por João Vitor Ferreira Gibram
Iarai acordou com o canto dos robalos ressoando na gruta, a jovem ipupiara levantou eufórica de sua cama de algas, foi até o espelho, escovou suas escamas, limpou o bigode e as nadadeiras, a empolgação percorria seu corpo, era seu aniversario de dezesseis anos, no qual seria reconhecida como adulta por todos de seu clã e conseguiria permissão para ir a superfície.
Ela se dirigiu ao centro da gruta em que vivia, onde todos os espíritos da água de seu clã a esperavam, rodeando o centro da câmara em um enorme circulo. Seus dois irmãos á abraçaram com enorme carinho, e então sua avó lhe colocou um colar feito de conchas brancas.
- Isto minha neta, representa sua conexão com o mar e com todos aqui, é mais do que tudo, um lembrete de que sempre estaremos aqui uns pelos outros!
Após a comemoração que se seguiu, a garota saiu animada acompanhada dos irmãos, eles nadaram rapidamente até saírem na praia. Os olhos de Iarai sugavam tudo de forma insaciável, ela apontava para cada planta, pedra ou bicho que via, soltando questionamentos atropelados. Foi então que algo mais a frente lhe chamou a atenção. Um enorme campo sem arvores, onde o que parecia uma enorme formação de pedra se erguia, a mesma tinha um formato estranhamente reto e protuberâncias transparentes que reluziam ao sol. A jovem espírito do mar tentou se aproximar, mas seu irmão segurou seu braço, a impedindo:
- Não podemos nos aproximar de lá, Iarai, é uma casa de humanos. – a menina olhou para o irmão, confusa.
- E qual o problema nisso?
- Humanos podem ser perigosos – afirmou seu outro irmão – nós devemos manter distancia deles, esta bem? – Iarai não entendia a preocupação dos dois, mas resolveu apenas concordar.
O dia se seguiu com eles explorando a floresta, até chegar a hora de voltar a gruta, porem Iarai não conseguia tirar a casa de sua cabeça, a curiosidade naquela estranha construção, borbulhava e crescia sem parar dentro de si. Ao anoiteceu, enquanto todos dormiam, a garota nadou até a superfície e voltou ao local. A casa agora estava extremamente iluminada e cheia de barulho, Iarai se aproximou da janela e pode ver o que constatou serem dezenas de humanos, conversando e dançando, no que parecia ser um tipo de festa. Eles se assemelhavam um pouco aos ipupiaras, mas eram menores, com braços e pernas mais curtos e grossos, pele lisa, sem escamas, membranas ou nadadeiras. Apesar da aparência estranha, Iarai os achou lindos.
Ela continuou observando, até que notou um casal andando para longe dos outros, o homem ia relatando com elegância e soberba para a mulher que o segurava pelo braço. Iarai se aproximou para falar com os dois, mas assim que sua imagem ficou visível para ambos, seus rostos esboçaram repulsa e a mulher soltou um grito agudo, que chamou a atenção de todos:
- Um demônio, há um demônio aqui, matem-no depressa – o rapaz berrou, exalando pânico.
Em meio á comoção alguns homens pegaram armas e apontaram para á espírito do mar, Iarai sem conseguir entender nada, correu apavorada com os sons de tiro que vinha atrás de si e mergulhou de volta na água.
No dia seguinte sua avó, notando a angustia da neta, perguntou o que lhe passava, Iarai acabou por contar aonde fora na noite passada e o que lhe ocorreu, a mulher coçou a barbicha suja de restos de krill e com uma dura expressão disse:
- Não pense mais nisso, e não se aproxime mais dos humanos. Eles são uma raça intolerante com tudo que difere deles.
- Mas por quê? – a garota agitou as nadadeiras e gritou batendo as presas – eu os achei tão lindos e interessantes. Por que não gostam de nós, o que temos de errado?
- Não a nada de errado conosco, a de errado com eles se não podem nos aceitar, tal como somos. Por isso não inquiete mais seu coração com isso minha neta não valera a pena!
Mas Iarai não conseguia esquecer, nos dias que se seguiram ela ignorou os chamados dos outros ipupiaras para brincar com eles, sua mente continuava voltando a casa, as luzes, ao cheiro das comidas exóticas, a musica hipnotizante, ao belo rapaz e em como ele olhava para a moça que o acompanhava, com afeição e desejo "Queria que ele me olha-se assim" o pensamento se enraizou em sua mente.
Ela continuou voltando a casa durante as noites, sempre observando escondida de longe, a cada dia que se passava ela desejava mais fazer parte daquele mundo fascinante, e depreciava cada vez mais o mundo em que tinha que viver, assim como sua aparência, que se convencera ser a causa de seu infortúnio.
- Você esta outra vez pensando em humanos Iarai? – seu irmão a confrontou, ao vê-la outra vez dispersa.
– Esqueça-se logo deles, a vida que temos aqui, não é o suficiente?
- Não, não é. Eu queria viver com eles, queria ser como eles. Odeio estar presa aqui, com essa aparência horrível!
- Então, você pode apenas ir embora – sentenciou com impaciência. A garota então correu para fora da gruta aos prantos.
Ela continuou se lamentando até que se lembrou de algo, um dia em que fofocara com as gaivotas, ouvira das aves sobre um espírito do vento com aparência de coruja, que a noite aparecia sobre a macieira mais alta da floresta, e concedia um desejo a quem pedisse, por um preço. Iarai, sem ter nada a perder, foi sorrateiramente a esse lugar durante a noite. Ela esperou até que de repente uma enorme coruja com olhos reluzentes pousou na arvore:
- Já sei o que tu desejas, queres mudar tua forma, e ficar igual aos humanos. – Iarai assentiu – Pega o colar que tua avó te deu e quebra-o nesta arvore, receberas o que queres, mas lembra-te o que abrir mão pertencera a mim, e não poderá recuperar.
Iarai hesitou por um momento, ao segurar seu colar, mas já decidida de seu objetivo, lançou-o sobre a macieira, fazendo-o se estilhaçar. A garota então sentiu seu corpo se contorcer e suas escamas secarem e caírem. Ao olhar seu reflexo numa poça se exaltou de empolgação, a imagem que via era de uma humana de pele lisa e acobreada, com volumosos cabelos negros.
Ela correu com seu peito explodindo em direção a fazenda, e dessa vez todos se espantaram positivamente ao verem a bela moça que apareceu por ali. Iarai sentiu um frio na espinha ao ver o mesmo jovem de antes se aproximando, com olhos de interesse. Ao constatar que a moça não tinha morada ou família, rapidamente a convidou para viver ali.
Nos dias que se seguiram, Iarai se viu sendo paparicada por todos da mansão, o rapaz que era filho do barão dono da mansão, lhe fazia cortejos e mimos diariamente. Ela acreditou que ele havia criado por ela um amor verdadeiro e eterno. Até que certo dia, chegou á mansão a filha de um duque, que logo roubou a atenção do jovem barão. O mesmo passava a maior parte do tempo atrás da moça, Iarai ainda recebia uma ocasional atenção, mas agora era como se a mesma fosse um simples passatempo. Suas suspeitas foram confirmadas quando uma noite ouviu os dois conversando:
- Então, o que me diz? Um casamento não seria benéfico para ambos? Eu poderia lhe oferecer uma vida tão boa quanto a que você leva em sua casa.
- Estaria encantada, mas enquanto aquela garota? Pensei que vocês tivessem algo.
- Aquela lá? – ele riu levemente – fora a beleza, ela, não tem nada mais para mostrar. Uma analfabeta ignorante e sem família. É o tipo de mulher que só serve para divertir os homens. A mandarei embora assim que marcarmos a data.
Iarai passou a noite chorando desiludida, percebendo que tudo que vivera nos últimos dias era mera ilusão. Deixou a casa naquela mesma noite. Voltou a arvore, e pediu á coruja que desfizesse seu desejo:
- Te disse que o que abrisse mão não poderia ser recuperado. Não venha então arrepender-se de suas decisões, aprende a viver tal como és agora! – ela então alçou voou, deixando Iarai sozinha em prantos.
A garota sem rumo voltou ao mar, ela mergulhou sua mão na água e a tirou rapidamente, sua pele sem escamas tremendo ao tocar o liquido frio, viu os peixes nadando, agora sem poder entender o que diziam, o canto dos robalos mudo a seus ouvidos, viu a própria imagem sem guelras ou nadadeiras. As lagrimas desceram em jorros de seus olhos, com a constatação de que nunca mais poderia voltar a sua casa. As cruéis palavras que dissera a sua família queimando em seu peito.
Iarai passou os dias que se seguiram, vivendo em baixo da macieira. Já não havia mais lugar para si e ela tentava se conformar com a solidão. Um dia porem, sentiu que estava sendo observada, olhou ao redor sem conseguir identificar ninguém, até notar um movimento entre duas arvores.
Por fim, tomou forma uma silueta se aproximava de si. A forma era semelhante a sua, mas a pele parecia casca de arvore, seus braços e dedos eram como galhos contorcidos e seus olhos brilhavam verdes, como gotas de orvalho em uma folha. Apesar da surpresa inicial, Iarai não recuou.
- O que você é? – ela perguntou com sincera curiosidade.
- Sou um espírito da floresta, meu povo vive na clareira aqui perto. Você é humana?
- Sou - ela baixou o olhar - agora eu sou!
- A maioria dos humanos se assusta e foge quando me vê, mais você parecia triste então quis ver se podia ajudar.
- Ninguém pode me ajudar, abri mão do que eu tinha, e agora não pertenço a lugar nenhum.
- Você, poderia morar conosco – a garota ficou surpresa por um minuto.
- Tenho certeza de que não me pareço com ninguém da sua gente. Iriam me querer lá mesmo assim?
- Na minha família somos todos diferentes, para ninguém ira importar a sua aparência.
O garoto arvore então, levou Iarai para uma clareira no meio da floresta. Repleta de outros seres, como o garoto dissera os espíritos da floresta eram diversos em aparência, alguns pareciam feitos de terra, com o corpo pontilhado de pedras brilhantes, outros tinham o corpo coberto de cogumelos, alguns eram como enormes samambaias ambulantes e outro era como uma enorme colméia repleta de fendas por onde abelhas saiam para polinizar as flores. Todos acabaram por receber Iarai de braços abertos. A vida naquela clareira era completamente diferente de sua vida na mansão ou no mar, ainda assim ela se esforçou para se adaptar a como as coisas eram ali. Um dia enquanto passeava com o garoto árvore, Iarai finalmente teve coragem de contar sua historia:
- Você deveria ir ver sua família, não saberá se eles te querem ou não sem tentar! – Com o coração na mão Iarai voltou ao mar, não esperava encontrar nada de diferente, mas para sua total surpresa, sua avó e seus irmãos estavam á beira da praia. Seu irmão mais velho foi o primeiro que se aproximou, e a abraçou com força.
- As mexeriqueiras das gaivotas disseram que você estava vivendo por aqui, estivemos vindo todos os dias esperando te ver! – Iarai pode sentir os olhos umedecerem.
- Não a perdão para o que eu fiz, reneguei nossa família e o que eu era, por uma fantasia estúpida!
Em meio ao choro, ela sentiu uma mão escamada segurar seu pulso. Sua avó com um olhar sereno lhe guiou vagarosa até ambas entrarem no mar, apesar do frio inicial, Iarai recordou a boa sensação que a água lhe trazia, sua avó então lhe colocou um novo colar.
- Não importa onde vivas, ou como te pareces, quem você é para nós nunca ira mudar. Mesmo que não possamos viver mais juntos, sempre será parte de nós.
Iarai olhou ao redor para sua família e para os espíritos da floresta, então mirou seu reflexo tremeluzindo no mar "não desprezarei mais quem sou ou as escolhas que tomei, serei feliz independente de como minha vida venha a ser agora".

Olá, sou um escritor iniciante, que gosta de escrever principalmente histórias de fantasia. Me interesso muito por folclores e mitologias e tento fazer com que minhas obras tenham uma pegada parecida. Também me interesso por mistério e aventura, adoro ler livros, mangás e assistir animes. Espero um dia conseguir publicar minhas histórias de forma profissional.