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Literatura, historiografia e crítica a partir do Modernismo

Literatura, historiografia e crítica a partir do Modernismo

por Elenilto Saldanha Damasceno

Literatura, historiografia e crítica a partir do Modernismo

No início do século XX, São Paulo experimentou um extraordinário ritmo de crescimento industrial e urbano. A produção cafeeira era a base da economia paulista e brasileira, e o café era o produto de comercialização internacional de maior rentabilidade. Como os impostos sobre exportações tinham arrecadação estadual, São Paulo tornou-se uma unidade federativa riquíssima. Além disso, um intenso processo imigratório acompanhou esse período de desenvolvimento econômico e urbano. Estimativas apontaram que, por volta de 1915, metade da população da cidade de São Paulo não havia nascido no Brasil. São Paulo tornara-se uma cidade cosmopolita, embora fosse uma cidade interiorana (não portuária).

O Modernismo foi um fenômeno cultural local que, posteriormente, adquiriu repercussão nacional. As proposições da elite intelectual que desencadeou esse movimento tiveram fortes influências de tendências artísticas de vanguarda europeias e apoio da elite econômica paulista, a qual financiou a realização da Semana de Arte Moderna e também projetou a criação da Universidade de São Paulo. A USP surgiu para propiciar formação acadêmica aos filhos dessa elite. Em vez de eles irem estudar na Europa, ótimos professores europeus foram trazidos para lhes darem aulas na nova universidade.

Foi essa geração, a elite intelectual paulista formada por uma universidade moderna a qual apresentava, em seu quadro docente, alguns dos melhores professores da Europa, que reviu a História da Literatura Brasileira, logicamente por meio de sua lente modernista. Esse grupo intelectual paulista socialmente privilegiado buscou suplantar as ideias e a posição das instituições sediadas no Rio de Janeiro as quais detinham, até então, a hegemonia do pensamento cultural e sociológico: a Academia Brasileira de Letras (ABL) e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Dessa forma, a partir das concepções modernistas sobre Literatura e crítica literária, atingiu-se o âmago da questão sobre o pensamento historiográfico brasileiro. Respaldado pelo poderio econômico, o ponto de vista paulistocêntrico e modernistocêntrico, inicialmente uma inusitada visão de vanguarda, prevaleceu e construiu sua hegemonia sobre a historiografia literária brasileira.

Mário Raul de Morais Andrade (foto), escritor, crítico literário e musicólogo paulistano, foi um dos pensadores e artistas de vanguarda desse gueto intelectual. Alguns anos depois, veio a tornar-se secretário municipal de Cultura. Foi considerado o principal nome do primeiro momento do Modernismo, e sua contribuição crítica foi determinante para a consolidação dos atuais modelos de historiografia e crítica literárias brasileiras, visto que os críticos que reescreveram nossa atual historiografia literária, ligados à USP, foram seus discípulos diretos.

Para Mário de Andrade, até então, o grande romancista brasileiro havia sido o escritor cearense José Martiniano de Alencar, autor romântico com produções de viés nacionalista nas vertentes indianista, histórica e regionalista. Assim como o crítico literário, poeta e professor sergipano Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero, Mário de Andrade também propôs uma visão nacional-popular. Seu romance Macunaíma, a principal obra literária da primeira geração modernista, é uma rapsódia de mitos primitivos de origem nacional-popular. Contudo, para o grupo intelectual que participou dessa primeira geração, essa visão nacional-popular tinha mais proeminência e valor se o conceito de nacional estivesse relacionado a São Paulo.

Em 1942, após vinte anos da realização da Semana de Arte Moderna, Mário de Andrade apresentou, em sua conferência O movimento modernista, uma reflexão crítica sobre o triunfo do movimento, seus princípios e rumos, seus acertos e erros. Segundo ele, o Modernismo almejou ser o criador de um estado de espírito nacional. Com caráter altamente progressista, foi impiedoso com o passado. O Modernismo pregou a ideia de promover uma Arte renovadora. Não se propôs a preservar, mas a derrubar e inovar, ou seja, a criar o novo.

Conforme Mário de Andrade, "a estética do Modernismo ficou indefinível. Pois essa é a melhor razão de ser do Modernismo". De forma crítica e autocrítica, considerou que a principal falha da primeira geração modernista foi a falta de envolvimento com a transformação ou a criação de uma nova realidade social.

Foi justamente nesse aspecto que a segunda geração modernista avançou, principalmente por intermédio de obras de escritores de fora de São Paulo. Considerados pela crítica como autores de tendências neorregionalistas, neorrealistas ou socialistas, foi por meio desses escritores, abarcados sob o rótulo de modernistas, que o Modernismo atingiu grandiosidade expressiva.

Como referido anteriormente, Mário de Andrade destacou que a principal qualidade do Modernismo era a sua estética indefinível. Todavia, parece que o Modernismo se tornou indefinível apenas porque tudo foi reunido debaixo do rótulo "Modernismo". O valor e o reconhecimento de toda a produção literária surgida após 1922 passaram a ser indiretamente divididos com os inovadores paulistas da Semana de Arte Moderna. Promoveu-se a superestimação de um evento de projeção inicialmente local para, a partir disso, consolidar o poder hegemônico de um grupo ou elite intelectual. É certo que essa primeira geração modernista teve o seu valor, embora se discuta, atualmente, se ela teve "todo" esse valor.

Por fim, é possível que quem seja meu conterrâneo questione como foi esse momento inicial do Modernismo brasileiro no Rio Grande do Sul.

Conforme mencionado antes, a Semana de Arte Moderna, em 1922, foi um evento de proporção local. No Rio Grande do Sul, em 1923, o crítico literário, escritor e jornalista Moysés de Moraes Vellinho apoiou as propostas modernistas de renovação estética e de desapego aos modelos tradicionais do passado. Em 1925, o advogado, escritor, jornalista e poeta modernista Guilherme de Almeida, paulista, radicou-se no Rio Grande do Sul, mas não exerceu influência na produção literária gaúcha. A ideia de um Modernismo sul-rio-grandense nessa primeira geração foi associada às obras de poetas simbolistas, como Augusto Meyer, Athos Damasceno Ferreira, Ernani Guaragna Fornari e Eduardo Gaspar da Costa Guimarães.

Na realidade, não houve ecos diretos da Semana de Arte Moderna no Rio Grande do Sul, mas ressonâncias posteriores de ideias de renovação propostas pelo Modernismo. Foi na década de 30, já na segunda e marcante geração modernista, que a Literatura gaúcha despontou na prosa narrativa, com importantes autores como Érico Lopes Veríssimo, Cyro dos Santos Martins e Dyonélio Tubino Machado.

Note-se ainda que Érico Verissimo, em 1945, quando se retirou para os Estados Unidos, escreveu Breve História da Literatura Brasileira. Nessa obra de crítica e historiografia literárias, ao mencionar a primeira geração modernista, destacou a obra de Manuel Bandeira, poeta pernambucano, em detrimento das obras de quaisquer poetas ou escritores paulistas.
 

Elenilto Saldanha Damasceno

Elenilto Saldanha Damasceno, gaúcho de São Leopoldo, é escritor, professor, jornalista, revisor e editor. É mestre em Estudos de Literatura e especialista em Literatura Brasileira (pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e é graduado em Letras e em Jornalismo (pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos).

Atualmente, é professor de Língua Portuguesa e de Literatura na Fundação Escola Técnica Liberato Salzano Vieira da Cunha, colabora como colunista (crítico literário) nos sites Artistas Gaúchos e Escrita Criativa e atua como editor na revista Expressão Digital.