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Minha Natureza

Minha Natureza

por Guilherme Henrique Favaro

Minha Natureza

Uma pálida lua cheia pairava sobre o céu. A grama alta se movia em um único movimento ondular junto com a brisa. Eu sou pequeno, muito pequeno, mas vejo um clarão distante, um poço de luz? O próprio nascer do sol? Não, o sol é mais alaranjado.

Mirei na folha de grama mais próxima e pulei, mas a brisa me empurrou para o outro lado. Acabei caindo em cima de outra folha. Forcei mais um pulo. Mesmo resultado. Dessa vez, encontrei-me com o chão de terra.

Sempre chamo a atenção dos ouvidos. Muitos animais têm medo da noite, mas essa é a melhor hora; é quando eu posso ver a lua no céu. Ela é o meu sol, o meu pequeno momento de segurança em um mundo cruel; alguns pegam dos meus e colocam em potes transparentes. 

Acho deselegante.

Sinto uma vibração no solo, caí perto de uma toca. Vejo algo se mexendo ao meu lado, encarando-me com olhos tão grandes quanto o meu próprio corpo. Ele começou a correr na minha direção. Deixarei conclusões filosóficas para depois.

Agora, é hora de fugir.

Ele corria; sua pelagem cinza é tão assustadora quanto os seus olhos negros. Parei de cricrilar e tentei me esconder. Fiquei lá, quieto. Vi seus dentes roendo a grama, dois em cima e dois em baixo, amarelados e compridos.

Ele me achou.

Pulei mais alto, e a brisa me jogou para frente. Acabei caindo numa grama mais alta. Segurei o mais forte possível, mas a folha começou a diminuir; ele estava logo abaixo, mastigando. Vi algo pairando pelos céus. Era branco, não mexia os olhos e tinha um grito apavorante.

Comecei a cricrilar. Ele desceu num rasante e pegou o animal. Ouvi outro som e me virei; o poço de luz estava logo atrás de mim. Não parecia o sol, parecia uma? toca? 

Uma coisa saiu de lá.

Era alto, muito alto. Parecia aqueles animais escaladores de árvores e comedores de frutas, mas ele quase não tinha pelos no corpo, só na cabeça; ele andava em duas patas e o seu corpo estava coberto por? alguma coisa.

Ele parece diferente dos outros, de nós. Não parece preocupado com predadores, mas aparenta estar cansado. Deve ser um dos animais diurnos? mas ele não parece se preocupar em caçar ou tentar achar água.

Ele só existe.

Eu continuei cricrilando. Ele olhou pelo mato e pela grama; parecia estar procurando alguma coisa. O animal segurava um tronco com duas aberturas circulares, mas esse tronco era estranho; ele parecia cinza, quase preto.

Ele se virou e entrou na sua toca.

Continuei vendo por uma abertura. O animal segurou uma coisa na sua pata direita? Ele ficou menor e em outra posição, com a cabeça baixa. Estava sentado. Deve ser sua posição de dormir.

Mas voltou rápido.

Ele colocou o tronco na sua boca e puxou algo.

Um estouro.

O animal caiu no chão. Eu me aproximei até chegar à entrada da sua toca. Ele estava sem se mexer. Perto dele, um papel reclamando de um grilo; um grilo não o deixava dormir há dias.

Eu entendo, animal. Existem diversos predadores. Eles não me deixam dormir também. Alguns vêm pelo chão, outros pelo ar? todos sempre querendo a mesma coisa: não me deixar dormir.

E eu entendo você ficar parado depois de um estouro tão alto. Isso assustaria qualquer um.

Mas uma coisa me deixa seguro: a luz da lua. Ela me deixa ver os meus predadores.

Eu sei, eu não sou seu predador, isso seria ridículo, mas eu estou sentindo algo diferente. Não é fome, não é medo, mas vem de dentro, vem das entranhas. Tentei cricrilar, mas o som saiu errado. Não quero mais ver essa cena, e não sei dizer o porquê.

Um peso sem nome.

Talvez eu também sinta isso, mas não é tão forte para mim. Talvez animais diferentes tenham problemas diferentes. Problemas além de comer, beber e se reproduzir.

Se eu tirei a sua vontade de dormir, sinto muito.

Mas essa é a minha natureza.

Guilherme Henrique Favaro
Guilherme Henrique Favaro
Caxias do Sul/RS

Guilherme Henrique Favaro

Guilherme Henrique Favaro escreve literatura fantástica e contos que transitam entre o estranho, o sobrenatural e o íntimo. Trabalha na reescrita de Os Encantados, seu primeiro romance, uma fantasia sobre uma garota marcada por uma energia que todos temem, com publicação prevista para 2027. Também escreve Entre Vibrações, romance narrado a partir da percepção de uma protagonista surda, contado por vibração, toque e cheiro, nunca por som.

Publica contos aqui na Plataforma, como "Minha Natureza" e "Um Bom Aniversário", e participa de projetos coletivos de poesia. Formado em Redes de Computadores, trabalha com segurança da informação, mas é na ficção que ele busca contribuir com a fantasia brasileira.