por Juliana Stadnik
Ah, meus cinco anos? Se os tivesse, não estaria aqui: deitado, quieto, vencido. Naquele tempo a grama era logo ali, ao alcance dos olhos, e as pernas não sabiam o que era lombeira. Mas não me entenda mal: não estou posando para um filme cult francês — óculos escuros escondendo os olhos vermelhos, barba por fazer e um cigarro esquecido no canto da boca. Sim, eu fumo. Mas, pelo menos, não como açúcar.
Lá em cima, um avião corta o céu e um sentimento estranho de privilégio me pinica. Ninguém daquelas janelinhas consegue me notar aqui embaixo, mas eu os vejo. Longe de casa pela primeira vez, quatro meninas seguem para um campeonato de futebol. Duas freiras de meia-idade — já sabemos que o avião não vai cair — dividem um pacotinho de amendoim de gosto duvidoso, cortesia do cheiro do banheiro logo atrás delas. Sobre as asas, um bebê dorminhoco nem se mexe, para o alívio da mãe ansiosa. Talvez ela tenha
apelado para um remedinho. Uma moça de trinta e poucos matraqueia com o seu companheiro de viagem, um gato, tentando ignorar o sacolejo da última fileira. O bicho está puto; só queria dormir. Mais à frente, um sujeito de terno se atraca ao teclado do notebook — senhor, guarda isso aí que a gente já vai pousar. Se isso fosse um filme de desastre — daqueles de fazer as mãos suarem —, seriam esses os sobreviventes (estrelando: o gato). Mas relaxa, o avião não cai. Esqueceu das freiras?
Esqueci de passar protetor.
De repente, o avião faz um movimento bizarro que nenhuma aeronave na história jamais ousou fazer. Talvez a privação do sono regada a cuba-libre esteja me fazendo ver coisas. Ou pior: eu finalmente fiquei maluco. Pisco três vezes, tentando calibrar a visão. O objeto para no ar, dá uma pirueta e pousa no fio de luz.
Ah, cara? Puta merda. Era só um passarinho.