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Não esperava isso de você

Não esperava isso de você

por Frederico Braga

Não esperava isso de você

Não esperava isso de você

O fim do domingo se aproximava. Era início de outono e aquele havia sido um dia acinzentado. As folhas secas se acumulavam aqui e ali, varridas por uma brisa suave rua abaixo. Nem frio nem quente, o dia terminava de forma agradável, muito diferente das semanas anteriores.

Sentado no banco da sacada, vi uma mulher e um menino caminhando vagarosamente. Ela gesticulava na direção dele, que fitava o chão a passos curtos. À medida que se aproximavam, percebi que se tratava de uma reprimenda. Cabisbaixo e choroso, esfregava os olhos vez ou outra com os nós dos dedos. Procurando entender, acompanhei a cena e percebi, quando passaram à minha frente, o quanto ela estava decepcionada. "Eu não esperava isso de você", sentenciou.

De súbito, senti o ar se esvair e voltei à época dos meus oito ou nove anos. A angústia em meu peito foi tão intensa e tão rápida quanto um piscar de olhos, e parte da minha história voltou à tona de maneira vívida e clara.

Era por volta de cinco e meia quando costumava chegar da escola. Assim que o sinal tocava, saía correndo com minha mochila nas costas e em menos de dez minutos, estava em casa. Antes de lavar as mãos ou tirar o uniforme, ligava a TV para assistir desenhos. Apesar de ser em preto e branco, isso não me atrapalhava em nada.

Naquele dia, o canal estava fora do ar desde cedo. O temporal de duas noites atrás havia danificado as torres de transmissão no alto do morro e não tinham sido restabelecidas por completo.   

Sem ter o que fazer, fui brincar em frente de casa. Diferente dos outros meninos, não gostava de jogar futebol nem de outras brincadeiras. Naquela época, já sabia que nunca seria da turma dos esportistas.

Um menino que morava duas casas antes da minha e passava por ali a caminho do campinho me convidou para jogar.

— Marcos, tá faltando gente pra jogar bola. Quer ir?

— Não, não gosto — respondi.

— Vai e fica no gol. Não precisa correr. Se a bola vier, você defende — finalizou ele.

Depois de mais algumas negativas minhas e insistência da parte dele, acabei concordando.

Nem todos os meninos eram da nossa idade. Alguns, um pouco mais velhos. Outros, já praticamente adultos. Depois de quase uma hora, começou a escurecer. Como já não enxergávamos bem, o jogo foi encerrado.

Eu voltava sozinho por um imenso terreno baldio, que se estendia de uma quadra a outra. Era uma área abandonada pelos antigos proprietários. Por conta de dívidas e sem alguém para cuidar, o mato crescia por todos os lados, exceto por um trecho, formando um caminho que levava quase em frente à minha casa.

 Enquanto avançava, ouvi uma voz me chamar. Parei, olhei para trás e vi um daqueles com quem tinha jogado. Era um adolescente, quase adulto. Mas não sabia seu nome. Ele me perguntou para onde estava indo.

— Para casa.

— Venha por aqui — disse, indicando a direção contrária.

Balançando a cabeça, recusei e voltei ao meu caminho.

Poucos passos depois, fui puxado e um braço agarrou com força minha barriga, me erguendo um pouco acima do chão. Quando quis protestar, uma mão cobriu minha boca.

— Fica quieto, senão te mato!

Olhei para cima e vi algo de ruim dentro dos olhos daquele que cobrou o pênalti que eu defendera meia hora antes.

Cobrindo minha boca e apertando meu braço, fui arrastado para o lugar em que ele apontou antes. Andamos por alguns metros, mato adentro. Perto de uma árvore de galhos secos, ele disse:

—  Aqui já tá bom.

E me empurrando contra o tronco da árvore, com um gesto rápido, abaixou minha bermuda e cueca. Mesmo com pouca idade, sabia a diferença entre o certo e o errado. Não pude acreditar que aquilo ia acontecer comigo. Senti o ar saindo de meus pulmões e um zumbido estridente tomou conta de meus ouvidos. Por um momento, esqueci as palavras e de como gritar. Uma coisa quente roçou em minhas pernas e tudo se tornou escuridão. Desmaiei.

O que se seguiu depois, até hoje não sei. Quando fui encontrado, sozinho, passava das nove horas. Minha mãe tinha chegado do trabalho há pouco e soubera, por minha avó e minha prima, sobre meu sumiço pouco depois de chegar da escola.

Sem conseguir explicar, fui direto tomar banho. O zumbido em meus ouvidos ainda não havia cessado por completo e embora comandasse meus gestos, não sabia o que fazia.

Apesar da fome, quase não consegui comer. Coloquei meu prato na pia. Recebi um abraço de minha avó.

— Vá conversar com sua mãe. Ela quer falar com você.

No quarto, minha mãe estava sentada na cama. De costas para a porta, não me viu entrar. Quando percebeu minha presença, se virou e mal olhando em minha direção, com os olhos vertendo lágrimas, voz fraca, rouca, disse:

— O que você foi fazer?

Não compreendi exatamente a que ela se referia. Pensando ser sobre o futebol, disse que não queria ir, mas acabei indo.

— Você me decepcionou. Eu não esperava isso de você, disse entre lágrimas e soluços.

Naquele exato instante, entendi. Ela me culpava pelo que aconteceu comigo. Não consegui responder nada naquele dia nem nunca mais. Ela se virou novamente e continuou chorando baixinho, envergonhada.

Fui para minha cama, coloquei meu pijama, apaguei a luz e me deitei. Demorei muito para dormir. Por que ela me culpava? Aquilo me atormentaria por muitas noites.

Nos dias seguintes, a notícia se espalhou. Os outros meninos da rua riam de mim e me endereçavam palavras pejorativas. Quando passava na frente de suas casas, risadinhas abafadas eram ouvidas.

Já em minha casa, o horário de dormir causava um aperto no peito. A dificuldade em silenciar meus pensamentos me fazia acender as luzes. Nas preces de fim de noite, ao invés de saúde e proteção, os pedidos eram para dormir bem e logo. Outros tantos anos foram necessários para entender completamente tudo que se passou comigo.

Absorto em memórias doloridas, sou trazido à tona por uma bola de pelos que lambe os dedos do meu pé enquanto abana o rabo alegre e incessantemente.

— Marcos! Marcos, vamos passear com os cachorros? – pergunta minha esposa.

— Vamos! Com todos eles.   

 

 

 

O autor agradece à Maria Teresa Stefani pela revisão cuidadosa deste texto.

Frederico Braga

Frederico é escritor, leitor e advogado. Nem sempre nessa ordem. Começou a ler ainda muito pequeno, gibis da Turma da Mônica e Disney. O hábito da leitura sempre fez parte da sua vida e até hoje, não importa onde esteja, sempre que está à mesa, gosta de ler os rótulos daquilo que está consumindo. Acredita que todo livro é uma viagem e que toda viagem, se bem contada, vira literatura. Por isso criou o projeto chamado "Quem lê, viaja!", um espaço em que se lê para entender o mundo, não apenas cumprir meta. Nele você encontra crônicas, contos, análises literárias e conversas honestas sobre escrita. Sem academicismo. Sem ranking. Sem leitura de perfomace. Apenas a experiência de quem lê. E escreve. E, é claro, as viagens não precisam ser literais. Podem ser na maionese mesmo.