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Mais um 11 de Agosto

Mais um 11 de Agosto

por Rosane Rubinstein Pagliuca

Mais um 11 de Agosto

Na porta do restaurante, um rapaz dava um passo para trás, o outro fazia o mesmo. Nenhum dos dois cruzava a entrada.

— E se ele mandar a gente embora?

— Aí a gente vai. Mas, não custa tentar.

Bento foi o primeiro a notá-los. Estava secando um copo, quando se virou para Seu Joaquim:

— Começaram a chegar.

Atrás do balcão, Seu Joaquim conferia algumas notas.

— Eu vi.

Os dois entraram.

— Seu Joaquim...

— A gente...

— Primeiro ano?

Os dois assentiram, o mais tímido ajeitou a mochila, e guardou seu Vade Mecum.

Seu Joaquim apontou para uma mesa perto da janela.

— Senta logo. O arroz não espera ninguém.

Bento levou o cardápio, apanhou a comanda e franziu o cenho, virando-se para Seu Joaquim antes mesmo que a caneta tocasse o papel:

— Anoto?

— Não precisa.

Mesmo assim, dobrou a comanda, guardou-a no bolso do avental e gravou os pedidos.

Os rapazes pediram o prato do dia, e apenas água para acompanhar.

Comeram com gosto, enquanto checavam animados as respostas da prova que tinham feito.

Bento voltou, retirou os pratos, e lançou aos dois um olhar breve, daqueles que dispensavam qualquer comentário.

— Sobremesa?

— Hoje não.

— Café?

— Esse fica para quando a gente voltar.

Já estavam saindo, quando o mais tímido ensaiou outra frase.

— A gente...

Seu Joaquim ergueu a mão.

— Vai estudar.

Os dois agradeceram com um aceno e desapareceram rindo na esquina.

Bento arrumou a mesa, passou a mão sobre a toalha, e bufou como quem já sabia que perderia a discussão:

— Todo onze de agosto é a mesma coisa.

Quando estendeu a mão para recolher os cardápios, Seu Joaquim fez um gesto.

— Deixa.

Bento retirou a comanda do bolso, olhou para ela por um instante, rasgou-a em quatro partes e deixou os pedaços caírem na lixeira.

A mesa permaneceu posta. Seu Joaquim já olhava de novo para a porta.

Rosane Rubinstein Pagliuca

Rosane Rubinstein G Pagliuca é formada em Administração e Direito, com especialização em Direito Penal e Processual Penal. Observadora das contradições humanas, escreve sobre relações que nascem sob tensão, afetos que exigem coragem e escolhas que transformam destinos. Em suas histórias, interessa-lha menos o óbvio e mais aquilo que se revela nas zonas de silêncio.