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Mala vazia

Mala vazia

por Letícia Almeida

Mala vazia

Mala vazia

           Clara havia planejado aquela viagem há muitos anos. Um sonho arquivado aguardando o momento ideal que nunca havia chegado. Pela primeira vez, depois de muito tempo, viajaria sozinha novamente. Tinha feito isso muitas vezes na juventude, conheceu todo o interior de Minas só com uma mochila nas costas. Diamantina, Ouro Preto, Tiradentes ... Banhos de cachoeira e acampamentos na beira do rio, ora sozinha, ora com uma trupe, enfim, guardava boas lembranças daquela época. Assim tinha conhecido Augusto. Alto, corpo atlético e cabelo comprido. Chamou sua atenção logo de cara com seus belos olhos verdes que pareciam pedras preciosas. Atencioso, cuidadoso, a tratava como um cristal frágil. Sentia-se especial ao seu lado. Logo ela que havia sido tão negligenciada pelos pais. Era a filha do meio de um casal completamente disfuncional. Invisível na infância, bom comportamento e notas altas não foram suficientes para receber o amor devido. Na adolescência desistiu de esperar afeto de quem nunca havia lhe visto e saiu de casa. Estudou fora, passou por muitos perrengues, mas hoje, aos 54 anos, entendia que isso tinha a feito amadurecer cedo. Com o coração duro, é verdade, porém resistente às trombadas da vida. Havia sobrevivido a um câncer, à morte recente de Augusto e à perda da primeira casa em um incêndio, portanto a sensação de ninho vazio em que se encontrava no momento não a assustava. Os filhos já estavam crescidos e a mais velha até já tinha saído de casa para estudar. O caçula ainda vivia debaixo do mesmo teto, mas já tinha sua própria vida e interesses. Enfim, sentiu que havia chegado o seu momento. Aquela pequena viagem seria um dos primeiros sonhos que se propôs a realizar.

           Arrumou cuidadosamente suas roupas na mala verde comprada exclusivamente para essa viagem. Quatro vestidos, duas calças jeans, o velho macacão estampado que não amassava nunca, algumas camisetas e um par de sandálias. Já viajaria com seu coturno e seu casaco na mão para economizar espaço na mala. Não queria carregar peso em excesso, já bastavam as pedras que tinha juntado no coração.

           Pediu um táxi, chegou na rodoviária. Sentiu-se bem por ser apenas mais um rosto na multidão. Ali ninguém se conhecia e cada um seguiria para um destino diferente. Cada pessoa trazia uma história diferente misturada aos seus pertences na mala. Ficava imaginando como tinha sido a vida de cada um de acordo com a mala que levava. A moça alta, de vestido decotado e salto alto levava uma mala tão grande quanto sua altura. Devia estar repleta de roupas chiques, maquiagens e acessórios, pensou. "Ainda não aprendeu a desapegar de nada", julgou com ar de superioridade. Uma família, com quatro crianças pequenas levavam muitas malas, além de sacolas plásticas e bolsas menores. As crianças carregavam bichos de pelúcia e almofadas. A mãe carregava o caçula no colo. Lembrou-se das dificuldades dessa fase da vida, em que a mãe vive anulada em função de suas crias. "Ao menos tinha tido apenas dois filhos," agradeceu a si mesma novamente com um ar superior.

           O motorista chegou e pediu que os passageiros formassem uma fila para começar a conferência das passagens. Um a um foram entrando e se sentando em seus lugares. Havia comprado a poltrona dezenove, idade em tinha conhecido Augusto. "Talvez esse número pudesse dar sorte para a viagem", devaneava quando a moça da bilheteria a pediu para escolher seu lugar. Despachou sua mala para ser guardada e recebeu uma etiqueta com seu nome. Subiu as escadas do ônibus e procurou pela poltrona dezenove. Acomodou sua bolsa de mão e seu casaco no guarda-volumes superior e olhou pela janela. Aos poucos a rodoviária foi se distanciando até que o ônibus adentrou pela estrada. A paisagem começava a mudar e aos poucos o sinal de civilização desaparecia. Agora eram só morros e árvores, não avistava mais nenhuma casa, nenhum comércio, nenhuma criança brincando na rua. Enfim, a solitude.

         Começou a cair uma chuva fina, daquelas que só servem para deixar o clima ainda mais abafado. Precisou fechar a janela e aproveitou também para fechar os olhos. Talvez conseguisse tirar um cochilo o que tornaria a viagem mais rápida. Ansiava pela chegada dentro de algumas horas. Tinha reservado um quarto em uma pousada simples, mas muito aconchegante. Pesquisou sobre os passeios que poderia fazer, soube que teria uma exposição de flores naquela semana, adorava orquídea, rosa, peônia, hortênsia. Pesquisou também sobre os restaurantes que gostaria de conhecer e os pratos experimentaria. A pousada tinha uma piscina, havia se imaginado nela no final da tarde. Era mês de maio, fora de temporada, a pousada deveria ter poucos hóspedes. Imaginava dias tranquilos, de silêncio e encontro consigo mesma.

           A chuva ficou mais forte e em pouco tempo não dava para enxergar mais nada do lado de fora. O motorista reduziu a velocidade e pediu para que todos os passageiros permanecessem sentados. Observou algumas senhoras apreensivas, outras já histéricas, bebês chorando e logo o clima de tensão dominou todo o ônibus. Clara permanecia tranquila, afinal a vida lhe ensinara que tudo uma hora passa e que não adianta se estressar e perder a serenidade. Estava mergulhada em seus pensamentos quando o motorista perdeu o controle e o ônibus derrapou em uma curva. Ouviu gritos, um grande estrondo e, em poucos segundos, o cheiro de gasolina e sangue dominou o ambiente. Olhou ao seu redor e observou algumas pessoas bastante machucadas, outras desmaiadas, ou até mesmo mortas. Poltronas de cabeça para baixo escondiam rostos ensanguentados. Sentiu um alívio ao perceber que conseguia mover-se sem muita dificuldade. Ajudou um senhor a soltar a perna que havia ficado presa no cinto de segurança. Pela forma que gritava devia ter fraturado. Conseguiu abrir sua janela, que agora mais parecia o teto do ônibus pela posição que tinha caído e se esforçou para sair. Por sorte o celular em seu bolso de zíper parecia intacto. Discou 192 e relatou o acidente.

           O bagageiro do ônibus se abriu com o impacto e todas as malas caíram na estrada, abertas e misturadas. Roupas, toalhas, sapatos, tudo jogado e molhado no asfalto. A chuva continuava caindo, mas Clara já nem conseguia sentir a água fria no corpo extasiado. Apesar do pânico da maioria, sentiu-se grata por estar viva com poucos arranhões. Talvez quando se despisse percebesse alguns machucados e hematomas, mas, naquele momento, era só o sentimento de alívio que perdurava. Pensou que, por um breve instante, a vida de todas aquelas pessoas havia se cruzado e suas histórias se entrelaçado como aquelas roupas no asfalto. Haviam vivido o mesmo momento, porém cada um encontrou o destino que o aguardava naquele dia. Clara reconheceu sua mala verde, até que em bom estado, porém vazia. As rodinhas ainda permitiam que fosse puxada. Seguiu pela estrada, poderia pedir carona logo mais a frente. Holambra estava a sua espera. Seu destino, ela própria havia escolhido dessa vez. Estar entre as flores e os moinhos de vento.

Letícia Almeida

Letícia Almeida é brasileira, paulista de nascimento e brasiliense de coração.

Vive em Brasília desde 2012 onde atua como enfermeira.

Também formada em psicanálise, encontrou na escrita um meio de expressar sua criatividade aliada a uma forma peculiar de vivenciar os mistérios da vida.

Autora dos contos MATCH DE AREIA, publicado na coletânea Toda forma de amor, ASA RASGADA, publicado na antologia Enquanto houver sol e MALA VAZIA, publicado na antologia TRAVESSIA, Letícia Almeida estreia com seu primeiro romance.

"Mulheres de água doce" é um romance com raízes indígenas ambientado em Alter do Chão, no Pará, que conta a história de cinco mulheres unidas pelo fio invisível da existência e conectadas pelo rio Tapajós. Uma história de força, superação, preconceito e cura através das gerações.