por Rosane Rubinstein Pagliuca
Na porta do restaurante, um rapaz dava um passo para trás, o outro fazia o mesmo. Nenhum dos dois cruzava a entrada.
— E se ele mandar a gente embora?
— Aí a gente vai. Mas, não custa tentar.
Bento foi o primeiro a notá-los. Estava secando um copo, quando se virou para Seu Joaquim:
— Começaram a chegar.
Atrás do balcão, Seu Joaquim conferia algumas notas.
— Eu vi.
Os dois entraram.
— Seu Joaquim...
— A gente...
— Primeiro ano?
Os dois assentiram, o mais tímido ajeitou a mochila, e guardou seu Vade Mecum.
Seu Joaquim apontou para uma mesa perto da janela.
— Senta logo. O arroz não espera ninguém.
Bento levou o cardápio, apanhou a comanda e franziu o cenho, virando-se para Seu Joaquim antes mesmo que a caneta tocasse o papel:
— Anoto?
— Não precisa.
Mesmo assim, dobrou a comanda, guardou-a no bolso do avental e gravou os pedidos.
Os rapazes pediram o prato do dia, e apenas água para acompanhar.
Comeram com gosto, enquanto checavam animados as respostas da prova que tinham feito.
Bento voltou, retirou os pratos, e lançou aos dois um olhar breve, daqueles que dispensavam qualquer comentário.
— Sobremesa?
— Hoje não.
— Café?
— Esse fica para quando a gente voltar.
Já estavam saindo, quando o mais tímido ensaiou outra frase.
— A gente...
Seu Joaquim ergueu a mão.
— Vai estudar.
Os dois agradeceram com um aceno e desapareceram rindo na esquina.
Bento arrumou a mesa, passou a mão sobre a toalha, e bufou como quem já sabia que perderia a discussão:
— Todo onze de agosto é a mesma coisa.
Quando estendeu a mão para recolher os cardápios, Seu Joaquim fez um gesto.
— Deixa.
Bento retirou a comanda do bolso, olhou para ela por um instante, rasgou-a em quatro partes e deixou os pedaços caírem na lixeira.
A mesa permaneceu posta. Seu Joaquim já olhava de novo para a porta.
Rosane Rubinstein G Pagliuca é formada em Administração e Direito, com especialização em Direito Penal e Processual Penal. Observadora das contradições humanas, escreve sobre relações que nascem sob tensão, afetos que exigem coragem e escolhas que transformam destinos. Em suas histórias, interessa-lha menos o óbvio e mais aquilo que se revela nas zonas de silêncio.