por Katiene Souza
— Está escutando algo? — comentou Marília, enquanto chutava um pequeno relevo de areia para longe.
Ana Lúcia, tão entediada quanto ela, apenas balançou a cabeça em negativa e suspirou profundamente.
Depois de longos minutos em silêncio naquele calor escaldante do deserto, elas decidiram se sentar em uma duna para apreciar a vista enquanto esperavam. Ana olhava para o horizonte, hipnotizada pelo céu límpido que produzia cores vermelhas e pelas montanhas de areia que pareciam não ter fim, já escurecidas pelo entardecer. Fechava os olhos quando uma brisa leve passava por ela, levando as gotas de suor que se formavam em sua pele.
Marília, em completo oposto dos sentimentos da amiga, estava horrorizada. Ao olhar para frente, via apenas os leitos de rios secos cortando as montanhas que Ana tanto amava. Fazia 38º mesmo que já estivesse escurecendo, deixando Marília desconfortável; ela sentia a areia trazida pelas rajadas de vento entrar em seus olhos e lambia os lábios secos que insistiam em ficarem rachados — mesmo depois de tomar água. Até ficar sentada naquele lugar inóspito a incomodava.
"Estamos a três minutos do lançamento. As condições meteorológicas são favoráveis para a janela de hoje."
Elas se levantaram tão rápido ao ouvir a voz mecânica do sistema de decolagem, que precisaram se apoiar uma na outra para se equilibrarem.
— Porra, finalmente! — Marília gritou, enquanto batia em seu manto para limpar a areia e ajeitava a túnica para que o sol não a queimasse.
Ana, do seu lado, pulava de alegria enquanto falava: — Não acredito que vamos ver o lançamento de uma Germinare!
Marília não estava tão feliz. Apertou os olhos para enxergar melhor a base de lançamento e disse: — Não entendo o porquê de estar tão alegre, Ana Lu. Estamos sendo deixadas para morrer.
Ana revirou os olhos e jogou as mãos para o lado. — Ahh, por favor! Lá vem você com esse papo de novo. Eles estão salvando a humanidade.
— Salvar a humanidade? — Marília riu com deboche enquanto se virava para ficar de frente com a amiga. — Você já se perguntou o motivo da humanidade precisar ser salva?
"Contagem regressiva final para o lançamento da missão..."
"Cinco..."
No mesmo instante, Ana e Marília cessaram aquele assunto que, sempre que tocado, gerava discussão. Elas tinham algo mais importante para fazer além de brigarem: acompanhar o lançamento de uma nave. Era a primeira vez que elas presenciavam um lançamento tão de perto. Voltaram a olhar para frente, segurando suas roupas e se preparando para a onda de choque que chegaria nelas em poucos segundos.
"Quatro..."
"Três..."
"Dois..."
"Um..."
"Motores acionados, e temos lançamento! A primeira Germinare ruma ao espaço, levando a humanidade a uma distância jamais alcançada antes."
Elas assistiram o foguete deixar a plataforma, permaneceram paradas enquanto ele sumia no horizonte e se sentaram novamente com o rosto entre as pernas para suportar a rajada de vento que o lançamento deixou para trás.
Quando tudo acabou, Marília, com sua língua afiada, falou: — Pronto, Ana, você já viu como é o lançamento de uma Germinare. Agora pode morrer em paz.
Ana revirou os olhos e virou o rosto para a amiga: — Por que você pensa dessa forma?
Marília não respondeu de imediato. Enfiou a mão na areia solta do leito seco e deixou escorrer entre os dedos. — Ana, pelo amor de seja qual Deus esteja nos escutando, você sabe onde está sentada? Isso aqui não era areia, Ana. Era rio. — Apontou para as fendas que cortavam as montanhas ao longe. — Meu pai tinha um livro de antes...
— Um livro de verdade? De papel? — Ana falou com um brilho de empolgação nos olhos.
— Sim, um livro de verdade, Ana, esse livro falava de quando isso aqui respirava. Isso aqui era a maior floresta do planeta. Tinha um rio tão grande que sozinho jogava mais água doce no oceano do que os dez maiores rios do mundo juntos. Tinha onça, tinha sucuri, tinha gente que vivia da mata sem precisar destruir ela. Árvores de verdade, de espécies que a gente nem tem nome pra imaginar mais.
— Entendi, mas o que tem a ver? — Ana perguntou, já cansada do rumo da conversa.
— Tem tudo a ver. — Marília se levantou, sacudindo a areia das mãos e começou a andar de um lado pro outro. — No lugar dessas montanhas de areia, existia um tapete verde tão denso que a copa das árvores escondia o chão do sol. E enquanto a gente vive nessa sauna e respira poeira, eles têm oxigênio de verdade guardado a sete chaves. Bunkers com árvores de verdade nas salas de estar. E sabe quem construiu esses bunkers?
— A gente. Minas, fábricas, comida e água racionadas em troca de trabalho. — Ana respondeu baixo, com os olhos fixos na areia. Ela já sabia essa parte; só nunca tinha juntado com o resto.
— Exatamente. E antes disso — Marília se agachou perto da amiga — existia uma coisa chamada dinheiro. Papel feito de árvore que a gente não tem mais, e que comprava qualquer coisa: mansão, carro, gente. Foi assim que as famílias de hoje construíram um poder que atravessou gerações, mesmo depois do dinheiro deixar de existir. É por isso que eles estão lá em cima, Ana, e não nós.
Ana hesitou. — Faz sentido, Marília. Mas o planeta continua com o que sobrou de árvore, continua com...
— Eles têm o que sobrou. — Marília cortou, sem gritar dessa vez, tomada pelo cansaço. — Quem constrói o conforto deles somos nós. Quem constrói as naves somos nós. Tem algum operário lá dentro daquela Germinare?
— Não. É tudo controlado daqui da base.
— Então me diz: um cara virou o primeiro trilionário do mundo enfiando gente em minas ilegais, e foi idolatrado por "construir" foguetes que nunca tocou com as próprias mãos. Foi ele quem deu a faca e o queijo pra essas famílias saírem hoje dessa plataforma. E agora vão fazer a mesma coisa em outro planeta — com naves que a gente construiu.
Ana ficou em silêncio por um momento longo antes de perguntar, quase num sussurro: — Não, Marília... eles não vão voltar para buscar a gente?
— Buscar quem? Eu e você? A classe operária? — Marília riu, sem humor nenhum. — Você acha que eles se importam com o que fica pra trás? Eu até apostaria com você quanto tempo eles irão levar pra começar a destruir esse planeta novo também. Só acho que a gente não vai estar viva pra saber quem ganhou a aposta.
Katiene Souza é autora de poesias elegias e contos sombrios, possui duas obras principais publicadas "Entre mundos" e "Amores passados". Escritora desde criança, utiliza da vida real para criar mundos fictícios. Mora em uma vila tranquila em Minas Gerais e acredita que o cotidiano e histórias locais são a base para tramas originais.