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Lúcia

Lúcia

por Ana Cristina Sampaio Alves

Lúcia

Se anjos existem, eu não sei. Só sei que minha irmã Lúcia era um deles. Dona de espírito calmo e resiliente, em seus onze anos de vida demonstrou a bravura dos que enfrentam o caminho da morte de cabeça erguida.

Muito pequena, dormia de botas ortopédicas mesmo sem necessidade. É que havia se adaptado ao desconforto delas. Mais tarde, já na cadeira de rodas, brincava feliz de deslizá-la pela cozinha, sem jamais questionar se um dia voltaria a andar.

O tumor que nela se instalou aos dez anos de idade foi tão agressivo que em um ano lhe obrigou a três cirurgias, dezenas de sessões de rádio e quimioterapia. Perdeu os cabelos, mas não a beleza e, embora no final seus olhos verde-claros estivessem opacos, ainda transmitiam a fortaleza de seu espírito.

Concluiu o catecismo em casa, pois a doença avançava e o padre não queria deixar aquela alma santa sem o sacramento. De vestido branco, com o qual foi enterrada, e guirlanda de flores como coroa, tomou a primeira eucaristia na igreja, sentada em sua cadeira. Está sorridente e feliz em todas as fotos. É que os anjos sabem que a dor é apenas o caminho que purifica a alma e os aproxima de Deus.

Ana Cristina Sampaio Alves

Ana Cristina Sampaio Alves escreve desde a infância. Ainda criança, já se considerava uma novelista, mesmo que as histórias fossem um misto de contos de fadas com personagens reais. Escolheu o jornalismo como profissão, o qual a permitiu transitar por todo tipo de texto, desde os mais técnicos até os mais criativos, em diversos segmentos de mídias. Continua explorando a escrita e agora se aventura na literária, tendo publicado alguns contos e dezenas de crônicas. Esse é o gênero em que melhor transita. 

Embora não tenha ainda publicado narrativas longas, já participou da edição de coletâneas de contos. Segue buscando aprimorar o texto que emociona e traz reflexão. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.