por Frederico Braga
Fios de seda
O dia de meu julgamento se aproximava e eu ansiava por isso. Não via a hora de ser julgado pela atrocidade que cometi. A esperança de ser jogado em uma cela com alguém pior do que eu me animava. Também não deixava de alimentar esperanças pela execução imediata, uma vez lida a sentença.
Já faz anos que tudo aconteceu e permanecer vivo por tanto tempo me causa agonia. Os vermes, que já deviam estar me comendo, morrem de fome enquanto ainda respiro. Mas não sou capaz de acabar com essa situação e colocar o ponto final nessa história. Ah, não! Suicídio me levaria para longe e, ao morrer, desejo estar perto de minha amada.
Anos maravilhosos passamos juntos. Mesmo nas noites frias, nossa cama era quente. Nos amávamos como dois jovens amantes na saída de uma festa. Pauline me completava e eu era seu por inteiro. Possuíamos um ao outro como um espírito encarnado.
Quando nos conhecemos, éramos crianças, mas o amor que nos unia vinha de outras vidas. Ela era meiga e extrovertida. Seus olhos castanhos, grandes e alegres, sorriam ao me ver. Pauline tinha a pele tenra e cheirosa. Os dedos de suas mãos eram gordinhos e eu adorava dar-lhes mordiscadas antes de fazermos amor. Começava nas pontinhas e ia percorrendo cada palmo daquele corpo voluptuoso, parando apenas quando chegava em seus cabelos.
Ah, os cabelos de Pauline. Nunca vi nada igual. De tão macios e sedosos, chamavam-na de boneca. À noite, quando já estava dormindo, enfiava minha mão aberta sob seus cabelos e lentamente os puxava só para sentir seu perfume e o toque de veludo. Perdi a conta de quantas noites dormi segurando-o. E quando Pauline ia à fazenda visitar os pais, era à fronha que eu recorria. Só para sentir seu cheiro.
Nunca tivemos filhos. E por escolha própria, decidimos gozar a vida para nós mesmos. Com certa frequência, jantávamos na casa de amigos, íamos a festas e celebrações. Éramos felizes assim.
Mas aos poucos alguns se mudaram. Outros tiveram filhos e agora se reuniam com casais que também já tinham filhos. Outros morreram e algumas amizades foram desfeitas.
Restamos Pauline e eu e começamos a nos acomodar. Mas a vida sem um propósito, qualquer que seja ele, pequeno ou grande, não é uma vida bem vivida. Vínhamos, ambos, de boas famílias. Eu, órfão de pai e mãe desde pequeno, fui criado por meu tio. Ao completar a maioridade, passei a gerir os negócios de meus pais. Cinco anos depois, foi a vez de meu tio nos deixar e, também sem filhos, seu quinhão coube ao único herdeiro vivo.
Pauline vinha de uma família com proeminentes juristas. O bisavô havia sido importante figura na época do Império e seu pai era desembargador.
Apesar de não nos faltar nenhum luxo, de repente, passamos a sentir-nos vazios e mesmo nos amando loucamente como dois adolescentes, não raro nos deparávamos acordados, no meio da noite.
Entre uma conversa e outra, decidimos viajar. Viajamos por todos os lugares pelos quais desejávamos enquanto a criadagem cuidava das fazendas e da casa sem os patrões.
Da Europa à África e de lá, para a Ásia e para a Europa novamente. Viajamos de trem, de navio. De cavalo, entre Dacar e o Cairo, atravessando o deserto do Saara, e foi em Istambul que encontramos a resposta que não procurávamos, mas quando encontrada, soubemos que se tratava dela. Um gato.
Sim, um gato. Istambul é cheia deles desde o Império Otomano. Pauline adorou a ideia de ter um gato e me convenceu. Mustafa, nome escolhido para o bichano, faria companhia a ela que ficava semanas sozinha, apenas com os empregados, enquanto eu visitava nossas fazendas durante a safra. Decidimos levar o gato para casa.
Durante a viagem de regresso, Pauline sentiu-se mal. Sentia enjoo e falta de ar. Já não estávamos na idade de ter filhos. Por isso, uma gravidez foi descartada.
Ao chegarmos, foi consultar. O mal-estar já havia passado. "Deve ter sido o cansaço acumulado da viagem", pensamos, e demos o assunto por encerrado. Logo chegou a época da colheita e me ausentei por algumas semanas. Quando voltei, encontrei Pauline magra, olhos fundos. E tossia. Meu Deus, como tossia.
– Vamos ao médico imediatamente – falei.
Apesar de ter sido atendida pelo médico que cuidava dela desde sempre, os acessos de tosse, em especial durante a noite, não me deixavam dormir. No escuro de nosso quarto, os olhos de Mustafa, que agora dormia a nossos pés, brilhavam a cada tossida.
Nos dias seguintes a tosse piorou ainda mais. Pauline agora não tinha apetite e sofria com constante falta de ar. Já era quase fim de outono e os dias amanheciam com o orvalho cristalizado sobre as folhas das plantas. Mesmo assim, uma janela precisava ficar aberta. E Mustafa sempre por perto, observando e ronronando.
Apesar de preocupado, tive de sair para tratar de compromissos profissionais e da preparação para o próximo plantio após o inverno que se aproximava. Antes de finalizar meus afazeres, contudo, regressei. Fui chamado às pressas. Pauline parecia não estar respirando.
– Pauline, meu amor – gritei ao entrar em casa enquanto corria para nosso quarto. Portas abertas, janelas escancaradas, cortinas voando ao léu. O ar frio cortava o ambiente. Pálida, quase transparente, Pauline estava coberta até a cintura com um cobertor.
A cama tinha sido arrastada para a soleira de uma das janelas. Braços e mãos gelados, cabeça inclinada para trás, como se buscando o ar lá fora. Seus cabelos e olhos, outrora tão belos, agora desgrenhados e arregalados. Um gemido sofrido vinha do peito que arfava, caía pesado e arfava de novo.
De imediato, levei-a ao hospital. Baixou na hora e foi entubada. Passei três dias sem tomar banho. Nem fome, sede ou cansaço me fizeram voltar para casa. Pauline havia se recuperado da crise de asma, agora sabíamos, mas ainda exigia cuidados.
Outros dias se passaram e me obriguei a ir para casa. Tomei banho, me barbeei. Comia o que me ofereciam, mas sem vontade. Voltava ao hospital para dormir ao seu lado. Abandonei os compromissos com as fazendas e pouco me importava com isso. Pauline era mais importante para mim.
Da poltrona posta junto ao leito passava a mão em seus cabelos e em sua sobrancelha. Acariciava-lhe a ponta das orelhas e lábios. Fiz isso dia após dia e noite após noite. Aquele inverno, embora rigoroso, não me afastava, e mesmo cansado e com sono, permanecia com ela.
Em uma noite após a sopa e enquanto segurava seus cabelos, Pauline teve uma crise respiratória. Seu quadro se agravou e, mais uma vez, ela foi entubada. Sua condição evoluiu para uma pneumonia que tomou conta de seus pulmões. Agora ambos estavam quase comprometidos por completo. Me desesperei, mas não saí do hospital.
Esperava diuturnamente por notícias suas. Por ser alguém importante e conhecido, nenhum médico solicitava que me retirassem e assim fiquei. Em uma tarde, fui acordado de um cochilo por alguém que pressionava meu braço.
– Sua esposa está melhor e vai voltar para o quarto – disse a enfermeira.
Com as mãos entrelaçadas sobre a boca e segurando as lágrimas, pedi para vê-la. Não foi autorizado. E com a garantia de que estaria novamente no quarto após as dezoito horas, voltei correndo para casa. Precisava me recompor, trocar de roupa. Agora sentia fome.
Fui, deixei algumas instruções para os empregados e voltei o mais rápido que pude.
Quando cheguei, a enfermeira que me acordou foi a primeira a me ver. Sua expressão havia mudado. O sorriso encorajador de antes havia sumido e dado lugar a uma expressão séria e contida.
– O Doutor Júlio irá conversar com o senhor.
– Por quê? – quase gritei.
Sem me responder, me conduziu por um longo corredor de ladrilhos verdes e brancos. E numa espécie de "bem-me-quer, mal-me-quer", cada ladrilho que era pisado provocava um sentimento. Verde. Ela está bem. Branco. Pauline morreu.
E assim, eu segui. Primeiro, caminhava a passos largos, depois mais lentos.
Verde. Branco. Verde. Branco. Verde. Branco. Verde. Branco. Verde... a porta do consultório foi aberta. Entrei.
Um pesaroso Doutor Júlio me recebeu e sem muito florear, contou que Pauline falecera durante minha ausência.
– Mas fui avisado de que ela iria para o quarto ainda hoje. O senhor está enganado. Não é possível que isso seja verdade. Foi um engano.
Já acostumado a reações como essa, o médico se aproximou de mim em silêncio, me abraçou, deu alguns tapinhas em minha nuca, me olhou nos olhos e disse:
– Quisera eu estar enganado. Sua esposa se foi. Teve uma crise, não conseguimos controlar. Foi muito rápido, todos os médicos e enfermeiras chamados...
Não ouvi mais. Não interessava. Estava feito. Pauline havia me deixado.
Branco.
Dois meses se passaram desde então. Naquele dia, Mustafa e eu estávamos sentados próximos da janela, de onde podíamos ver a árvore de jabuticaba sob a qual ela havia sido sepultada. Ao lado, estava a minha árvore. Também de jabuticaba. Mas a minha cova ainda não havia sido preparada. Também não tinha sido a de Pauline. Isso era algo que não pensávamos, os pormenores. Tínhamos muito tempo de vida ainda juntos.
À medida que anoitecia, minha cabeça era invadida por memórias dos nossos melhores dias. Nossa primeira vez, escondidos, na casa do desembargador. O suor de corpos se misturando um ao outro. O risco de sermos pegos. O dia do casamento, com meu tio nos abençoando. As festas e os jantares na casa dos amigos. Nossas viagens, as comidas diferentes que fazíamos questão de experimentar quando viajávamos para o exterior... – Mas nada, nada me dava tanta saudade do que sentir o cheiro de seus cabelos. Sua maciez e volume.
Absorto nessas memórias, adormeci com o gato em meu colo. Já era tarde da noite quando acordei. Lembrei-me de Pauline e tive uma onda incontrolável de choro e dor. Uma parte de mim havia sido arrancada. Olhei para baixo e Mustafa dormia tranquilo a meus pés. Naquele momento, senti muita raiva. Ele foi o causador da morte de Pauline. Por sua causa, ela adoeceu e morreu. Sem conter meus ímpetos, dei-lhe um chute.
– Gato assassino. Some daqui – esbravejei.
Assustado e miando, saiu correndo e se escondeu. A imagem de Pauline e a saudade que sentia eram insuportáveis. Era um peso que não podia mais carregar. Saí porta afora e fui em direção ao pé de jabuticaba. Chegando lá, caí de joelhos sobre a grama que já formava raízes. Chorei e chorei. Abracei e beijei a grama que estava entre mim e minha amada.
E quando me dei conta disso, percebi que a única coisa que nos separava era um punhado de terra e grama recém-plantada. Comecei a puxar folha por folha. Era fácil. Tirei mais algumas. Continuavam saindo facilmente apesar das raízes. De joelhos, olhei para cima e me detive por um instante. Um breve instante. E quando fitei a grama novamente, não me contive. Com toda a força e velocidade quanto fora humanamente possível, arranquei com minhas mãos toda a grama e terra que cobriam o cofre em que estava minha amada.
O mesmo suor que um dia encontrava o corpo dela em nossa cama, agora caía como goteira e se misturava na terra. Senti minhas unhas arranharem algum tipo de metal e intensifiquei o trabalho. E com mais ansiedade, alcancei o caixão. Quando vi a janelinha que dava para seu rosto, parei. Naquele instante, me dei conta do que eu estava fazendo. Tive a chance de me recobrar de toda a loucura e delírio por um breve momento.
Mas tão momentânea quanto veio, a lucidez se foi. Me levantei e corri até a cozinha. Vasculhei todas as gavetas. Encontrei uma faca e um martelo. Julguei ser suficiente e corri de volta à jabuticabeira. Terminei de remover o resto de terra que encobria a tampa do caixão e me debrucei para abri-lo.
Certamente não esperava o que ia encontrar. Minha Pauline estava ali. Morta já há dois meses. Mas a saudade era tanta que eu não aguentava. Um a um removi os pregos e parafusos. Alguns com muita dificuldade, o que me deixava ainda mais ávido por revê-la. E, apesar disso, me contive e não retirei a parte que encobria apenas seu rosto.
Quando cheguei nos dois últimos pregos, atirei para os lados a faca e o martelo que estava usando e, com as duas mãos, forcei a tampa para cima até abri-la totalmente, quebrando as pontas onde ainda estava afixada.
Oh, vou poupá-los do que vi e senti. Só posso dizer que caí de joelhos, agora sobre seu corpo ou o que fora ele e chorei. De tristeza e de felicidade. Abracei minha amada e senti seus cabelos em meu peito. Não eram tal quanto antes, mas continuavam macios.
A noite se alongou e eu permaneci ali, imóvel e em silêncio. Aos poucos, nada mais senti. O ar da madrugada já havia absorvido tudo o que era necessário. Minhas lágrimas secaram e entendi que aquela seria a última vez que estaria, em carne e osso, com minha amada. Mas não podia deixá-la. Não sem uma recordação. Um pensamento me ocorreu e eu sorri.
Levantei-me e notei, próximo da porta que dava acesso aos fundos da cozinha, dois pontos brilhantes. Era Mustafa que me observava de longe. Chacoalhei a terra agora úmida que estava em minhas roupas e procurei pela faca que eu havia deixado de lado. Encontrei-a.
Acordei com batidas que mais pareciam um estrondo. Já era dia e o sol aquecia parte de meu quarto. Abri a porta e apenas meu rosto e uma de minhas mãos eram visíveis.
– O que foi que aconteceu... – não pude terminar a frase.
A empregada olhou para minha cara e dela para minha mão. E mais uma vez para minha cara. Arregalou os olhos, gritou e saiu correndo. Fiquei sem entender. "O que houve?", pensei.
E então, olhei para as mãos. Vi a terra preta sob unhas. Por todo o chão, havia terra e barro. Voltei-me para a cama. Os lençóis pareciam ter sido esfregados em uma poça d'água, enlameados. E tal qual um raio, a consciência que antes sumira, caiu sobre minha cabeça.
"Meu Deus, o que eu fiz? O que eu fiz?", já me lembrando da noite passada. O desespero, o aperto no peito, tudo veio junto. Me sentei na cama, coloquei as mãos sobre o rosto e com um baque surdo me deixei cair no chão, não acreditando no crime que havia cometido.
Encolhido em mim mesmo, vi Mustafa sair correndo debaixo da cama para longe, miando, preocupado em se salvar. A visão de seu rabo abanando freneticamente me fez lembrar de tudo o que eu tinha feito.
Me pus de pé, olhei em volta e não encontrei. Caminhei de um lado para o outro ao redor da cama. Apalpei meu casaco, virando-o do avesso. Retirei todos os lençóis com uma só mão. No criado-mudo, uma impressão digital feita de terra parecia estar ali. Era claramente um polegar, o meu polegar. No puxador da gaveta, um pequeno torrão.
Passo por passo, me aproximei e parei. Ao abri-la, vi ali dentro, reluzindo como se fosse ouro, os cabelos de Pauline, tão macios como fios de seda.
Verde.
Leitura crítica: Patrícia da Fonseca
Revisão gramatical e leitura crítica: Maria Teresa Stefani
Frederico é escritor, leitor e advogado. Nem sempre nessa ordem. Começou a ler ainda muito pequeno, gibis da Turma da Mônica e Disney. O hábito da leitura sempre fez parte da sua vida e até hoje, não importa onde esteja, sempre que está à mesa, gosta de ler os rótulos daquilo que está consumindo. Acredita que todo livro é uma viagem e que toda viagem, se bem contada, vira literatura. Por isso criou o projeto chamado "Quem lê, viaja!", um espaço em que se lê para entender o mundo, não apenas cumprir meta. Nele você encontra crônicas, contos, análises literárias e conversas honestas sobre escrita. Sem academicismo. Sem ranking. Sem leitura de perfomace. Apenas a experiência de quem lê. E escreve. E, é claro, as viagens não precisam ser literais. Podem ser na maionese mesmo.