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Mudança na hora do banho

Mudança na hora do banho

por Mario Roberto Mendes da Silva

                 Mudança na hora do banho

 

Cheguei em casa, por volta das dezesseis horas. Nem imaginava, quando abri a porta

da frente, que encontraria o apartamento vazio. -

- Ana Julia - chamei pela minha esposa, jogando a pasta e o paletó no sofá.

Franzi a testa, passei pelo quarto, voltei para a sala e na cozinha, abri a geladeira, peguei um

 pedaço de bolo e me sentei à mesa.  Entre uma garfada e outra, pensei alto: ¨ deve ter ido ao mercado ou foi passar a tarde na mãe¨.

Quase no final do banho, a porta do banheiro foi aberta, Ana Júlia entrou no

banheiro afobada e já foi logo dizendo.

– Desculpe atrapalhar seu banho, mas estou com o pessoal da mudança na sala, vamos

começar a carregar, minha mãe e a Priscila vieram ajudar também, depois falamos

melhor.

- Ora, que é isso?  Mudança?

Peguei a toalha às pressas. Ainda com sabão pelo corpo, fui direto para a sala.

Três homens, minha sogra, minha cunhada e Ana Julia reuniam a nossa mobília para

fazer a mudança. Atônito, perguntei:

- O que está acontecendo aqui, Ana Julia?

Bem, não é preciso dizer que todos ficaram desconcertados com a situação. Ana Julia

não me avisou que iria embora assim, sem conversarmos direito sobre a separação. Já

fazia algum tempo que não nos dávamos bem, mas assim, sem avisar, e ainda por cima,

levando tudo embora? Golpe baixo.

Nesse momento, ela me pegou pelo braço e fomos para o nosso quarto. Ela

fechou a porta e disse:

- Eu ia te avisar, mas não deu tempo, minha mãe disse que não poderia faltar mais de

um dia no trabalho para me ajudar. Vou para a casa dela.

Ela saiu do quarto. Na sala, a mudança praticamente já estava sendo carregada para o

caminhão. Então, antes de sair do apartamento, na porta da frente, virou-se devagar e,

olhando bem nos meus olhos, decretou:

- Dei várias chances para você, agora chega, entro com o divórcio na semana que vem. Com os olhos vermelhos, e a voz embargada, respondi:

- Por favor Ana Júlia, me dá mais uma chance, estou sem trabalho e não vou ter como arcar com o fim do contrato de aluguel do apartamento.

-Sinto muito, não tem mais volta. Decretou.

Passado muito tempo, na época da audiência no tribunal, encontrei-me novamente com Ana Júlia, agora na frente do juiz para formularmos a separação. Depois de assinados os papéis, na saída do fórum, ela se aproximou para conversar, sabe como é, falar do fim da relação, essas coisas, então foi a minha vez de falar:

-Olha Ana Júlia, eu agora tenho que cuidar só de mim, de qualquer forma, ainda sou jovem o suficiente para retomar minha vida e seguir em frente.

Virei-me para o advogado que me acompanhava e perguntei:

-Estou liberado doutor?

-Sim Dante, tudo certo agora.

-Ok doutor Ewerton, muito obrigado pela ajuda.

Fui me afastando de perto dela e dos advogados, Ana Júlia ainda tentou me segurar pelo braço, sem fazer muita força me desvencilhei e saí andando pela rua, nem olhei para trás e nunca mais a vi.

Dei início a minha longa jornada de reconstrução.

Mario Roberto Mendes da Silva

Sou Mário Roberto Mendes da Silva, professor de História em Cerquilho, SP, onde moro atualmente. Me aposentei recentemente e descobri que posso abraçar outra atividade intelectual como a literatura. Conclui a Oficina de Escrita Criativa para Iniciantes sou aluno do Curso de Formação de Escritores.