por Andreia Santiago
A mudança para o bairro de Ibirubá foi como uma renovação. Materializei o desejo de viver no ritmo caiçara, pé na areia, tendo o som do mar como trilha contínua do dia a dia. O amanhecer era um espetáculo à parte: espectros de luzes se abrindo no horizonte, o vento leve, a promessa de que estávamos exatamente onde deveríamos estar.
Com o tempo, tudo se organizou, mas como as estações do ano, que mudam sem pedir licença, algo voltou, de forma insistente, a se transformar entre nós. O inverno chegou. E não foi só do lado de fora.
A temperatura caiu devagar, quase imperceptível no início, como acontece nas relações que começam a esfriar por dentro antes de se tornarem evidentes. Abaixo dos vinte graus, o corpo já sente e o casamento também. O que antes era calor compartilhado passou a exigir esforço. Pequenos gestos deixaram de acontecer. O silêncio começou a ocupar espaços que antes eram preenchidos por cumplicidade.
A sobrecarga das tarefas pesava mais em mim do que eu queria admitir. E, aos poucos, fui percebendo que não era apenas cansaço. Estava nítido, não era mais sutil. A falta de empatia do Omar com a minha filha adolescente não era um detalhe; era uma rachadura. E rachaduras, quando ignoradas, crescem.
Omar fez questão de me dizer que a cartomante que costuma consultar-se previu uma separação. Não acredito nessas coisas.
Naquele cenário, fui entendendo que não bastava querer acreditar que algo é sólido o bastante para resistir às mudanças de estação. Dentro de mim, uma percepção começava a se formar com a mesma velocidade das frentes frias que avançavam pelo litoral: talvez eu tivesse me enganado.
Foi inevitável lembrar de Ian — da leveza que existia entre nós, da forma como o tempo parecia se dissolver quando estávamos juntos. O jeito como ele me beijava, a intensidade com que me queria, tudo isso voltou com força, como saudade física.
Decidi desbloqueá-lo e foi quase de imediato, como se o pensamento tivesse chamado por ele. Minutos depois, a mensagem chegou. Ian disse que ultimamente andava ouvindo meus áudios antigos e percorrendo os locais que costumava me ver na cidade. Propôs um encontro, sem rodeios. E aquilo mexeu comigo mais do que eu gostaria de admitir. Aceitei sem pensar. Havia desejo, mas também medo de me perder em algo que eu ainda não compreendia completamente dentro de mim.
Entre o impulso e a consciência, algo começava a se revelar. A realidade era sobre escolhas e o peso que elas carregam.
Ele veio me buscar na esquina de casa. Quando entrei no carro, bastou um olhar e tudo o que estava contido em mim se rompeu. Nos beijamos ali mesmo, ainda estacionados. Havia urgência, mas também reconhecimento. Como se o tempo não tivesse passado.
— Sara, quando percebi que não respondia minhas mensagens, queria entender o que poderia ter acontecido.
— Eu te bloqueei, me desculpe.
— Tudo bem, entendo. Ainda está casada, não é mesmo?
— Ainda. Por enquanto.
— Mas você acha que ele merece isso?
— Não sei, mas tenho certeza do que eu mereço.
Ian ficou vermelho, respirou fundo e sorriu.
Fomos até um pequeno cais de canoas na beira da lagoa, do outro lado do bairro, escondido pela vegetação, sob a lua cheia. E ali, entre nós, tudo queimava com uma intensidade que eu já não lembrava ser possível.
Depois, voltamos até a beira da praia. O vento frio tocava a pele ainda quente, e eu me sentia viva de um jeito que há muito tempo não experimentava. Havia leveza, uma alegria quase infantil misturada com a certeza de que algo dentro de mim tinha mudado.
Mas, de repente, veio um pressentimento. Hora de voltar.
Cheguei em casa poucos minutos antes do Omar. Eu estava diferente. Radiante. E, pela primeira vez em muito tempo, certa.
No dia seguinte, pela manhã, me olhou de um jeito estranho, como se já soubesse. Disse que tinha sonhado com traição e que eu estava muito distante. Não consegui sustentar nenhuma versão. Nem quis. Confessei.
As palavras saíram com mais clareza do que eu esperava. Não havia mais espaço para dúvida, nem para adiamentos. Apesar de tudo, senti pela primeira vez em muito tempo, que eu estava sendo inteira comigo mesma.
Revisão de texto: Isabel Guimarães
Andreia Santiago é do Rio de Janeiro. Terapeuta Integrativa com mais de 30 anos de experiência. Produtora de cursos on-line, também é cantora e musicista/DJ, integrando som, arte e cura em suas práticas. Estudante de Baixo e Escrita Criativa.