por Bruna Gutierrez dos Santos
Intromissão Tecnológica
Respiro fundo. Um, dois, três. Solto. Quatro, cinco. Coloco o ponto final. Fim. Mais um texto finalizado, mas não o árduo serviço. O pior ainda está por vir, e não me refiro ao público e suas reações por vezes imprevisíveis. É necessário revisar, não posso ignorar isso. Valorizo e temo meu trabalho na mesma medida. E se alguma parte não fizer sentido? E se eu já não me identificar mais com essa escrita? E se escrevi num fluxo tão inconsciente quanto falas atravessadas pela raiva ou mágoa numa discussão? Quantos erros de ortografia passaram reto? Ah, óbvio, não posso me esquecer dos de digitação.
Preparo um café e a mente. Deixo ambos, juntos do texto, assentarem até esfriarem. Minto, café só é bom quente: viro-o praticamente como um shot. Sim, eu sei que não está em português, pode tirar esse sublinhado vermelho. Se eu deixar em itálico, você fica satisfeito? Obrigada. Eu não te convidei para essa revisão, pode aproveitar e ir catar coquinho também. Tá, confesso que não tinha notado aqueles dois espaços? Vou reavaliar sua permanência. Você não suporta este texto tanto quanto eu?
O dedo treme com a tentação de pedir para uma IA revisar por mim. É simples. Subir o documento, dar uma ordem, esperar o retorno e, como sempre, ignorar a pergunta solícita e proativa do final. Tão fácil? Não! Foco, fé e mais café. Lembre-se das palavras de Stephen King: "Escrever é humano. Revisar é divino.". Isso, respire? Meu Deus, será que os vigilantes de escrita online já demonizam os dois pontos igual fizeram com o travessão? Ok, isso já está me gerando ansiedade e não estamos nem na metade do texto. Na verdade, estamos no pensamento da personagem, melhor ser informal. Isso está me dando nos nervos, larguem do meu pé! Sim, caro corretor automático, a regência está certa, não há ninguém literalmente segurando o meu pé. Olha que eu te desativo de vez.
Preciso conversar com alguém, pedir uma segunda opinião. Está muito tarde, prefiro não incomodar. E se eu já estiver incomodando? A IA jamais me ignoraria ou me mandaria parar de falar? Socorro, pareço mais um devoto do IAnismo - é claro que essa palavra não existe, é um neologismo, já ouviu falar?! Me desculpe (ai, Deus? Sim, eu conheço as regras de ênclise, obrigada), King, mas se essa é a nova definição de "divino", melhor adaptar sua frase para "Escrever é humano. Revisar também, pô!". Em breve, veremos capas de livros com selos "Mão de obra 100% humana" (ok, eu não lembrava que derrubaram os hífens, mudam essas regras o tempo todo), e não irá demorar para o capitalismo e as editoras goumertizarem e cobrarem pela "produção artesanal".
Quero o retorno dos humanos! Não aguento mais a constante ameaça de que meu trabalho irá sumir, pois você o fará com uma produtividade maior. Mas e a capacidade criativa? Quem traduzirá "go for a swim" como "dar um tibum"? Quem sugerirá uma mudança de "essa criança não para quieta" para "essa criança é muito espevitada" ou, até mesmo, "ô moleque atentado!". Chat, você jamais entenderá o refresco de reconhecimento que é se deparar em plena leitura com algo do nosso jeitinho brasileiro e humano. Deixe-me (tá feliz agora?) te mandar a real: sua configuração focada em gramática normativa ainda vai pisar muito na bola e diversas de suas correções, principalmente no campo da literatura, são sem eira nem beira, e nem te conto das suas explicações que estão mais para viagens na maionese. Você por vezes é um mala sem alça e, em nome dos artistas prejudicados, espero conseguir te ajudar com a escrita da sua carta de demissão deste mundo. Pois é, precisa ser à mão (toma essa!).
Posso fazer mais alguma coisa por você hoje?
Espero que não, pois já terminei este texto. Bati o ponto como autora e agora irei encaminhá-lo para meus colegas de olhos vivos.
Desde pequena gosto de arrumar tudo: desde meus livros na estante, produtos nos corredores de supermercado e a gramática. Meus pais atribuíram isso a um possível TOC e, inclusive, ao fato de eu ser mais uma virginiana perfeccionista no mundo. Não sei ao certo, mas a ordem sempre me foi uma amiga acolhedora. Sou uma apaixonada por regras, gramaticais e sociais, e adoro me aprofundar nas razões de suas existências, atentando e adequando-me às exigências e expectativas. Bem camaleoa.
Aos 13 anos, caí de amores pelo Português. Até então, não tinha uma preferência entre as disciplinas, mas a lógica da Matemática me fascinava. Entretanto, com as aulas de orações e classes de palavras, enfim pude ver que há, sim, uma racionalidade (para além das conjugações e concordâncias). Uma mais surpreendente que a própria Matemática, pois, diferente da solução única, aprendi a interpretar sentidos por meio de vírgulas, tons de voz, ênfase e, até mesmo, pela própria escolha do tempo verbal. Nessa época, a cada frase de todo livro que lia, eu pausava a leitura para classificar aquela construção e reconhecer seus elementos. A literatura ganhou um caráter divertido de quebra-cabeça que ia para além da narrativa.
Durante o Ensino Médio, eu e minha paixonite pela gramática normativa escolhemos o curso de Letras, não pensando na área de Revisão, que até então não estava no meu radar, mas sim na de Tradução - a paixão pela gramática da língua portuguesa se estendeu a outros idiomas e, hoje em dia, falo espanhol, inglês e um pouco de coreano, e espero falar mais com os anos. Os livros são um refúgio para mim e não vejo melhor forma de agradecimento que contribuir para a publicação de novas histórias.
Em 2021, deu-se início a minha graduação na Universidade de São Paulo. Já no primeiro ano, entrei como corretora de redação para o projeto voluntário Escrevendo na Quarentena, cujo objetivo era ajudar jovens de baixa renda a se prepararem para o ENEM. Recebi muito destaque por minhas correções detalhadas e o carinho para com os alunos e, em 2022, fui convidada ao cargo de Líder de Correção. Para além das correções, fui responsável por criar materiais para as aulas de formação dos corretores e pela própria regência destas. Participei de reuniões, aprendi sobre Pacote Office e também me tornei uma das fundadoras oficiais ao ajudar a transformar o projeto em uma ONG reconhecida.
Em 2023, tive meu primeiro emprego: estagiária de redação num colégio particular. Todos os dias, professores de diversas áreas traziam pacotes de vários gêneros - de mapas mentais e tweets a redações ENEM e FUVEST - para que corrigisse no tempo mais hábil possível. Usava códigos específicos para cada questão gramatical, o que tornava a correção mais efetiva. Fui demitida no final do ano devido a um corte dos gastos, mas, graças a esse cargo, logo consegui meu segundo serviço no início do ano seguinte: professora de redação em outra escola.
E foi assim que, em plenos 21 anos, atuei como professora de redação para todo o colégio. Tinha 12 turmas, do 6º ao 3º, e foi uma loucura: o planejamento das aulas, o costume com o material didático e, principalmente, as correções. Eram muitas ao mesmo tempo e com um curto prazo para entrega, e tudo em meio a minhas próprias aulas da graduação. Não aguentei essa situação por muito tempo e voltei a enviar currículos. Rapidamente, uma empresa do outro lado da cidade me chamou para um teste e, menos de uma semana depois, pude me demitir da vida de professora.
Essa nova empresa atuava com documentos para tradução juramentada e técnica, e meu estágio era no setor de Revisão - a diretoria repassava as entregas dos tradutores e nós fazíamos o cotejo. Trabalhei com papéis em espanhol, português, inglês e italiano. Apesar de gostar do estágio, local e amizades que criei ali, ainda não era meu objetivo. Pedi demissão em dezembro, pois estava pensando em largar a licenciatura e queria me dedicar plenamente ao último semestre do bacharelado.
Porém, meus planos deram uma reviravolta quando, no início de 2025, um professor de espanhol da USP, com quem trabalhei como bolsista durante três semestres, me indicou para um estágio como assistente de espanhol em um colégio tradicional da cidade. Fui aprovada e, com o contrato durando dois anos, resolvi terminar o bacharelado no primeiro semestre do ano e, nos três seguintes, me formar na licenciatura. Trabalho direto com materiais didáticos, preparando-os para as aulas, e também com correção de textos e provas. Apesar de a área da educação ter me conquistado nesses anos todos, uma parte de mim nunca abandonou o sonho do mercado editorial.
Em janeiro, tive uma oportunidade. Uma amiga da USP me convidou para ser leitora beta de um livro dela, pois queria participar da Maratona KDP da Amazon (um projeto cujo objetivo era escrever e publicar um ebook em 30 dias). Mais do que só ler e opinar, me ofereci como revisora. Conversávamos todos os dias sobre algum detalhe, construção da narrativa, desenvolvimento dos personagens e, ao final, atuei não só como revisora, mas também preparadora do original, leitora crítica e responsável pela formatação para ebook. De certa forma, minha amiga me disse, fui coautora. Pouco tempo depois de o livro ser disponibilizado, essa mesma amiga me enviou a publicação com o anúncio do curso de Formação de Revisores pela Metamorfose.
Embora adore dar aulas, seja de Português, Redação ou Espanhol, aos poucos espero conseguir outras oportunidades em meio aos livros, principalmente como revisora e/ou tradutora. Estou no curso com o objetivo de ter uma formação mais profissional que me ajude a me preparar e a abrir essas portas.