por Lu Aranha
A Bienal começa e, de repente, parece que todos os escritores do mundo estão a caminho dela. As redes sociais se enchem de malas, credenciais, pilhas de livros, corredores imensos, filas, encontros prometidos havia meses.
Há fotografias de autores diante de seus lançamentos, de leitores segurando sacolas, de amigos que finalmente se reconhecem fora da tela. Por alguns dias, a literatura parece ter um endereço. E quem não está naquele endereço pode sentir que ficou do lado de fora de alguma coisa essencial.
Eu conheço essa sensação.
Conheço a vontade de estar ali, entre livros e vozes, vendo de perto os nomes que normalmente habitam apenas as capas, as lombadas, as telas. Conheço também a pequena angústia de acompanhar tudo à distância e imaginar que, enquanto a feira acontece, alguma porta está se abrindo para todos os outros, menos para mim.
É fácil acreditar nisso. A Bienal tem essa força: ela concentra. Concentra o desejo de publicar, o desejo de ser lido, o desejo de pertencer. Concentra editoras, escritores, leitores, agentes, jornalistas, criadores de conteúdo, professores, curiosos e crianças que ainda escolhem um livro pelo brilho da capa ou pela promessa de uma aventura. Ela nos lembra, com uma intensidade quase física, que os livros circulam. Que eles saem da solidão em que foram escritos e encontram mãos, olhares, vozes, mochilas, estantes.
Mas a Bienal também pode nos ensinar uma coisa que nem sempre queremos ouvir: ela não é o centro de uma carreira. É um encontro. Um acontecimento. Uma fotografia muito grande de um trabalho que começou antes dela e continuará quando os estandes forem desmontados.
A minha primeira Bienal foi uma experiência quase inacreditável. Eu já construía uma carreira como escritora independente, alguns dos meus e-books tinham encontrado muitos leitores, e cheguei à feira para lançar Valeu o Universo! sabendo que havia pessoas que poderiam me procurar ali. Havia algo muito comovente em deixar de imaginar um leitor abstrato e encontrá-lo de fato: alguém que conhecia minhas personagens, que trazia uma história sobre um livro meu, que esperava alguns minutos apenas para dizer que aquelas palavras o tinham acompanhado.
Eu morava, na época, em Manaus. Então encontrar, naquele mesmo espaço, outras colegas escritoras que até então existiam sobretudo pela internet também parecia uma espécie de milagre. A Bienal foi, naquela vez, a confirmação de que escrever não era mais apenas um gesto solitário.
Mas as feiras não guardam apenas as lembranças que gostaríamos de mostrar em fotografias. Em outra Bienal, fui lançar quatro livros num momento em que minha vida havia se tornado um território de medo. Pouco antes, depois da separação, eu tinha sido ameaçada pelo meu ex-marido com uma arma. Entre os livros estava As Vantagens de Ser Traída, que narrava justamente a história daquela separação, ainda anterior à ameaça, mas já tão próxima daquilo que eu vivia.
Enquanto, em casa, tudo era confusão e preocupação, especialmente por causa do meu filho pequeno, eu precisava estar ali: sorrir, conversar, assinar livros, cumprir o ritual esperado de um lançamento. Meu corpo estava presente, sentado diante dos leitores, mas alguma parte essencial de mim não conseguia acompanhá-lo. Era como se eu tivesse aprendido, por algumas horas, a funcionar no automático. Aquela Bienal deixou uma marca difícil: a prova de que, às vezes, até um lugar feito de livros pode ser atravessado por aquilo que ainda não conseguimos nomear.
Já estive também em outras feiras como autora, como leitora, como alguém que trabalha com livros e acompanha o desejo de tantos escritores. Em cada lugar, vi uma feira diferente.
A eu autora quer encontrar seus leitores e torce para que o livro, por alguns minutos, pareça ocupar todo o mundo. Já meu eu leitora quer se perder entre títulos e voltar para casa com mais histórias do que conseguirá ler naquele ano, quiçá na vida. Quem trabalha no mercado observa os movimentos: os lançamentos, as conversas, as promessas, as estratégias, os livros que atraem filas, os que passam quase silenciosos.
Há também a eu que fica em casa. Não por falta de desejo, nem porque deixou de amar os livros ou de acreditar nos encontros que eles provocam. Mas porque a vida deu voltas demais, porque algumas experiências se transformaram em trauma e porque, às vezes, voltar a um lugar exige uma força que ainda não está disponível. A Bienal, para mim, também carrega essa memória: a de um corpo que precisou sorrir quando por dentro só havia medo.
E tantas outras pessoas que ficam em casa por razões diferentes. Quem não pôde ir por falta de dinheiro, tempo, companhia ou coragem. Quem mora longe. Quem ainda não publicou. Quem publicou, mas não teve convite, mesa, sessão de autógrafos ou um livro para empilhar diante de uma câmera. Quem olha para a Bienal e pensa: talvez eu ainda não pertença a esse mundo.
A essas pessoas, eu queria dizer: pertenço à literatura também quando não estou na feira.
Pertencemos quando escrevemos uma cena que finalmente começa a respirar. Quando voltamos a um capítulo que parecia perdido e encontramos uma frase que nos devolve o caminho. Quando lemos com atenção o livro de outra pessoa. Quando recusamos a pressa de publicar algo que ainda pede trabalho. Quando aprendemos a distinguir a vontade de ser reconhecido da vontade mais funda — e mais difícil — de fazer uma obra existir.
Nenhuma carreira literária se faz em quatro, oito ou dez dias de evento. E, embora seja bonito ver um livro ganhar luz sob os refletores, ele não nasce ali. Nasce no tempo invisível: nas páginas que ninguém viu, nas leituras que nos transformaram, nas dúvidas, nos cortes, nas reescritas, nos dias em que parece que nada acontece, mas alguma coisa está amadurecendo.
A Bienal pode ser um sonho. E não há problema algum em sonhar com ela. Sonhar em lançar um livro. Sonhar em encontrar leitores. Em caminhar por aqueles corredores sabendo que, em algum ponto, há uma história sua esperando alguém escolhê-la. Esse desejo não é vaidade. Muitas vezes, é desejo de partilha. Escrevemos sozinhos, mas escrevemos para que, em algum momento, outra pessoa reconheça em nossas palavras uma pergunta, uma dor, uma alegria, uma memória que também poderia ser dela.
Mas não transforme a ausência numa sentença. Se você não vai à Bienal este ano, talvez possa perguntar o que esse desejo revela. Você quer publicar? Quer encontrar uma comunidade de leitores? Quer conhecer melhor o mercado? Quer ter coragem de assumir que escreve? A resposta pode se tornar um gesto concreto quando a feira passar: retomar o original, procurar uma leitura crítica, organizar um projeto, participar de uma oficina, conhecer outros escritores, divulgar o livro que já existe, ler mais profundamente aquilo que deseja escrever.
A feira não substitui nenhum desses passos. Ela apenas os torna mais visíveis. Quando as luzes se apagarem e as fotos derem lugar a outras notícias, os livros continuarão pedindo aquilo que sempre pediram: tempo, trabalho e leitores. E nós continuaremos diante da página, que é, no fim, o primeiro estande de qualquer escritor.
Luísa Aranha é escritora independente, professora, jornalista e blogueira. Publicou mais de 30 títulos, entre dramas, comédias românticas, eróticos, antologias e romances contemporâneos, todos em formato impresso e digital. Semifinalista do Prêmio Sesc de Literatura em 2017, é especializada em literatura de entretenimento e autopublicação, sendo uma das autoras mais lidas na Amazon, onde publica desde 2016. Seu último romance, Filhas da Terra, foi lançado em 2023 pela Editora Metamorfose.