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Ilha cor de cinza

Ilha cor de cinza

por Vilma Toloto

Ilha cor de cinza

Francisco chegou à ilha no meio da tarde.

Seu barco ainda balançava suavemente quando ele saltou na faixa de areia. A vegetação cerrada e o silêncio pareciam confirmar o que buscava. Ao pisar ali, sentiu uma alegria quase infantil, como se estivesse iniciando algo que não cabia mais no lugar de onde viera.

A ilha não constava em roteiros turísticos. Talvez tivesse finalmente encontrado o avesso da cidade.

Nos primeiros dias, atuou com disciplina. Montou um abrigo improvisado com lona e galhos, organizou provisões e mapeou a extensão da ilha. A água doce vinha de uma nascente. Havia frutos silvestres, pássaros e até quatis. À noite, o céu oferecia uma nitidez que ele nunca vira antes.

Pescava ao amanhecer, recolhia lenha à tarde e escrevia seu diário num caderno grosso. Tomava banho no filete de água que descia da nascente até o mar. Sentia-se realizando o sonho de viver de forma minimalista. Acreditava ter se salvado, e isso lhe enchia de orgulho e coragem.

Na cidade havia o cansaço. Francisco acordava exausto. Não era uma fase ruim. Era algo mais profundo, como se a fadiga tivesse se instalado dentro dele. Nunca se animou a constituir família. Dedicava seu tempo exclusivamente ao trabalho e raramente tirava férias. Seu currículo era impecável, recheado de títulos acadêmicos e conquistas profissionais. Como Diretor de Operações no mercado financeiro, podia custear um apartamento em andar alto, com vista para o maior parque da cidade, um recorte verde entre avenidas congestionadas.

Numa das madrugadas de insônia, reviu a própria trajetória e não se sentiu engrandecido por ela. Estava constantemente em busca de uma vida de abundância. Planejava um futuro tranquilo, mas o processo para alcançá-lo o consumia. Tudo parecia corresponder às expectativas dos outros, do mercado, das metas trimestrais.

Depois de várias noites mal dormidas, tomou a decisão mais ousada de sua vida. Soava insana, mas também libertadora. Pediu demissão, vendeu o apartamento, doou livros, discos e roupas formais. Comprou o barco e alguns guias de sobrevivência. Não deixou bilhete. Apenas desapareceu.

Já na ilha, numa manhã ensolarada e sem vento, Francisco percebeu a primeira estranheza: peixinhos nadando muito perto da superfície. Abriam e fechavam a boca repetidamente, como se lhes faltasse o ar. A mandíbula de um deles parecia deslocada, mantendo a boca permanentemente aberta. Aquilo o incomodou por alguns segundos, mas logo esqueceu. Pensou que fosse apenas um peixe doente.

Durante dois dias nada mais aconteceu. Quase esqueceu o episódio.

Certo dia, ao atravessar o estreito caminho que levava à parte mais densa da ilha, notou outra coisa: algumas folhas estavam manchadas. Não parecia doença comum. Tinham uma coloração acinzentada, quase metálica, como se um pó muito fino tivesse se depositado sobre a superfície.

Esfregou uma delas entre os dedos. A folha se rompeu com facilidade, quebradiça como papel velho.

Limpou os dedos na bermuda e seguiu caminho. Pensou que talvez fosse sal trazido pelo vento. Mas naquela manhã não havia vento algum.

A inquietação cresceu nos dias seguintes. Algumas aves apresentavam falhas nas penas; outras tinham o bico retorcido ou os olhos esbugalhados. O canto era rouco, desafinado. Tentou racionalizar, mas as evidências se acumulavam.

Certo entardecer, encontrou na areia um emaranhado de fios, pedaços de embalagens, microfragmentos coloridos misturados às conchas e garrafas PET. Rótulos em diferentes idiomas. A maré trazia detritos de um mundo que ele julgava distante.

Sentou-se na areia e chorou, sem ter com quem dividir a angústia.

A ilha não era o avesso da cidade, mas o seu prolongamento.

O vento atravessava continentes. O mar devolvia aquilo que as cidades descartavam sem critério.

Ele fugira do escritório, da competição, da pressa e agora enfrentava algo mais vasto e incontornável. O solo apresentava áreas onde a vegetação crescia rarefeita. As folhas estavam marcadas por pontos escuros, ferruginosos. Ao cavar o chão para ampliar o abrigo, encontrou pedaços de borracha enterrados. Era a memória tóxica da ilha.

Numa noite particularmente abafada, acordou com um grasnar estranho. Ao sair do abrigo, viu uma ave caída. Respirava com dificuldade. Tentou ajudá-la de todas as formas, mas nada podia fazer. Ela morreu antes do amanhecer. Cavou um buraco para enterrá-la e sentiu uma culpa inexplicável.

Caminhou pela faixa de areia e refletiu sobre o sentido do seu isolamento. Passara anos tomando decisões para aumentar eficiência e produção, orgulhando-se disso. Nunca havia se detido sobre a origem das matérias-primas, seu custo ambiental, o destino dos resíduos. Agora, tudo isso ganhava outra dimensão.

A ilha, que imaginara deserta, estava povoada de vestígios humanos. Não havia prédios ou carros, apenas suas consequências. A cidade deixava de ser um espaço geográfico e se revelava como um modo de existir, espalhando-se pelo planeta.

Com o passar dos dias, os mantimentos diminuíram e a água da nascente tornou-se imprópria. O estômago doía com frequência. Emagreceu. O corpo enfraquecia sob o sol impiedoso.

O barco ainda estava ancorado. Numa manhã de calor seco, Francisco caminhou até ele. Parou por um instante antes de entrar. Observou os fragmentos plásticos reluzindo na areia. Tocou a água com cautela. Olhou para as clareiras da mata e para o voo das aves.

Um grasnar rouco atravessou o ar.

Entrou no barco e por algum tempo permaneceu ali, sem dar partida, apenas olhando a linha do horizonte.

Depois, o motor enfim quebrou o silêncio. A ilha foi ficando para trás, cada vez menor, até desaparecer.

Francisco manteve os olhos fixos à frente. Não havia nada visível além do mar aberto. 

Vilma Toloto

Vilma Toloto, natural de Ourinhos-SP, é Pedagoga, pós-graduada em Psicopedagogia (PUC-SP) e em Recursos Humanos (PUC-Chile). Desde a infância, encontra na leitura e na escrita um espaço de prazer e crescimento.

Na adolescência, passou a escrever poesias e contos, paixão que segue cultivando e aprimorando por meio de estudos contínuos. Teve experiências no teatro, que influenciaram seu olhar narrativo.

É autora do conto "Cartas que o tempo não apagou", publicado na coletânea "Toda forma de amor" (Editora Metamorfose). Em 2026, finalista da Flip Off, com o conto "A Carta de Celina", e da Festa Literária Internacional de Paraty, com o conto "Domingo", na antologia NÓS 4.