por Ildeu Geraldo de Araújo
INSÍDIA
CENA 1
Ele chegou mais cedo ao escritório ainda vazio e silencioso. O chefe, como de costume, já estava em sua mesa de trabalho. Hesitou antes de entrar e ficou de pé alguns segundos, observando o diretor analisar o memorando que tinha em mãos, esperando inutilmente que ele levantasse os olhos para ele.
— Bom dia, Dr. Carlos, estive pensando sobre o novo cargo de assessor de compras.
— Você está interessado?
— Não, doutor. Acho que o Adriano é a pessoa talhada para a função. Ele tem uma boa experiencia em especificação de materiais, conhece o mercado e talvez se adaptasse melhor ao perfil da vaga... ele sempre teve facilidade com fornecedores.
— É uma ideia interessante, Rafael, vou pensar no assunto. Obrigado pela sua indicação.
Adriano era um bom engenheiro, mas não estava se saindo bem na sua atual função.
Dias depois, foi transferido para o departamento de compras.
Rafael foi convidado para substituí-lo como chefe de pesquisa e desenvolvimento tecnológico.
DEZ ANOS ANTES DA CENA 1
Adriano tinha sido seu grande amigo nos tempos da escola de engenharia. No último ano do curso veio a angústia do emprego.
— Acho que vou para a Usiminas, Rafael, lá tem 5 vagas.
— Nós combinamos ir para a mesma empresa e eu não quero ir para Ipatinga. Vamos ficar calmos, vai aparecer uma boa oportunidade para nós. Amanhã vai ter uma reunião no DA com ofertas de vagas.
Na reunião um representante da Companhia Metalúrgica do Nióbio falou sobre a importância do metal e ofereceu duas vagas.
— É a nossa chance, Rafael, eu já dei nossos nomes, segunda-feira eles vão aplicar uma prova de seleção.
Enquanto Adriano foi encontrar com sua namorada, Rafael passou o fim de semana estudando sobre a metalurgia do nióbio e sua importância econômica.
— Adriano, você tem razão. Nióbio é o metal do futuro. Vai revolucionar a tecnologia e o brasil tem as maiores reservas do mundo.
Na segunda-feira os dois amigos e mais oito colegas fizeram a prova de seleção e foram os escolhidos.
Entraram juntos para a empresa, casaram-se na mesma época e suas esposas também se tornaram grandes amigas. Morar numa cidade que girava em torno da companhia aproximava os jovens casais.
— Clara, trouxe o Adriano para almoçar.
— Seja bem-vindo, Adriano. Quede a Inês?
— Minha esposa foi para a Capital. Ela precisa se espairecer um pouco, não aguenta mais ouvir falar em nióbio.
Tornou-se costume entre eles que, quando uma das esposas viajasse para a capital, o casal que permanecia em casa "adotava" o marido solitário, dando-lhe almoço e companhia.
Vieram os filhos quase na mesma época. Rafael e sua esposa foram os padrinhos de batismo de Mateus, filhinho de Adriano. Rafael preferiu chamar seu chefe e esposa para apadrinharem Aline, sua filha. Clara ficou incomodada pela falta de reciprocidade com o casal amigo.
Passavam as férias juntos. Alugavam uma casa em Santa Mônica, praia do Espírito Santo que os dois amigos frequentavam desde o tempo de solteiros e passavam os trinta dias furando as ondas, comendo peixe e camarão, bebendo a famosa pinga de Cariacica e olhando os filhos brincarem na areia.
Toda manhã, assim que se levantava, Mateus estendia a mão, todo compenetrado:
— Benção, padrinho, benção madrinha!
— Deus te abençoe, Mateus! — Rafael respondia e Clara o abraçava e beijava.
— Mamãe eu tenho padrinho e madrinha?
— Sim, Aline, são o Dr. Carlos e sua esposa.
— É a mesma coisa que não ter, eu nem conheço eles.
Adriano, que estava tomando café, abraçou a menininha, colocou ela no colo:
— Eu quero ser seu padrinho, você me aceita?
— Benção padrinho! — Respondeu Aline sorridente.
Quando Rafael começava a comentar os problemas do trabalho, Adriano brincava:
— Ô amigo, esquece os aborrecimentos da empresa. Eu não quero saber de trabalho, estou de férias. Na véspera de nossa volta, você me diz em que empresa estamos trabalhando, porque até isso eu espero ter me esquecido.
Na última vez que passaram as férias juntos, Alice, a esposa de Adriano, exigiu que fossem para o Rio de Janeiro.
— Quero comemorar as bodas de estanho em Copacabana; e desta vez quero ir de avião.
Quando chegaram na praia, Alice tirou a saída exibindo um corpo exuberante desvendado por um biquini minúsculo e mergulhou nas ondas cor de esmeralda.
— Que mulherão, Adriano, bem dizia o Balzac: "Mulher só depois dos trinta."
Adriano fingiu que não ouviu e saiu com o filho atrás de um sorveteiro.
— Rafael, cuidado, as coisas entre ele e Alice não andam bem.
O resto das férias foram desagradáveis. Adriano resolveu voltar mais cedo com sua família.
— Tenho uns negócios para resolver em Belo horizonte.
UMA SEMANA APÓS A CENA 1
Adriano entrou apressado na sala de Rafael:
— Me tiraram a chefia de P&D! Agora sou aspone, assessor de porra nenhuma!
— Calma, Adriano, acho que vai se dar bem na assessoria comercial. Você tem uma boa experiencia em especificação de materiais, conhece o mercado e sempre teve facilidade com fornecedores.
— Você já sabia! Dr. Carlos disse a mesma frase. Foi você que inventou essa baboseira.
— Calma, meu amigo...
— Amigo!
Ele saiu intempestivamente da sala e bateu a porta com um estrondo.
A culpa sombreou o semblante de Rafael. Ficou longo tempo parado, contemplando o vazio. Esfregou o rosto com as mãos na tentativa de afastar a vergonha que sentia pelo seu ato.
No dia seguinte encontrou Adriano no corredor.
— Precisamos conversar, cara! — Adriano passou direto, nem olhou para o colega. Rafael ligou para a casa dele.
— Alô, quem fala?
— Boa noite, Alice, tudo bem?
— Não, Rafael, não estamos nada bem. Não posso atender às suas ligações. — Desligou o telefone.
Somente os filhos, que estudavam na mesma classe, continuaram sua amizade.
UM ANO APÓS A CENA 1
— Olha o que eu ganhei, mamãe.
Aline entrou em casa correndo, vinda da escola, com uma boneca linda.
— Quem te deu esta boneca?
— Foi o padrinho Adriano e a madrinha Alice. Ela me disse que é presente de aniversário. Por que eles não vêm mais nos visitar?
— São coisas de adultos, minha filha. Um dia você vai entender.
Alguns anos depois, Adriano pediu divórcio, a esposa voltou para a capital levando o filho e o contato entre as duas famílias desapareceu quase por completo. Mas no aniversário da Aline, todos os anos o correio trazia um belo presente com um cartão de parabéns assinado pelo padrinho Adriano.
Quando o pai chegou do trabalho, Aline lhe mostrou o presente.
— Precisamos mandar um presente para nosso afilhado, Rafael.
— Você poderia cuidar disso, Clara, eu tenho mais o que fazer.
***
Rafael revolucionou o departamento de P&D. Contratou pesquisadores, firmou acordos de tecnologia com empresas estrangeiras e obteve o registro de algumas patentes importantes sobre a metalurgia do nióbio.
O sucesso apagou os sentimentos de culpa. Na Companhia Metalúrgica do Nióbio, como em todas as empresas, o que contava eram os resultados e os resultados vieram em profusão. Sua carreira recebeu um impulso extraordinário, chegando, alguns anos mais tarde, a vice-presidente da empresa.
QUINZE ANOS DEPOIS DA CENA 1
— Adivinha quem está se casando?
Rafael beijou a esposa, pendurou o paletó no cabide e se sentou na sua poltrona favorita. Fez a Clara se acomodar em seu colo e tomou de suas mãos o convite de casamento de Adriano com Gertrudes.
— Gertrudes não é aquela que puxa de uma perna?
— Sim, mas esta não é sua principal característica, ela é filha do Dr. Carlos, presidente da empresa.
Adriano nunca perdoou Rafael por tomar-lhe a chefia do departamento de pesquisa e desenvolvimento. Suas relações eram exclusivamente profissionais. O convite para seu casamento era protocolar, afinal Rafael era vice-presidente da empresa, mas tinha também o sabor de um revide.
A recepção foi no salão nobre da empresa. A disposição das mesas espelhava a hierarquia. Na mesa principal estava a família do Dr. Carlos, acrescida com seu novo membro. Em mesas sucessivas, os membros do conselho de administração, Rafael, o vice-presidente, depois os chefes de departamento, e por fim os chefes de seção. Após ser servido o jantar, Dr. Carlos anunciou sua aposentadoria.
— Com muita satisfação passo a palavra ao novo presidente: Dr. Adriano da Silveira.
Rafael empalideceu. Não ouviu uma palavra do discurso. Após se recuperar do susto e do constrangimento, foi cumprimentar seu novo chefe.
— As notícias não são muito boas para você, Rafael. O Conselho de administração decidiu acabar com o cargo de vice-presidente.
Ildeu Geraldo de Araújo nasceu, em 1938, viveu em Belo Horizonte a maior parte de sua vida. Casado com Maria Nylza, desde 1963, tem cinco filhos e seis netos. Formou-se em engenharia mecânica e elétrica pela UFMG e exerceu seu ofício por vinte e cinco anos na Usiminas, Universidade do Trabalho, Tecnokor. Depois foi consultor e dirigente empresarial por vinte e seis anos. Publicou, pela ARTEAR editora, o livro de contos "Da fortuna de amar" – 2020 e a novela "Terra firme entre as ondas" – 2022, que trata da relação familiar de uma empresária, um sindicalista e a jovem filha do casal no ambiente da ditadura militar e da redemocratização ocorridas no Brasil no século XX.