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Lixo Reciclado

Lixo Reciclado

por Luci Lima

Lixo Reciclado

— Mãe, quero te ver bem bonita hoje.

— Mas como, meu filho? Já viu velha bonita?

— Toda vez que te olho. Vai, põe o vestido vermelho. A moça vai ajudar a senhora a arrumar o cabelo.

— A moça? eu sei arrumar o cabelo. Pega minha caixa de biju. Sim, aquela com a imagem da Nossa Senhora.

Ele obedeceu e abriu a caixa para ela.

Dona Dalva tentou alcançar uma presilha no fundo, mas seus dedos já não a ajudavam.

Danilo se apressou a pegar para ela. Enquanto ela tentava prender o cabelo, ele abriu uma gavetinha do lado da caixinha.

— Que tesouro a senhora tem guardado aqui?

Ela ergueu a cabeça depressa.

— Nada! Chama a moça lá. Vou fazer ela merecer o salário que você paga. 

 

O hotel era muito chique. Dona Dalva nunca tinha entrado em um hotel, muito menos em um tão bonito.

Apoiando-se no braço do filho, foi para uma mesa redonda onde se sentaram com outros três casais. Os homens eram todos bem mais velhos do que Danilo, e as mulheres, algumas tão jovens que poderiam ser suas filhas. O sorriso indulgente de alguns, dirigido à velha senhora, deixou o filho irritado, mas Dona Dalva não pareceu notar.

Foram servidos o vinho e o jantar. Duas horas depois, a premiação começou. Os apresentadores foram chamando os premiados; todos batiam palmas e a velha senhora era uma das mais entusiásticas: todo mundo merece ser festejado.

Na premiação de pediatria neonatal, Danilo segurou na mão da mãe até que seu nome foi chamado para o palco: Dr. Danilo de Souza Silva.

Ele deu um beijo no rosto dela e subiu. Quando as palmas cessaram, ele começou seu breve discurso:

— Agradeço à academia pelo prêmio, mas, na verdade, ele não me pertence, e sim à minha mãe. Não é só um agradecimento pro forma; eu realmente não estaria aqui se não fosse por ela. — Aplausos varreram a sala. — Há mais ou menos 35 anos, uma mulher deu à luz e, talvez por estar muito louca pelas drogas que consumia, talvez por achar que eu não merecia mais do que isso, me colocou na lata de lixo de um restaurante japonês na Bela Vista. Dona Dalva, aquela linda senhora de vermelho sentada na terceira mesa, ouviu meu choro fraco e, achando que eram gatinhos, foi investigar e me encontrou. — Ohs e ahs encheram a sala. A idosa levou o guardanapo ao nariz e deu uma bela assoada.

Limpando a garganta, Danilo continuou:

— Alguns de meus colegas médicos devem estar familiarizados com a síndrome da abstinência neonatal. Para quem não sabe, o bebê, filho de uma usuária de drogas, já nasce viciado; ele consome drogas por tabela. Ele chora sem parar, tem tremores e, muitas vezes, convulsões. Causa todas as noites insones que um bebê normal causa vezes mil.

O efeito do discurso sobre os participantes da premiação ia de uma piada sobre desistir de comida japonesa a ajustes repetidos na louça da mesa. Uma pessoa desistiu de ir ao banheiro.

— A Dona Dalva, naquela altura da vida, já tinha criado e perdido dois filhos. Um morrera atropelado e o outro, policial, na mão de bandidos. Ela me viu e não teve dúvida de que ia me criar. Uma mulher de mais de 50 anos aceitou o desafio de criar o lixo de alguém. — Danilo enxugou os olhos com as mãos. — E provando que reciclagem é possível — a plateia riu, para acompanhar Danilo — aqui estou eu: fruto do sacrifício de uma mulher lutadora, com o coração do tamanho do mundo, que me formou médico. Este prêmio, pelo novo tratamento de recém-nascidos SAN, é dela. Ela o desenvolveu. Eu só o fiz conhecido. Muito obrigado, Mãe!

 

Na volta para casa, Dona Dalva não parava de chorar. Danilo quis levá-la ao hospital, mas ela, entre soluços, falou que ele era o único remédio de que precisava.

Em casa, ele mediu a pressão e escutou o coração dela e ficou satisfeito por ser só emoção.

Sentados no sofá do apartamento de três quartos dos Jardins, que a mãe insistia em arrumar com toalhinhas de crochê, ela, já mais controlada, começou:

— Danilo, tenho uma confissão.

— Ah, mãe, sou médico, não padre!

— É sério, Dani. É sobre sua mãe.

Ele ameaçou se levantar, mas ela o impediu.

— Você é minha mãe. A outra foi um útero, nada mais.

A velha suspirou.

— A moça era de família rica. Eu vi ela sumir no banheiro e depois sair do restaurante pela porta de trás. Quando eu achei você, que eu entendi.

Com o coração acelerado, Danilo se esforçou para não esmagar os dedos da velhinha.

Ela levou a palma da outra mão ao rosto cansado dele.

— Eu tenho o nome do homem que estava com ela lá. Procurei o recibo do cartão de crédito.

— Eu não quero saber! — Ele se levantou, quase empurrando a mãe, e lhe deu as costas.

Ela respirou fundo e, segurando-se no braço do sofá, se levantou com dificuldade. Apoiando-se nos móveis, foi para o quarto.

 

De manhã, Danilo foi beijar a mãe antes de ir ao trabalho.

Não falaram mais sobre o ocorrido, mas Dalva lembrou da gavetinha.

Um dia, se Danilo quisesse, teria a opção de saber o porquê.

Luci Lima

Luci Lima é tradutora e escritora brasileira. Após anos trabalhando com textos de outros autores, decidiu que também queria contar suas próprias histórias. Escreve romances, histórias policiais e contos.

Acredita que uma boa história não precisa ser necessariamente impressa e aprecia as novas formas de leitura proporcionadas pela tecnologia.

Fã de Jane Austen, escreveu Em Busca do Destino, uma variação de Orgulho e Preconceito, publicada na Amazon.com.br sob o pseudônimo Lilly Ames.

Quando não está escrevendo, vive cercada de gatos, ideias e personagens que insistem em aparecer.