por Ana Cristina Sampaio Alves
Cheguei em casa esbaforida, busquei a chave da porta em todos os bolsos antes de lembrar que a escondera dentro do sutiã. Tropecei no capacho da entrada e me joguei no sofá. Senti um desconforto na cintura da calça e tirei a arma, pousando-a na mesa de centro ao lado. Fechei os olhos e fiquei ali deitada respirando fundo. Foi o que bastou para as imagens começarem a surgir.
— Sua louca! Pensa que eu não te conheço? Dissimulada, sem-vergonha, vadia!
O rosto vermelho, os olhos desvairados. Ele chora?
— Dei tudo pra você, sua ingrata! É assim que me paga? Você não presta.
Um homem passou por nós. Baixei a cabeça, esperando que não percebesse o espetáculo. Segui-o com os olhos, permaneci muda. Melhor assim. Então ele disse:
— Eu te mato!
Foi a última frase que ouvi. Atirei duas vezes.
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Ficou ali, ao lado do corpo ensanguentado, sem saber por quanto tempo. Quantas perspectivas podem existir dentro de um olhar para si mesmo? Por mais que alguém se olhe no espelho, e há os que se demoram nele a vida toda, não existe paralelo em ver seu próprio corpo estendido na calçada. O que se sente nessa hora? Ninguém havia lhe contado sobre essa experiência, então demorou-se a observar os detalhes. Tão absorto estava que não percebeu o homem que se posicionou ao seu lado.
— Você deixou ela atirar em você?
Virou-se para o sujeito que quebrava repentinamente aquele momento solene e perguntou-se de que mundo viria: dos vivos ou dos mortos? Melhor não saber.
— Como eu ia adivinhar que ela tinha uma arma?
— São coisas que um homem tem que prever antes de começar a falar umas boas verdades, não acha?
Ele permaneceu em silêncio. Não conseguia entender. Como imaginar que ela estaria armada? O homem continuou:
— Tá vendo? É isso que acontece hoje em dia. Mulher perdeu o respeito. Essas feministas ficam colocando coisa na cabeça delas... Hoje elas acham que podem tudo. Depois dizem que a culpa é nossa.
Permaneceu absorto. A conversa que antecedeu os disparos foi surgindo aos poucos enquanto o sujeito falava. Lembrou-se de como ela ficara calada o tempo todo. Agora parecia evidente que aquele silêncio escondia algo. Atrás dela, um homem passou por eles apressado. Teria escutado o que dizia? Poderia ser uma testemunha para seu caso? Talvez não, pois a memória lhe trazia a virada de cabeça dela para observá-lo seguir ao longe. Naquele instante, convenceu-se de que ela cuidara dos mínimos detalhes.
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Ele chegou em casa tarde da noite. Estava exausto após dois plantões seguidos. A mulher se levantou para lhe servir a janta, como sempre fazia. Esquentou o prato no micro-ondas e sentou-se à mesa para um dedo de prosa. Enquanto ele comia em silêncio, ela perguntou como fora o seu dia.
— Cansativo. Hospital lotado. Um monte de enfermeiro faltou.
— Deviam contratar mais gente, né?
— Vai falar lá com os homi. — Sorriu para ela deixando cair os talheres dentro do prato vazio. — Tava muito bom esse franguinho. Agora vem deitar que tô morto.
Aninharam-se na cama pequena. Ele esticou o braço para ela colocar a cabeça e chegar mais perto do seu corpo. Ela beijou-lhe a bochecha e fez um carinho em seus cabelos.
— Dorme ainda não, tô com saudade. Bora conversar.
— Eita mulher danada. Gosta de uma história...
— Então, lembra que eu tinha te pedido pra passar na padaria? Você esqueceu.
— É mesmo, esqueci. Mas acho que já tava fechada, sabe que nem reparei?
— Queria aquele sonho que eles fazem.
— Amanhã eu passo. Hoje aconteceu uma coisa... Sabe, vou falar lá pra chefia que não posso fazer dois plantões mais não, a rua tá muito perigosa. Hoje acho que até ouvi tiro.
— Jura? Deus me livre! E você viu alguma coisa?
— Olha, não sei se vi direito, tava escuro, mas passei por um casal que discutia alto. Discutia não, o homem que gritava, sabe. A mulher não abria a boca. Foi rapidinho, fiz que nem vi pra não sobrar pra mim.
— Mas e o tiro?
— Então, depois que eu passei, já quase na esquina, eu ouvi os pipocos. Me virei mas não vi muita coisa, só ela correndo. Devia tá morta de medo. Tava muito escuro ali.
— E o homem?
— Não deu pra ver. Eu nem fiquei olhando.
— Deus queira que ninguém tenha morrido. Sabe, tenho medo de gente que discute na rua. Vem cá meu bem, tô com muita saudade.
Ana Cristina Sampaio Alves escreve desde a infância. Ainda criança, já se considerava uma novelista, mesmo que as histórias fossem um misto de contos de fadas com personagens reais. Escolheu o jornalismo como profissão, o qual a permitiu transitar por todo tipo de texto, desde os mais técnicos até os mais criativos, em diversos segmentos de mídias. Continua explorando a escrita e agora se aventura na literária, tendo publicado alguns contos e dezenas de crônicas. Esse é o gênero em que melhor transita.
Embora não tenha ainda publicado narrativas longas, já participou da edição de coletâneas de contos. Segue buscando aprimorar o texto que emociona e traz reflexão. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.