por Letícia Almeida
Parecia mais um match comum entre tantos outros. Com um perfil que bombava em três aplicativos diferentes, me considerava um cara de sorte. Opções nunca me faltaram. Mais velhas, mais novas, altas, baixinhas, loiras, morenas, asiáticas, digamos que meu currículo amoroso era bem vasto e diversificado. Também pudera, sei que fui mimado por Deus e recebi uma beleza de dar inveja.
Com quinze anos já era considerado o cara mais popular do colégio, com a chance de escolher a garota que quisesse. Tive alguns relacionamentos mais longos, com a Ângela achei que fosse me casar, a gente estava há 2 anos junto e tal, mas, sei lá, não conseguia me ver ao lado dela daqui uns anos. Deu um baita medo, já não sabia mais o que sentia. Fiquei mal, culpado pra caramba, a família dela era super gente boa comigo, mas não teve jeito. Abri o jogo com ela e, pra minha surpresa, ela também disse que estava na mesma vibe. Queria estudar fora do país, concorria à uma bolsa nos EUA. No fim das contas foi mais fácil do que imaginava, cada um seguiu sua vida sem estresse.
Depois disso decidi que não queria mais saber de namoro. Entrei nos aplicativos e conheci várias mulheres que também pensavam como eu, ou seja, viver um dia de cada vez, sem planos e cobranças pro futuro. Foi divertido, não posso negar, mas depois de um tempo até essa diversidade acabou virando rotina. Você curte a foto, conversa coisas banais, marca o encontro, às vezes é bom, mas também pode ser uma furada, vê que não tem mais nada a ver e parte pra outra. Aí começa tudo de novo. Me sentia como um cachorro correndo atrás do próprio rabo.
Aí dei match com a Bruna. Ela tinha várias fotos legais no perfil, morena, cabelos castanhos e um sorriso tímido. Não era o tipo de mulher que chamaria minha atenção à primeira vista, no entanto o papo rolou legal e eu fiquei fissurado em querer conhecê-la. Na primeira semana trocamos mensagens e fotos todos os dias. Parecia que a gente já se conhecia há um tempão, ansiedade a mil, não largava o celular por nada. Ela era dois anos mais velha e morava do outro lado da cidade, mas naquela altura nada me importava. Iria atrás dela até no inferno.
Marcamos nosso primeiro encontro. Tinha sugerido um barzinho da moda com música ao vivo, precisava impressionar aquela mulher, mas ela disse que preferia algo de dia, no meio da tarde. Me passou o endereço de uma lanchonete que ficava dentro de um clube, achei estranho, mas não comentei, e lá estava eu às três da tarde sentado num banco com formato de lápis vermelho no local combinado. Três e dez, três e quinze, já tinha checado o celular sei lá quantas vezes pra ver se tinha alguma mensagem. Já era meu segundo refrigerante, deslizei o dedo pela tela mais uma vez e vi a foto dela do perfil. Gata demais! Foi quando ela apareceu, cabelos soltos, regata branca, calça jeans modelando uma bunda linda. Fiquei em pé para recebê-la, só então percebi que tinha garoto segurando a mão dela.
- Victor? Desculpe o atraso, esse é Lucas, meu filho. O danadinho pediu pra fazer cocô na hora de sair de casa. Prazer! Bruna!
Acho que levei uns dois minutos pra estender a mão e dar um beijo no rosto dela, aquilo estava totalmente fora do padrão. Passei a mão na cabeça do moleque e logo ele desapareceu em direção ao parquinho de areia.
- Prazer! Victor! – respondi meio sem graça. Uau, tá quente aqui, né? Quer beber alguma coisa?
Nos sentamos, a atendente apareceu e Bruna pediu um suco de abacaxi pra ela e um de uva pro garoto. Quando ela deu as costas, veio aquele silêncio mortal, eu realmente não sabia o que dizer.
- Sei que tá surpreso, fiquei com receio de comentar sobre meu filho antes e você nem querer me conhecer. Já passei por algumas situações desse tipo e tava gostando tanto de conversar com você que fiquei com medo de estragar tudo. Mas é isso, Lucas é o amor da minha vida.
Minha cabeça girava, já tive vários encontros antes, mas esse realmente mexeu demais comigo. Ela falava, sorria, e eu hipnotizado naquele sorriso. Me contou a história do garoto, o pai nem sabia que ele existia, foi sexo de uma noite só com um cara que conheceu na balada.
- Mas você não procurou por ele? Ele tinha que assumir, pagar pensão, essas coisas.
- Eu tinha percebido que ele era um cara que não tinha a menor condição de ser pai naquele momento. Tava só interessado em curtição. Me deixou claro que não ia me ligar no dia seguinte, tinha bebido bastante. E a gente nem se conhecia.
Ela fez uma pausa dramática, tomou um gole longo sem tirar os olhos de mim.
- Agora é diferente. Nasceu algo entre nós, além do Lucas.
- A gente ...
- Também fiquei surpresa ao te reencontrar, Víctor!
Bruna apertou minha mão, seus olhos estavam molhados. E sentado no banco em forma de lápis olhei pro parquinho. Meu filho era bonito, forte, saudável e enchia um caminhão de areia.
Letícia Almeida é brasileira, paulista de nascimento e brasiliense de coração.
Vive em Brasília desde 2012 onde atua como enfermeira.
Também formada em psicanálise, encontrou na escrita um meio de expressar sua criatividade aliada a uma forma peculiar de vivenciar os mistérios da vida.
Autora dos contos MATCH DE AREIA, publicado na coletânea Toda forma de amor, ASA RASGADA, publicado na antologia Enquanto houver sol e MALA VAZIA, publicado na antologia TRAVESSIA, Letícia Almeida estreia com seu primeiro romance.
"Mulheres de água doce" é um romance com raízes indígenas ambientado em Alter do Chão, no Pará, que conta a história de cinco mulheres unidas pelo fio invisível da existência e conectadas pelo rio Tapajós. Uma história de força, superação, preconceito e cura através das gerações.