por Mileny Brondani
Frenético, distraído e assustador
Espirrei o perfume para cima e parei para vislumbrar a nuvem aromática, antes de desfilar sob ela. Dei uma última retocada no batom e estava vestindo a jaqueta quando ouvi a buzina. Juntei bolsa, chaves e celular e desci. Ele nunca havia sido pontual, mas estava lá, em frente ao meu prédio, às 20 horas em ponto, como havia dito que seria. Sorri.
Faziam duas semanas que não nos víamos, desde que o mudaram de setor no trabalho. A mudança foi uma promoção, mas ele encarou a troca como castigo.
— Boa noite, gata – Ele me cumprimentou com um beijo.
— Olá – Sorri para ele.
Ele deu a volta no carro, olhando ao redor, e abriu a porta do passageiro para mim, muito cavalheiro. Depois que entrei no carro, ele revisou o banco atrás do meu, se olhou no reflexo da pintura e disse algo que não entendi. Foi estranho, admito, mas não liguei.
— Como foi sua semana? Já faz um tempo que a gente não se fala – Perguntei.
Ele ficou doente dois dias após a promoção, e desde então estava recusando minhas ligações e respondendo de forma monossilábica. Não foi estranho, já que ele costuma ser mais recluso, sempre guardando as coisas mais para si, lidando com tudo sozinho, mas estamos saindo há alguns meses, esperava que ele ao menos tentasse se comunicar.
— Bem. Eu estou melhor. E você?
— Que bom que melhorou. Eu estou bem, as coisas estão indo... – Ele riu do nada, balançou a cabeça de forma negativa e batucou os dedos na testa. – Hã, bem.
— Que ótimo. É, isso aí. Ótimo.
Então, passamos uma boa parte do percurso em silêncio.
E não aquele tipo de silêncio bom, não. Foi mais do tipo esquisito, sem saber o que falar. Eu estava incerta sobre o que fazer com as mãos, senti meu couro cabeludo começar a pinicar com o nervosismo e, por fim, fiquei encarando as luzes dos carros na nossa frente. De canto de olho, percebi que as mãos dele estavam tremendo. Achei que estava imaginando, mas quando ele fez uma curva, pude ver de forma nítida. Não estava frio, na verdade, estava bem abafado, então prestei mais atenção.
Seus olhos estavam caóticos, ele olhava para todos os lados, parecia ler cada placa, letreiro e pichação pelo caminho. Ouvi um sussurro e percebi que ele soltava algumas palavras aleatórias ao vento, como se estivesse ponderando algo ou conversando sozinho. Ele mantinha a mão direita no volante e começou a coçar a cabeça com a esquerda, como se quisesse cavar o próprio crânio com as unhas. O barulho do roçar de cabelos, o frenesi do encontro entre unha e couro cabeludo, a calça preta sendo tingida com pequenas partículas de pele capilar morta.
— Você está bem mesmo? Fez alguma consulta para saber o que eram aqueles sinto?
— Eu preciso contar uma? NÃO!
Ele gritou e deu um soco no volante. O carro deslizou de leve e alguns motoristas em volta buzinaram em protesto.
— Rich, o que houve? Por que você gritou?
Os tremores nas mãos ficaram mais evidentes e ele começou a dar batidinhas na própria cabeça, um sorriso oblíquo se formando lentamente, manchando sua linda face com um semblante maquiavélico.
— Eu preciso te contar, mas eu não posso. Eu quero? NÃO, NÃO, NÃO? eu preciso contar: Eu não estou bem.
— Jura?!
— Eu sei – Ele soltou uma gargalhada curta e um risinho, depois suspirou de forma manhosa. – AH, ESSAS COISAS, EU SINTO ELAS AQUI – E apontou para a própria cabeça.
Ele me encarou, as pupilas estavam retraídas, como se me visse, mas não focasse em mim, exatamente. Parecia frenético, distraído e assustador.
— Rich, para o carro. Rich, POR FAVOR, PARA ESSE CARRO!
— Eu vou, eu? DROGA? por favor, gata, só ME ESCUTA!
Minhas mãos suavam e o cheiro do meu perfume me deixou tonta, o desespero se espalhava e eu podia sentir a adrenalina se juntando aos meus sentidos rapidamente. De repente o carro parecia pequeno demais, o ar parecia seco de mais, meus músculos doíam e eu precisava correr.
— Eu não melhorei, eu menti. SIM! NÃO, MERDA! Quando me trocaram de setor eu sabia que ia ser ruim. Eu sabia, sim, sabia. As pessoas de lá... – A risada de novo, como se soubesse de algo, mas não pudesse evitar. — Eles são ruins, o lugar é uma merda, eu ouço essas coisas e sei que é culpa deles, mas NÃO, eu, eu, eu...
— Do que você está falando? Meu Deus, cuidado, ai, minha nossa, EU NÃO QUERO MORRER, RICHARD!
Num rompante causado pelo tremor, ele desviou do caminho para o restaurante. Senti meu corpo eriçar, um calafrio percorreu minha espinha e minhas mãos tateavam o carro, em busca de algo em que pudesse me segurar de verdade.
Estávamos agora em uma rua mais escura, mas ainda movimentada. Músicas tocavam no volume máximo ao redor, acho que estávamos próximos de alguma boate ou clube. Fosse o que fosse, a situação piorou.
— Rich, me conta o que está acontecendo com você. Você está me assustando e, pelo amor de Deus, para esse carro, você está descontrolado.
Então, ele coçou a cabeça com mais força e suas mãos começaram a se embrenhar nos cabelos escuros. Os cachos – que eu tanto adorava – saíram aos montes, enrolados nos dedos. Os olhos ficaram vermelhos e o rosto se assemelhava no tom, parecia que seus olhos saltariam pelas órbitas. Até que o impensável aconteceu: filetes de sangue começaram a escorrer de seus ouvidos, manchando a gola de sua camiseta e havia uma gosma junto. A principio eu não compreendi – e agora penso que gostaria de ter continuado na ignorância.
Minhocas começaram a sair com o sangue.
— Eles fizeram isso comigo, gata. Foram eles, eu sei que sim. Colocaram aqui, em mim.
Minhocas.
Saindo de seus ouvidos.
— Richard, que porra é? AI MEU DEUS!
O barulho dos pneus chamou minha atenção e as luzes ficaram mais intensas, fechei os olhos com força, sentindo minhas pupilas às cegas, por causa de todas as luzes, então veio o baque. O barulho preencheu meus ouvidos, mas consegui ouvir Richard gritar, então o carro virou e, apesar de me sentir consciente disso, de sentir quando minha bolsa me atingiu no rosto com força e do pinicar dos meus cabelos que pareciam voar por todos os lados, não tive coragem de levantar os olhos. Os sons ao redor eram estranhos para mim, as texturas e cheiros também.
E tinha o medo.
Então, mesmo querendo ver o estrago, mesmo querendo entender o que estava acontecendo, mesmo com as vozes se aproximando e com uma dor persistente, não reagi. Conseguia ouvir Richard se lamentando e rindo e gritando, com o som gelatinoso se chocando e preenchendo o carro com um odor de terra.
Por isso, apenas fiquei lá, imóvel. E continuei sem abrir os olhos.
10 de setembro de 2021
Mileny é leitora de carteirinha desde que se conhece por gente e compartilha suas opiniões sobre suas leituras em suas redes sociais. Se graduou em Escrita Criativa pela PUCRS e hoje é aluna na pós-graduação de Comunicação Digital e Redes Sociais da UniRitter. Atualmente, atua como Assessora na Diretoria de Educação Continuada da PUCRS, cursa a Formação de Revisores da Editora Metamorfose e edita roteiros longos de RPG. Academicamente, pesquisa sobre os vilões-heróis e anti-heróis da literatura de fantasia contemporânea enquanto transita para a graduação de Letras-Inglês, com foco em Educação Corporativa. Seu portfólio de escrita é recheado com textos sobre horror, amor e os entremeios da condição de ser e estar vivo.