com o dedo ao me ver fotografando.

Havia uma placa de metal grande com os seus nomes. Lembrei-me dos meus dias de criança, quando fingia ser um deles e brincava com uma espada de plástico. Já íamos embora quando notei algo perto do rodapé. Era uma placa de vidro fixa na parede logo acima do rodapé de pedra. Eu me acocorei para observar. Era uma folha de papel protegida por uma placa de plástico. Pus-me a ler o que estava escrito.

A pequena folha de papel dizia o seguinte: "Athos, Porthos, Aramis e D'Artagnam foram mosqueteiros da guarda real do rei da França. Tinham moral duvidosa e um passado de conduta violenta. Cometeram crimes que lhe valeram a pena máxima e o Rei comutou suas penas em serviços à coroa. Eles faziam toda a sorte de serviços "sujos" para o estado em troca de pagamento em soldo. Em caso de fracasso em alguma das missões o acordo é que seriam abandonados. Mas nunca fracassaram em nenhuma missão dada pelo rei, de modo que ganharam muito dinheiro e ficaram famosos. Foram admitidos oficialmente na guarda real e ovacionados pelo rei da França e pelos soldados. Suas penas foram perdoadas e viraram "heróis".

Minha cabeça deu um clique. Só então percebi que os três mosqueteiros haviam sido pessoas de carne e osso. Fiquei feliz em saber que eles não eram personagens de ficção, e sim bandidos pagos pela coroa para cometer atrocidades. Chamaram isso de "bons serviços" prestados. Foi-se minha fantasia e meu sonho infanto juvenil. E assim, encerrei minha visita ao Aux de Vicomte.

Jorge Pedro Almeida Lima

Meu nome é Jorge Almeida, residente no Rio de Janeiro capital e formado em Engenharia Civil. Trabalho há 17 anos como Engenheiro Civil na área de Gestão de Projetos para obras de infraestrutura  e saneamento básico para áreas carentes do município do Rio de Janeiro. Leitor voraz de romances e literatura clássica, descobri na Escrita Criativa um novo prazer.