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Magia ao luar

Magia ao luar

por Alexis Rodrigues de Almeida

Magia ao luar

O anúncio em uma rede social chamou a atenção de Marcelo: "A prefeitura de Sogni convida você para o IX Festival Anual Magia ao Luar. Será no próximo fim de semana. Venha viver essa grande sensação". Tratava-se de uma festa à fantasia e algumas fotos mostravam um ambiente alegre e descontraído. O local era desconhecido do rapaz, mas o anúncio trazia o desenho de um mapa, que indicava um lugar a cerca de setenta quilômetros dali.

— Vamos lá, cara, vai ser legal — disse Marcelo a um amigo, convidando-o a acompanhá-lo ao festival. — Fica só a alguns quilômetros daqui. Podemos ir no meu carro.

— Mano, não vi nada sobre esse festival. Perguntei a outros amigos nossos e ninguém ouviu falar sobre isso. Esquece essa ideia.

Empolgado com todo o mistério envolvendo a situação, e meio aborrecido com o amigo, ele resolveu ir sozinho. Chegou a Sogni no sábado à tarde orientado apenas pelo mapa que fazia parte do anúncio, já que o GPS não reconhecia nenhum local próximo com aquele nome. Duas colunas de pedra, cada uma com pelo menos quatro metros de altura e quase um metro de largura, marcavam a entrada do vilarejo, que ficava um pouco afastado da estrada principal, escondido atrás de uma colina.

O rapaz parou o carro, hesitou por um instante. Chegou a engatar a marcha ré. Parou novamente e pensou o que faria todo o final de semana. Gostava de aventura. O que poderia acontecer demais? na pior das hipóteses passaria alguns momentos entediantes. E se não gostasse, poderia voltar no mesmo dia. Finalmente decidiu entrar.

Ao passar pelas colunas, avistou um grupo de crianças cantando e dançando alegremente, saudando-o com um sorriso acolhedor. Uma delas indicou a direção do hotel onde ele deveria se hospedar até o dia seguinte. Aliás, pelo que falaram no anúncio da festa, esse era o único hotel da cidade e ficava na rua principal, onde ocorriam as festividades. Aquela parecia ser a única rua da cidade, já que ele não avistava nenhuma esquina, nenhum cruzamento. A rua iniciava no portal e acabava uma centena de metros à frente, onde se encontrava uma igreja com uma torre de campanário central.

A fachada do hotel seguia a arquitetura do restante da cidade. Eram todas construções que lembravam uma pequena vila de interior. Estacionou o carro em um largo à frente do hotel, conforme indicação de uma placa sinalizadora. Levava apenas uma pequena mala de bordo. Era o suficiente para armazenar seus pertences bem como a fantasia, que era obrigatória para o evento. 

A recepção do hotel era singela e muito bem cuidada. Era um exemplo de minimalismo, pode-se dizer.  A moça atrás do balcão, vestia uma fantasia de princesa, o que tornava a atmosfera do local ainda mais atraente.

— Boa tarde, senhor Marcelo, é um prazer recebê-lo em nossa querida Sogni — saudou a recepcionista do hotel, mostrando um largo e amável sorriso.

Marcelo apaixonou-se pela simpatia e hospitalidade dos moradores. Só mais tarde iria se dar conta de que não dissera seu nome em momento algum. Como a recepcionista poderia saber? 

O rapazinho, quase um adolescente, encarregado de levar a mala até o quarto mostrou-se mais reservado e visivelmente nervoso, buscando aprovação no olhar da recepcionista para cada um dos seus gestos. O lugar estava muito movimentado, com hóspedes e funcionários ocupando todos os cantos. Nos poucos instantes em que ficaram a sós, o garoto falou baixinho, olhando para os lados e quase sussurrando:

— O senhor não deveria estar aqui. Não confie em ninguém neste lugar. Vá embora enquanto pode.

Sem esperar resposta, virou-se e saiu correndo dentro de sua fantasia de Peter Pan, deixando a mala em um canto do quarto e um ar de dúvidas na cabeça do hóspede.

Será que aquilo tudo fazia parte da festa? De alguma forma eles descobriram seu nome. Depois, o mensageiro fez todo aquele mistério, tentando amedrontá-lo. Ficou rindo sozinho enquanto admirava o movimento pela janela do quarto. A agitação tomava conta de toda a rua. Gente prá lá e prá cá. Aquela noite seria inesquecível, sem dúvida. 

Procurou o celular no bolso da calça. Lembrou-se de tê-lo deixado no porta-luvas do carro. Sentiu-se meio estranho sem poder se comunicar online com seus amigos, mas o anúncio foi bastante enfático: "é absolutamente proibido o uso de aparelho celular". Ao anoitecer, viu a lua cheia iluminando toda a cidade. O céu estava limpo e uma corrente de ar quente entrava pela janela do quarto. Marcelo saiu do hotel e se misturou às pessoas no meio da rua, passeando entre as muitas barracas de comida posicionadas nas calçadas e na pracinha. Artistas de rua faziam apresentações das mais diversas. Encontrou um homem cuspindo fogo ao lado do engolidor de espadas. Palhaços e malabaristas reuniam dezenas de pessoas em volta de si. Mais à frente, um mágico fazia truques de ilusionismo, próximo à praça. A atmosfera era mágica e envolvente.

Marcelo andou de uma barraca para outra, experimentando diferentes comidas e bebidas. Costumava viajar por todo o país, mas nunca experimentara iguarias como aquelas. Por um momento sentiu-se embriagado, vendo o mundo girar, embora não tivesse ingerido nenhuma bebida alcoólica. Esfregou os olhos e a visão voltou ao normal. Continuou andando entre as pessoas, admirando os artistas, a música e a alegria crescente. Novamente a cabeça girou. Pessoas o sustentaram e o deitaram no chão.

Quando abriu os olhos, tudo havia mudado. A rua estava deserta. Ao tentar se levantar, ouviu uma voz atrás de si. Ou seria embaixo? 

— Ei, vê se não apoia o cotovelo em mim. Dói muito, sabia?

Marcelo pôs-se em pé num sobressalto. Constatou, horrorizado, que a voz vinha do banco da praça onde estivera deitado.

— Como assim! — exclamou, arregalando os olhos.

— Ora, como assim. GUARDAS! — Gritou o banco de praça numa voz gasguita.

Dois cachorros enormes se aproximaram, vindos das sombras, que agora dominavam toda a rua. O céu estava coberto por nuvens escuras e a pálida iluminação vinha unicamente de um poste acima do banco.

— O que está acontecendo aqui? — Perguntou um dos cães.

Marcelo olhou ainda mais horrorizado para o canzarrão falante à sua frente.

— Esse estranho me atacou com seu cotovelo ossudo — acusou o banco de praça.

— Mas... mas... — gaguejou Marcelo, sem conseguir construir um argumento plausível.

— Vamos levá-lo à delegacia para interrogatório — emendou o segundo cão em meio a um rosnado de ameaça, — ele vai falar tudo. Eles sempre acabam falando tudo. Venha conosco, estranho.

Vendo-se sem alternativa e ansiando por explicações, Marcelo acompanhou um dos cães, enquanto o outro seguia atrás dele, rosnando e mostrando as presas afiadas.

Ao chegar à delegacia, Marcelo suspirou aliviado. O delegado era humano.

— Ah, graças a Deus! É muito bom encontrar o senhor aqui.

— Eu estou sempre aqui. O novato na cidade é o senhor. E eu já estou sabendo de tudo. O senhor veio só arranjar confusão em nossa graciosa vila. Uma noite na cadeia vai fazê-lo se acalmar e refletir sobre seus atos.

— Mas eu não fiz nada!

— Não foi isso que o Banco de Praça nos disse.

Marcelo olhou, intrigado, para os lados. Eles eram os únicos presentes ali. Os cães estavam calados desde sua chegada à delegacia. Como o delegado poderia saber da ocorrência na praça?

— Senhor, deixe-me explicar tudo, — suplicou Marcelo.

— O senhor vai poder explicar tudo pela manhã, se tiver oportunidade, — falou o delegado, soltando uma gargalhada desproporcional à situação.

Os cães também riam estrepitosamente, alternando gargalhadas e uivos. Marcelo foi posto numa cela no fundo da delegacia.

— O senhor ficará aí pensando no que fez. Logo o juiz chegará e decidirá o seu destino. Não devia ter vindo perturbar nossa pacata cidade. Agora vai aprender a lição.

Marcelo se acomodou no chão da cela. Teve receio de deitar-se na estreita cama grudada na parede. Ficou ali cerca de meia hora. Tateou mais uma vez o bolso da calça em busca do celular. Estimava ser umas duas horas da madrugada, mas como se certificar? De repente ouviu vozes, vindas da sala do delegado.

— Ilustríssimo juiz, eu imploro, o senhor deve puni-lo. É um arruaceiro. Atacou nosso querido Banco de Praça, sem mais nem menos.

— É sempre a mesma coisa. O senhor me tira da cama para eu vir aqui julgar um estranho qualquer.

— Senhor juiz, seja positivo. Nossa bela cidade ganhará um novo morador. Ele poderia iluminar a pracinha. Ela anda tão escura ultimamente...

— Está bem, está bem, senhor delegado. Pare de choramingar. Mas não vou fazer sua vontade em tudo. De forma alguma. Anote aí minha sentença: como juiz da grandiosa cidade de Sogni, blá, blá, blá, declaro o forasteiro culpado do crime de importunação. Ao amanhecer, deverá ser transformado em sino de igreja. A igreja precisa de um sino, não acha, delegado?

— Claro, meritíssimo. O senhor sempre toma decisões muito sábias.

De sua cela, Marcelo acompanhava, atônito, aquele diálogo impensável. Pelo lado racional, era um completo absurdo jurídico. Um julgamento sem a presença do réu, sem testemunhas, sem defesa. Mas tudo aquilo perdia o sentido ao se tratar da sentença proferida: ser transformado num sino de igreja. Onde veio se meter? devia ter ouvido seu amigo.

Encontrava-se em meio a esses pensamentos quando ouviu alguém chamando seu nome.

— Senhor Marcelo, psiu, aqui em cima — o rapaz do hotel mostrou o rosto pela pequena janela gradeada.

— Que bom ver você, meu jovem! — Exclamou Marcelo, quase gritando.

— Não se preocupe, vou tirá-lo daí.

Cerca de duas horas depois, algumas pedras na parte de baixo da parede externa ganharam vida e começaram a se mover. O buraco aberto era suficiente para ele passar esgueirando-se pela fresta. 

— Muito obrigado, meu amigo.

— Temos pouco tempo. Precisa sair daqui o mais rápido possível. Falei que o senhor deveria desconfiar de todos.

— Você precisa vir comigo, garoto. Esse lugar é muito perigoso.

— Não posso. Toda a minha família está aqui.

— Eles poderiam vir com a gente.

— Impossível — falou o garoto enquanto olhava em volta, mirando alguns postes e árvores.

Marcelo compreendeu imediatamente. Ele próprio seria transformado em sino de igreja em algumas horas caso não saísse dali imediatamente. Depois de abraçar o garoto, saiu correndo em direção ao seu carro, escondendo-se nas sombras da rua.

Havia dado somente alguns passos quando um intenso clarão iluminou toda a cidade por uns dois segundos. Olhando para trás ainda conseguiu ver o rosto do menino sorrindo. Depois tudo se apagou.

Quando acordou já era dia e ele conseguia ver a cidade lá do alto. Tentou se movimentar mas sentiu como se estivesse suspenso, preso pelo topo da cabeça.

Horrorizado, viu o menino lá embaixo, no que parecia ser o pátio da igreja. O garoto sorriu e acenou para ele. Depois deu as costas e saiu em direção ao hotel.

Alexis Rodrigues de Almeida

Alexis Rodrigues de Almeida é escritor apaixonado por grandes clássicos da literatura. Autor de alguns contos publicados em coletâneas, explora temas como relações familiares, dilemas éticos, sempre buscando contar uma boa história, que traga reflexão para os leitores de uma forma prazerosa. Participou de diversas coletâneas de contos, e atualmente dedica-se a escrever sua primeira narrativa longa.