por Andreia Santiago
Mais um dia de férias. Nadei até cansar, corri, joguei frescobol. Bebi tantas águas de coco que nem senti fome. Sal na pele, vento leve, céu aberto. Um dia clássico de verão nas praias oceânicas. Mas eu precisava ir. A leitura do momento era o pano de fundo das minhas ações. Antes de ir, encostei no balcão do quiosque.
— Valeu, Cacau. Anota pra mim? Amanhã eu acerto.
— Pode deixar, princesa. Mas volta mesmo.
Eu sorri. Sabia que voltaria.
A estrada de barro vermelho cortava um cenário ímpar: de um lado, dunas claras, como o branco do olho, encobrindo a visão para o mar; do outro, a vegetação de restinga, com camaleões, aves de rapina e bromélias criando pequenos oásis na areia reluzente. Num ponto mais alto da estrada, o mar se revelava. E, bem à minha frente, por sobre a restinga, o astro-rei alaranjado no céu multicolorido. Eu parei.
Empurrei a bike por alguns metros até uma duna e me sentei. Fiquei ali, hipnotizada.Tirei da mochila o livro do ocultista Eliphas Levi e fui passando as páginas, até me deparar com uma gravura: ensinava a desenhar um pentáculo para invocação de espíritos do bem ou do mal.
Não soube explicar por quê, mas senti um impulso estranho. Já estava escurecendo, então guardei o livro, subi na bicicleta e segui para casa. No caminho, vi algumas madeiras empilhadas para descarte na esquina da padaria. Havia uma peça quadrada, limpa, pedindo para ser usada.
Assim que cheguei em casa, segui as orientações do livro usando a peça de madeira e algumas tintas que estavam guardadas. O desenho tinha dois triângulos apontando em direçoes opostas, um preto e outro branco, com inscrições específicas. Eu não entendia o significado das palavras, mas reproduzi tudo com exatidão. O tipo de espíritos a ser atraído dependeria do triângulo apontado para cima. A cor branca traria espíritos benignos, e a preta, espíritos malignos.
Trabalhei nisso até que o estômago me distraiu. Deixei o objeto secando no quarto, sem prestar atenção na posicão, e fui jantar.
Meu padrasto estava em casa. Havia algo nele que sempre me incomodou: o olhar, o jeito, a forma como tratava minha mãe.
— Ele te sufoca, mãe. Credo.
— Ai, menina, não exagera. — Não adiantava insistir. Mas, no fundo, ela não tinha coragem de assumir que concordava.
Para ficar longe dele, voltei para o quarto. Peguei o livro e me acomodei na cama, deixando o corpo afundar no colchão enquanto meus olhos percorriam as palavras de ativação do pentáculo. Havia algo de hipnótico naquelas frases, uma cadência quase ritualística que me mantinha presa à leitura. Era intrigante, embora eu não compreendesse totalmente sua utilidade. Sem perceber, adormeci.
Abri os olhos. O teto do quarto estava tomado por espectros escuros, como fumaça densa que se espalhava em todas as direções. Vozes em coro murmuravam meu nome. O pânico me invadiu.
— Mãe! Mãe!
Nenhuma resposta. Eu me levantei. Tentei ligar a luz do quarto e nada. Corri para o banheiro no meio do corredor, mas essa lâmpada também não acendeu.
— Está faltando energia, só pode ser isso.
Segui até o quarto da mãe. Bati na porta. Chamava, batia, chamava, batia. Abri e congelei. O meu padrasto estava segurando minha mãe por trás, envolvendo-a com força, as mãos tapando seu nariz e boca. Ela se debatia.
Não era possível. Naquele instante, compreendi. Eu não estava no meu corpo: era uma experiência extracorpórea. O desespero tomou conta. Corri de volta para o quarto, deitei na cama tentando respirar, tentando acordar.
— Mãe, mãe? — A voz saía fraca, distante, como se não fosse minha.
Parecia não ter fim. Até que, de repente, o grito veio inteiro, rasgando o ar. E eu acordei com minha mãe ali, me segurando, assustada.
— Filha, calma. Estou aqui, respira.
— Foi um pesadelo horrível, cruzes. — Eu ofegava.
Virei o rosto e dei de cara com o pentáculo. Estava encostado na parede como eu havia deixado, com o triângulo preto voltado para cima. Sem hesitar, peguei a madeira e lancei pela janela. O impacto seco no quintal ecoou mais do que deveria. Fiquei olhando em silêncio, sem saber exatamente o que havia sido despertado.
Revisão de texto: Marina Mainard
Andreia Santiago é do Rio de Janeiro. Terapeuta Integrativa com mais de 30 anos de experiência. Produtora de cursos on-line, também é cantora e musicista/DJ, integrando som, arte e cura em suas práticas. Estudante de Baixo e Escrita Criativa.