por Mileny Brondani
Monólogo Mãe Natureza
Eu estou aqui desde o início de tudo, antes deles, até. Eu soprava, corria, ardia, flutuava. Era meu próprio lar. Quando chegaram, logo me descobriram, claro! Fui a primeira a dar boas vindas. Os acolhi na sombra, os abriguei em cavernas e sob árvores, os alimentei, hidratei, aqueci, resfriei. Fui gentil, como sempre.
Com o passar do tempo, evolui e me tornei maior, mais brilhante, mais feroz. Por vezes diminui, mas minha beleza ainda estava lá, imponente. Mas eles, ah, eles já não temiam a mim. Me conheciam. Bem, o tanto quanto eu permitisse. Os deixei correr por desertos e mergulhar no mais profundo de minhas águas. Eu cedi tudo de mim para que eles se sentissem satisfeitos.
Então, eles cresceram. Cresceram como nunca antes. Até os céus, em força, em espírito, em ganância. Eu, que sempre ajudei, já não servia mais. Agora sou arrancada, queimada, esmagada, entupida. Eu choro, eu grito, eu aviso. Eles chamam minha dor de desastre. Desastre é saber que eles não percebem que trilham sua própria ruína na minha dor
Oh, foi um desastre!
E foi mesmo.
Foi um desastre me perder de mim mesma, quando apenas tentei ajudar. Foi um desastre que eles tenham se perdido dentro de si, e agora não saibam voltar.
A coisa mais triste, é que eles não percebem que eu sou auto suficiente. Nunca precisei deles para sobreviver, eu faço minha sobrevivência. Tudo em mim funciona em harmonia, tudo coopera, mesmo quando se agita. E assim eu sigo. Até agora, sendo destruída, desmatada, ferida, mas eu sei que vou voltar. Eu tenho algo que eles não têm: tempo. E o meu tempo é paciente, afinal, para quê ter pressa?!
Um dia eles irão entender - pelo menos assim eu espero - que eu sobrevivi de tudo que há, eu sou tudo que eles vêem, mas eles precisam de mim. Precisam dos meus rios, dos meus mares, das minhas matas. Precisam do meu ar e dos meus frutos. Precisam da minha terra e até dos meus céus. Precisam de tudo em mim, tudo o que eles se esforçam tanto para destruir.
Eu fui gentil demais. Ou talvez de menos? Eu fui gentil realmente? Sim.
Não tenho dúvidas de minhas intenções. Eles chegaram até onde estão porque eu ajudei. Ajudei com tudo que tenho. Tinha.
Mas eu sei me refazer. Eu vou nascer de novo. Crescer de novo. Fluir de novo. Brilhar de novo. Vou me restaurar e assobiar alto quando correr meus ventos por aí. Quando restarem apenas os resquícios de sua espécie, os restos deixados voltarão para mim, pois de mim saíram. Então eu serei completa de novo. Completa com o que sobrar, até ser a hora de me reinventar. Afinal, eu estava aqui antes. Muito antes. Muito mesmo. Já vi coisas que eles nem imaginam. Já vi outras espécies se erguerem para morrer. É triste ver tudo se repetir.
Até que esse tempo chegue, eu vou continuar reagindo. Vou continuar explodindo e ardendo, me erguendo e quebrando em grandes e furiosas ondas, rodando e tremendo tudo, vou continuar, mesmo que aos poucos, mesmo que devagar. É assim que eu choro. E não sei fazer diferente.
19 de setembro de 2019
Mileny é leitora de carteirinha desde que se conhece por gente e compartilha suas opiniões sobre suas leituras em suas redes sociais. Se graduou em Escrita Criativa pela PUCRS e hoje é aluna na pós-graduação de Comunicação Digital e Redes Sociais da UniRitter. Atualmente, atua como Assessora na Diretoria de Educação Continuada da PUCRS, cursa a Formação de Revisores da Editora Metamorfose e edita roteiros longos de RPG. Academicamente, pesquisa sobre os vilões-heróis e anti-heróis da literatura de fantasia contemporânea enquanto transita para a graduação de Letras-Inglês, com foco em Educação Corporativa. Seu portfólio de escrita é recheado com textos sobre horror, amor e os entremeios da condição de ser e estar vivo.