por Beatriz de Mello Beisiegel
Eu devo ter quebrado algum recorde.
Estava com havaianas nos pés e uma delas escorregou entre a parede e a cama. Imediatamente apalpei, procurei, mas não consegui encontrá-la.
O Monstro Babando Embaixo da Cama deve estar meio satisfeito, só desejando que a havaiana estivesse mais sujinha - como todo mundo sabe, o Monstro Babando Embaixo da Cama é totalmente gourmet para sabores de areia de enxurrada, pinga, cinzas de fogueira e restos sortidos que ficam ao lado da estrada, mas eu lavei a bichinha ontem. Se eu aguçar os ouvidos, talvez consiga escutar os resmungos do monstro obrigado a se contentar com molho de pêlos de cachorro na havaiana. Pobre monstro que já passa a vida inteira tentando se espanar dos pêlos onipresentes, variados, coloridos, pinicantes. Mas não, só escuto o galo da vizinha, dezenas de pássaros conversando e os pingos de chuva-de-feriado, o único tipo de chuva nesse ano esturricante. Isso me lembra que perdi minha capa de chuva. Ela é verde e leve e dobrável para caber no próprio bolso, virando uma almofadinha verde de um palmo. Ótima para me camuflar no mato, mas ainda mais ótima para passar desapercebida quando recoloco as coisas na mochila depois de instalar uma armadilha fotográfica lá muito longe no meio da floresta, e foi isso que achei que tinha acontecido. Levei mais de um mês para conseguir voltar em todos os lugares do mato onde poderia ter perdido a capa. Depois de não encontrar na última armadilha fotográfica possível, ainda revisei as fotos com a suspeita de encontrar um queixada vestindo minha capa, sentindo-se talvez o Super Porcão, aquele que vai enfim livrar a floresta dos caçadores. Vai saber, os bichos todos já acham que sabem melhor do que eu a posição das armadilhas fotográficas, todos - gambás, antas, queixadas, onças, macacos, todos cutucam e entortam as armadilhas. Porque não um queixada achar que sabe melhor do que eu a finalidade da minha capa de chuva verde? Se for essa de combater os caçadores eu concordo, Super Porcão! Vai lá.
Mas não, os queixadas nas fotos estão normalmente peludos. Nenhum encapado de verde.
Isso me aterroriza. Minha grande esperança era que a capa estivesse perdida nos 40 mil hectares de floresta. Se não está lá, deve estar, tem que estar, nos 40 metros quadrados da minha maloca cheia de criaturas comedoras de objetos. Melhor comprar outra, cor de laranja esfuziante com uma camada extra-repelente protetora anti monstros.
Sou bióloga, especialista em comportamento animal e conservação da biodiversidade. Escritora animalista, com dois livros de ficção na Amazon: Vento Sul e O silêncio das girafas, ambos de 2024. Também escrevi, com colegas, dois livros dedicados à conservação da fauna, Mamíferos da Serra da Macaca (um guia para tentar fazer com que os motoristas se apaixonem pelos bichos que cruzam a estrada em vez de passar por cima deles), em 2016, e Onças pintadas do estado de São Paulo: Guia de identificação, com as histórias e fotos de cada uma das poucas onças que resistem à nossa destruição, em 2023, que pode ser encontrado na página do projeto: https://oncascontinuoparanapiacaba.eco.br/. Participo do Curso Online de Formação de Escritores.