por Mary Cavalcante
– Tá vendo aquelas ilhazinha ali? Quando eu nasci, não era esse monte não, era uma roda só.
O dedo indicador quase centenário de D. Clementina apontava trêmulo para um conjunto de filetes de terra em meia lua que mal se avistava de cima das falésias. Todos os finais de tarde, quando chegava da escola, Clenilson empurrava a cadeira até o pequeno mirante da comunidade do Morro Velho, onde moravam. Se fosse pelo gosto de D. Clementina, passaria o dia inteirinho lá, assistindo seu berço sumir no meio das águas.
– Como é que chama hoje, meu fio?
– Atol dos Nudibrânquios, trisa Clementina.
O trineto de dez anos fazia questão da companhia de sua ancestral mais velha. Ele não se importava de responder as mesmas perguntas e escutar as mesmas histórias.
– Hihihi... Que nome engraçado! E o que diabo é isso?
– São as lesmas do mar, trisa. – D. Clementina sempre ria do nome da ilha, e Cleonilson se divertia com a risada banguela dela.
– Ah, bom, é as lesma do mar. Mas porque deram um nome tão feio prum bicho tão bonito? Só pro nome da ilha ficar bisonho também. No meu tempo, a gente chamava de Ilha da Lua Cheia. Tinha um lago que parecia uma bacia no meio. Quando a lua de verdade tava cheia e a luz batia na água, ela ficava uma roda branquinha e toda brilhante. Mais bonita que a do céu. O lago tinha água doce, sabe fio? A gente bebia a água do lago, mas aí quando o mar começou a invadir, a água salgada começou a entrar e o lago não prestou mais.
O menino já conhecia a história de cor, e sua imaginação viajava de volta à época que sua trisa, bisa, e avó brincavam nas praias de areia branca e fina.
– Não levava muito tempo pra ir do mar pra lagoa ou da lagoa pro mar, mas rodar a ilha toda demorava mais um tiquinho. A casinha que eu nasci era do lado de cá, que que o mar engoliu primeiro... – A velha deu um suspiro, seus olhos encheram-se d'água. – Era pequena, mas cabia eu, meu pai, minha mãe, e meus seis irmãos. Como fui a última a casar... Porque eu era a mais nova, viu? Não era porque eu tava ficando no caritó, não! Do quê era que eu tava falando mesmo?
– Que a senhora foi a última a casar.
– Ah, sim, pois é. Casei e fiquei morando com meu marido e a mãinha na casinha que nasci. Tive sua mãe lá também.
– Minha bisa, a senhora quer dizer – o menino retificou a idosa.
– Sua o quê?
– Minha bisa, trisa Clementina. Foi a bisa Clemência que nasceu lá. Minha mãe nasceu aqui. A Clécia, filha da Clemilda, neta da Clemência.
– É mesmo. Às vezes eu me confundo toda. – A mulher soltou sua risada. – Falar nisso, cadê a Clemência? Ela precisa me ajudar a fazer a janta. O pai dela chega daqui a pouco.
– Bisa Clemência está em um lugar melhor – disse Cleonilson, esforçando-se para manter séria a expressão que tentava encobrir o sorriso mal contido.
– Ô, menina danada! Sempre se escapulindo na hora de fazer as coisa. Que lugar é esse? Eu vou lá buscar, vou trazer ela pelos cabelos.
A gargalhada do menino explodiu. Depois de alguns minutos longos o suficiente para fazer a barriga doer e uma lágrima cair, ele conseguiu articular:
– Ai, ai. Deixe a bisa quieta, trisa, me conte mais da Lua Cheia.
A mulher se mexeu na cadeira, ainda amuada pela ausência da filha na hora da obrigação, mas a lembrança dos ventos que uivavam à noite e do ritmo aconchegante da maré na ilha desmanchariam qualquer amuamento.
– Tá bom, meu fio, eu conto. Quando a maré tava baixa, aparecia as pedra e as lesma. Tinha muita lesma, dava pra encher balde. A água era tão clarinha que nem parecia que tava lá. Soprava brisa nas palma dia e noite. Não sei pra onde foi tanto coqueiro, tinha na ilha inteira. Quando a maré subia, a espuma inda ficava longe um tantão assim dos coqueiro quando eu era cocota.
Ela abriu os braços para mostrar a distância.
– Tinha um coqueiro que cresceu de lado. Eu me deitava nele pra esperar pain chegar da pesca. Depois que casei, esperava meu marido, sentada com os pé enterrado na areia. A gente não usava chinela, que a areia era macia e gostosa de pisar. Não era que nem essa sujeira daqui, não.
Fez uma careta de nojo enquanto se ajeitava novamente na cadeira.
– Quando a fia da Clemência tinha mais ou menos o seu tamanho, maior um pouco, é acho que ela tava perto de virar moça; a gente foi morar do outro lado do lago. Foi não, tô mentindo. Peraí, tô não. A gente já tava na casa nova quando sua mãe se engraçou do galeguin dos zói azul que apareceu por lá pra fazer não sei o quê.
– Essa foi a vovó Clemilda. Minha mãe é a Clécia, lembra? – O menino consertou sem tentar segurar o riso. Toda tarde era a mesma coisa, D. Clementina não acertava combinar o nome com a estória de nenhuma descendente, embora se lembrasse de todas.
– Hihihi... Errei de novo, né? Mas é que essas menina são tão parecida.
– Vovó Clemilda é quase preta e minha mãe é quase branca, trisa, e ainda tem olho azul igual o vovô Hans – disse ele rindo mais.
Os dois gargalharam por um bom tempo até que soprou a brisa que faz arrepiar os pelos do corpo. Sinal que estava chegando a hora de voltar pra casa. Cleonilson esfregou os braços com as palmas das mãos opostas.
– Tá com fri, menino? Você não podia morar na ilha, não. De noite, a gente batia os dente do lado de fora. Mas que a casinha nova também era boa, isso era. Acho que não fiquei nela nem vinte ano.
Nessa hora, uma moto com problemas de escapamento passou dando papocos. Mesmo não tendo a audição de antigamente, a velha senhora teve que parar de falar por um momento.
– Povo mal-educado. Por isso que eu queria ir me embora pra minha ilha. Não tem essas zuada. É só marejar de onda e canto do vento. Até o cheiro é diferente, cheiro de sal, de vida.
– Ninguém pode morar mais lá, tá condenado.
– Condenado é o maldito que obrigou a gente a sair! O pedaço que eu morava tá lá, ó. O mar não alcança que é alto. É capaz da minha casa nova ainda tá de pé, parece até que tô vendo ela.
– Tem mais condição de ninguém viver lá não, trisa. O engenheiro que ficou no lugar do vovô explicou. Não dá pra levar comida e água pra beber só se tiver chuva. Até os cientistas que estudam a natureza precisam de permissão pra ir na ilha hoje em dia.
Cleonilson se posicionou atrás da cadeira, e começou a movimentar Clementina para levá-la de volta à casa.
– Menino, me prometa uma coisa.
– Diga, trisa.
– Ôxe! Você tem que prometer primeiro.
– Como é que eu vou prometer uma coisa que eu nem sei o que é?
– Meu fio, eu não tenho muito tempo de vida mais não. Você vai gastar o tempo que resta dessa veia em teimosia sua? Prometa logo.
– Tá bom, eu prometo. – Cleonilson sabia que não conseguiria vencer a trisavó, então aceitou sorrindo.
– Pois você acabou de me prometer que vai me enterrar na Lua Cheia quando eu morrer. Do lado do meu veio que ficou bem pertinho da casa nova. Mesmo se um dia a água engolir tudo, vai dar tempo d'eu morrer primeiro. Posso até não morar lá tando viva, mas tando morta, não há de ter problema.
Por mais que fosse mórbido o tema, o menino não conseguiu deixar de dar uma gargalhada da perspicácia da mulher.
– Ó, ria não, que é sério. Se você não cumprir sua promessa, venho puxar o dedão do seu pé toda noite. Palavra de veia da ilha.
Metade de mim é o que sou; a outra, o que preciso ser.
Aqui sou uma profissional do texto. Faço análise de originais há bastante tempo, prática que começou quando colegas recorriam a mim para revisar, criticar ou reescrever seus trabalhos. Depois, passei a atuar com tradução e revisão de tradução do inglês em 2005, e do italiano em 2012.
Atualmente, faço a curadoria de informações e a preparação de posts para o site subliminaltales.com, além de escrever, revisar e produzir para o blog A Lambisgoia – Escritos, Traduções & Outras Insolências. Estou aprimorando minhas habilidades profissionais nos cursos de Formação de Revisores e Formação de Escritores da Metamorfose e na Pós-Graduação em Tradução Literária (LabPub).
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