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Gota d'água

Gota d'água

por Beatriz de Mello Beisiegel

 

 

Lá fora, o rugido das motocicletas sobre o asfalto pelando chateia as vacas sonolentas no pasto ao lado da estrada. Mas aqui é floresta. Uma grota funda, fresca, cheia de silêncio. Na lama preta do fundo da grota seca, uma curiosa piscina permanece. Sua beirada é arredondada e ela tem três grandes pontas. A luz oblíqua da tarde reflete uma borda azulada e brilhante na água.

Plif! Uma pererequinha amarela pula na água, bagunçando a borda azul em dezenas de espelhos de folha e céu. O diminuto som chama a atenção dessa avezinha assustada no chão da floresta. Ela assiste aliviada à perereca se abrigando na piscina formada pela pegada de anta. Ele está por aqui, pensa Maqui, e se enche de coragem para continuar a busca floresta adentro. Maqui parece um bem-te-vi, de peito amarelo e costas castanhas, e vive nos pastos, pomares e espaços abertos. A floresta não é seu ambiente, mas hoje ela acordou com o coração apertado de saudades. Precisa ver Cícero, e precisa tanto que não aguentou esperar que ele aparecesse para comer as goiabas na borda da floresta. Por isso se aventura com passos tensos e pequenos voos. Uma profusão de plântulas cobrindo um monte de bolotas marrons, no canto da encosta, mostra o caminho para Maqui. Aquele jardim é um banheiro de Cícero, e agora é só procurar encosta acima.

Cícero nunca tinha sonhado tão gostoso quanto naquela tarde. Maqui encontra o amigo adormecido lá no alto da encosta, aconchegado e protegido numa caminha delimitada pelas raízes de uma árvore caída. Ela ataca de imediato a bola de mutucas que empesta o topo da cauda de Cícero. Cada bicada com a qual ela engole uma mutuca é uma cosquinha no sonho de Cícero, e inúmeras cosquinhas depois ela passa a percorrer todo o grande corpo cinzento, arrancando os carrapatos daquela noite e fazendo coçar o sonho do amigo. Cícero dá um sorrisão trombudo, ainda no sonho, e rola de barriga para cima. Espichando as patas em uma grande espreguiçada, abre os olhos para encontrar Maqui pousada no alto de sua tromba, sorrindo tudo o que uma avezinha pode sorrir.

Eram amigos há alguns meses, e Maqui já não conseguia conceber a vida sem Cícero, a época em que vivia pousada nos mourões da cerca que divide os pastos, como os outros suiriris-cavaleiros, e comia as mutucas e os carrapatos que infernizavam as vacas. Até que uma vaca diferente saiu de dentro da floresta para comer as goiabas que forravam o chão na beira do pasto. A vaca, trombuda e cinzenta, espantou todos os suiriris. Eles conheciam vacas grandes e brancas, ou grandes e malhadas, chifrudas e mochas, mas todas rabudas e orelhudas, com olhos grandes e bondosos e focinhos pretos quadrados e úmidos. Nunca haviam visto uma vaca pequena e cinzenta, trombuda e quase sem rabo.

Enquanto todos pensavam "que bicho estranho", e se aconchegavam cada um no lombo de sua vaca, Maqui só via os carrapatos grandes, redondos, no dorso da vaca estranha. Antes que tivesse tempo de pensar e sentir medo, Maqui estava voando e abocanhando um daqueles carrapatos. Miam! Antes mesmo de descobrir que aquele ser era uma anta, ela havia descoberto o quanto estava enjoada de comer a vida inteira carrapatos com sabor vaca e já se viciara no sabor anta. E depois?

Aconteceu já naquela primeira tarde. Saciada de carrapatos sabor anta, tranquilizada quanto à natureza pacífica daquele novo ser, Maqui se deixou ficar pousada nas costas do bicho, sentindo uma paz inédita em sua curta vida de avezinha. Enquanto Cícero se movia devagar em volta da goiabeira, Maqui via o pasto, seus parentes suiriris e as vacas, como se um calor novo preenchesse toda aquela cena familiar. Embalada pelos passos da anta, resolveu nunca mais desembarcar daquele ser delicioso, mas segundos depois teve que voar dali depressa. Cícero havia devorado as goiabas do chão e voltava para dentro da floresta, e Maqui era uma ave de espaços abertos. Ela adormeceu numa forquilha da goiabeira, e durante os próximos dias tocaiou a anta em suas saídas da floresta e aprendeu os barulhinhos que precediam sua aparição. Percebeu que, enquanto houvesse goiabas no chão, Cícero apareceria todas as tardes. Assim, Maqui passou a ignorar os carrapatos das vacas. Durante os dias explorava a goiabeira, achando insetos para comer aqui e ali, e aguardava o aparecimento de Cícero.

Era uma rotina diferente da dos outros suiriris. Cícero chegava no pasto lá pelo fim da tarde, quando todos já estavam sonolentos. Maqui tornou-se uma avezinha um pouco boêmia e, com o passar das semanas, Cícero tentava acordar mais cedo e chegar à goiabeira algumas horas antes do crepúsculo para que ela tivesse mais tempo de jantar seus carrapatos antes de capotar de sono. Assim, Maqui caprichava e Cícero, todas as noites, voltava para a floresta totalmente limpo, livre dos carrapatos.

Foi nessa época que Rique, um primo de Maqui, passada a fase inicial de desconfiança, resolveu experimentar um pouso naquele ser diferente. Queria entender o que havia ali de tão irresistível para sua prima. Esse dia será lembrado sempre, pelas vacas do pasto, como aquele em que descobriram o porquê daqueles passarinhos tão pacíficos se chamarem Machetornis rixosa, "pássaro guerreiro briguento". Foi só Rique pousar em Cícero que Maqui voou para cima dele enciumada. Não compartilharia seu Cícero com ninguém. Logo uma bolinha furiosa de penas e bicos e pequenas patas cheias de garrinhas rodopiava sobre a anta, que continuava pacatamente comendo as goiabas do chão. As outras avezinhas do pasto tomaram partido, pulando sobre Cícero para ajudar Maqui ou Rique. Durante vários minutos as costas de Cícero foram se entupindo de avezinhas injuriadas, cercadas por uma nuvem de peninhas arrancadas na briga. Enquanto ele terminava de comer as goiabas e se espichava para voltar para a floresta, Maqui terminou de expulsar todos os primos e parentes. Meio depenada e arrepiada, pousou na crina de Cícero e cantou a vitória:

Fririririiiiiiiiii! Com toda a glória de um grilo tímido dentro de uma caixa de isopor bem fechada. Que anticlímax constrangedor, mas os outros suiriris entenderam e nunca mais contestaram: Cícero era de Maqui.

E assim vemos nossa avezinha de espaços abertos orgulhosamente pousada nas costas da anta que, ainda sonolenta, desce a encosta em busca do primeiro gole de água da tarde. Seguindo grota abaixo, ele chega à poça de água limpa que costuma usar, formada por uma nascente curta, mas intacta, correndo totalmente por dentro da floresta. Uma piscina viva de tanta vida que passa por ali: Cícero e suas parentes antas, porcos-do-mato, guaxinins tateando o fundo da água em busca de caranguejinhos, sabiás dando bom dia todas as manhãs.

Mas a tromba sedenta de Cícero só encontra a lama preta. Flunc, flunc, flunc, tateia ele com a tromba, até estar totalmente acordado, alarmado, procurando a água que costumava estar ali. Maqui, empoleirada nos pelos duros da crina perto de sua orelha esquerda, se assusta com o alarme do amigo. Só aí entende que, quando o sitiante e seus filhos entraram na floresta com pás e manilhas, era para aprofundar o poço, para tirar mais água daquela nascente, pois agora havia filhos casados e mais crianças. Não havia percebido que uma mesma aguinha tinha que dar conta de todos: sitiantes e crianças, vacas e lavouras, mas também guaxinins e cuícas, tatus e tamanduás. E que poderia faltar para seu amigo da floresta.

Também nunca havia sentido a pressão da sede, pois qualquer aguinha, até o sereno da noite, já é suficiente para saciar um suiriri, e não entende a tempo o galope de Cícero pela grota abaixo, até chegar ao córrego maior. Aterrorizada, bica e puxa os pelos da crina de Cícero tentando brecá-lo, mas é tarde demais. Ele bebe muito, bebe até perceber algo terrível no gosto da água cheia do veneno que escoa das estufas de tomate. Os suiriris haviam aprendido, ao longo das gerações, a se manterem distantes das estufas envenenadas e não gostavam nem do cheiro do vento que passava por elas.

Cícero para, sentindo o gosto amargo do veneno na água, sentindo ainda mais sede, agora desesperado para lavar o veneno da boca. Procura na memória algum córrego de água limpa. O Parque Estadual, lá do outro lado da pista, é cheio de nascentes e rios cristalinos.

Empoleirada na crina de Cícero, que sobe a encosta e cruza o pasto, Maqui não percebe a tempo o ondular do corpo do amigo à medida que a desorientação provocada pelo veneno se instala. Mas agora é só cruzar a pista e já estarão a salvo no Parque Estadual — só cruzar a pista, mas trançando as pernas daquele jeito?

Não acabou de anoitecer ainda, então não dá para culpar a falta de visão. Cícero, agoniado e grogue pelo veneno, atravessa a estrada trocando as pernas enquanto um caminhão aproveita a reta para acelerar dos 40 permitidos para os 120 que seu coração pede. Mesmo que estivesse alerta para a possível travessia de bichos, e claro que ele não está, não teria como parar. O impacto mata Cícero instantaneamente. Maqui é jogada longe, mas para o caminhão é só um tranco que o motorista endireita rapidamente, xingando, sem olhar para trás, sem nem procurar saber quem é o grande corpo arremessado para o acostamento.

Agora sim, anoitece. Os carros que trafegam pela estrada, com os faróis acesos, cruzam as largas listras de sangue espalhadas na pista e as ignoram, assim como ignoram aquele montinho formado por uma anta morta e uma avezinha em estado de choque pousada sobre o corpo. A noite esfria, o grande corpo cinzento também. A manhã encontra ainda a avezinha pousada sobre o amigo, tremendo. Horas depois, com o sol batendo sobre Cícero e moscas se aproximando, Maqui se aquece e se alimenta. Não sabe nada sobre a morte. Não se afasta de Cícero quando, já dia alto, pessoas cercam o grande corpo. Mais tarde, uma van para no acostamento. Três homens descem com uma pequena retroescavadeira, abrem uma grande vala e empurram para ela o amigo imóvel. Os três precisam se juntar para espantar a avezinha furiosa que teima em atacar a pá e quase é enterrada junto com as primeiras cargas de terra. É um trabalho de poucas horas. Enterrar a anta, lavar o sangue na estrada. A equipe se afasta, tendo espantado Maqui para um mourão de cerca.

Dia chega, dia vai. A estrada segue em seu movimento fumegante de carros. No mourão da cerca que corre ao longo da estrada, uma avezinha permanece pousada dia e noite. Aquele foi o último local em que viu Cícero, e, como na goiabeira, ele há de reaparecer. Quando o sol esquenta, a avezinha oca de saudades se aquece, come alguns insetos, bebe as gotas de sereno e chuva que pendem do arame farpado. Quanto tempo? O tempo de Maqui parou com Cícero.

Fanta, mãe de Cícero, escutou a notícia gritada dias atrás pelas curicacas e periquitões que sobrevoavam o Parque e confirmada pelos uivos de tristeza dos cachorros- do-mato. Tristeza medonha, pois as antas são a resposta ao grito de angústia da vida: "E agora?" Agora uma anta. Uma anta, agora, andando lentamente pela estrada de terra, colhendo samambaias e capins com a tromba, quebrando arvorezinhas para pastar folhas iguaizinhas às da árvore do lado, que ela nem olha. Uma anta coberta de mutucas e carrapatos que deixariam qualquer outro ser alucinado, e ela nem percebe.

Agora, uma anta se aproximando da estrada com sua filhotica nova atrás. Aflita porque, naquele trecho entre as casas dos sítios e as plantações cercadas, não há outro caminho: precisa passar pelo mesmo carreiro usado por Cícero. Saem na estrada no exato lugar onde seu filhote havia sido assassinado, e a cada passo Fanta sente crescer um porco-espinho de medo ocupando sua garganta e seu coração. Bobagem, minha anta, ela tenta se convencer. Quantas centenas de vezes vocês atravessaram essa pista? Você sozinha, você com Cícero pequenino, Cícero sozinho? Mas Tica vem com pernas muito bambas atrás dela. Vamos logo, pensa Fanta. precisamos atravessar. E é assim que depois de tantos dias de espera, Maqui pensa ver Cícero e pousa cheia de amor sobre Fanta. Mas naquela reta, todos os nervosinhos aproveitam para recuperar os poucos minutos que eles julgam perdidos na estrada cheia de curvas que sobe do Vale. Davi vem de moto apressado e chapado. Vê a anta mãe atravessando e desvia dela, perdendo o controle da moto e pegando de raspão a filhotica que havia acabado de entrar na estrada. Com o tranco, Tica rola alguns metros pela estrada, assobiando de susto e dor. Davi termina de perder o controle da moto e se espalha no asfalto.

Fanta se enfurece. Batendo as patas da frente no chão, parte para cima do motoqueiro caído sob a moto. Ele havia tentado se levantar, mas agora, com a anta bufando e pisoteando raivosamente, usa a moto como escudo, como pode. Consegue sobreviver ao ataque porque Tica, se recuperando do raspão e do susto, começa a assobiar chamando a mãe e Fanta corre para atender a filhota. Carinhosamente, com a tromba, ajuda Tica a se levantar e apalpa todo o corpo listrado da filhota, que está só ralada, não quebrada. Assobiando, com Maqui voando intrigada em volta, as duas terminam de atravessar a estrada. Desaparecem sob a cerca viva.

Todo cheio de espirro da anta, muito ralado da queda de moto e sentindo dedos e costelas quebrados pelos pisões de Fanta, Davi se arrasta de debaixo da moto para o acostamento e fica lá, em choque, até passar gente, chamarem uma ambulância, levá-lo para o hospital. E poderia ter terminado aí.

Mas com o passar dos dias, saindo do hospital, família e amigos percebem que Davi já não é mais a mesma pessoa. Está quieto, sério e absorto no que faz. O filho jaguara, que não fazia nada a não ser se drogar e beber, agora está ajudando na roça, ajudando na estufa. Não, está tocando praticamente sozinho todo o trabalho da roça e da estufa. Fazendo tudo devagar, com serenidade, mas sem parar, sem cansaço. Descobrindo um jeito de vedar tão bem as laterais da estufa que não precisariam mais de veneno nenhum para os tomates, pois nenhum inseto conseguiria chegar neles. Assobiando. Parando no fim da tarde para olhar o pôr-do-sol atrás das estufas. Ele também percebe — e ri disso. — Fui atacado por uma anta e parece que virei anta — ri ele. E poderia ter terminado aqui, se as pessoas não fossem tão implicantes e cruéis. Quem antes implicava com Davi por não trabalhar agora começa a achar errado um jovem tão trabalhador e contente com isso.

— Mas é um jaguara mesmo — exclama seu pai quando Davi volta assobiando da estufa bem vedada — de drogado inútil virou doutor agora, dando uma de superior com nossos modos de fazer — ele torce uma careta de desprezo.

— Ô doutor jaguara — diz ele outro dia, enquanto o filho percorre os canos de irrigação, vedando os vazamentos — já descobriu um jeito pra anta não roubar nossa uva, já que agora é tua parente?

— O senhor jaguara não gosta de veneno — provoca ele pela centésima vez naquela semana, quando dirigem para a cidade para comprar insumos na agropecuária. Só aí Davi se enfurece — ou termina de se enfurecer?

— E o Senhor, Pai, não gosta de nada, nunca, reclama que o veneno é caro, reclama que não precisa mais dele, reclama da falta de água e reclama quando conserto o cano, reclama, reclama, reclama!

Davi fumega e bufa e só não correm o risco de capotar porque a velha Toyota vai bem devagarinho enquanto o próprio ar lá dentro faísca de ódio. Estranhamente, chegando à cidade Davi e o pai já estão quietos — não de emburramento mútuo, mas porque ambos haviam se encantado com o excesso de manacás cheios de flores ao longo da estrada e não conseguem mais lembrar o porquê da briga. E claro que não terminou aí, porque as pessoas teimam em ser cruéis e implicantes, o suficiente para enraivecer até os mais pacatos dos seres. E de implicância em implicância, a praga se alastra, alimentando-se de raiva e deixando um rastro de paz. E nem demora muito.

Tica guarda uma memória de quando era bem pequenininha: sua mãe, ainda assustada, evitando cruzar aquela pista onde quase morrera atropelada pela moto. Nem tem certeza de que esse atropelamento não foi só um pesadelo, mas aí olha para a estrada onde Maqui sobrevoa excitada um novo formigueiro. Tem uma lembrança mais tênue ainda do tempo em que eram só duas — ela e mãe. Maqui tem a ver com essa estrada, com esse pesadelo, com esse dia. E ela é bem real, ri Tica enquanto a avezinha animada volta a sobrevoar sua crina, devorando as mutucas antes mesmo que pousem. O sol baixa no horizonte enquanto as duas aguardam, Tica comendo folhinhas da erva de anta que ameaça tomar toda a estrada. Ruídos dos passos pesados esmagando gravetos vão se aproximando e logo um assobio baixo. Fanta surge no carreiro. Na luz âmbar do crepúsculo as três seguem pela estrada vazia.

 

***

 

Dedicado à Patrícia Médici.

 

Leitura crítica: Lu Aranha

Beatriz de Mello Beisiegel

Sou bióloga, especialista em comportamento animal e conservação da biodiversidade. Escritora animalista, com dois livros de ficção na Amazon: Vento Sul e O silêncio das girafas, ambos de 2024. Também escrevi, com colegas, dois livros dedicados à conservação da fauna, Mamíferos da Serra da Macaca (um guia para tentar fazer com que os motoristas se apaixonem pelos bichos que cruzam a estrada em vez de passar por cima deles), em 2016, e Onças pintadas do estado de São Paulo: Guia de identificação, com as histórias e fotos de cada uma das poucas onças que resistem à nossa destruição, em 2023, que pode ser encontrado na página do projeto: https://oncascontinuoparanapiacaba.eco.br/. Participou do Curso Online de Formação de Escritores.