por Waldyr Rebollo
Crônica memorialística
Reflexão
Pequena homenagem a meu pai
Naquele Natal de 1961, a noite estava úmida para o mês de dezembro. Minha mãe embalava os presentes, tentando organizar a bagunça que se instalara na sala da casa do cortiço onde morávamos: eu, meu irmão, minha mãe, meu pai e minha avó, já com idade bastante avançada.
Meu pai, sentado nos degraus da entrada da casa, tomava vinho barato e fumava um cigarro ordinário, meditando sobre o ano difícil que estava acabando. O silêncio era a única companhia de todos nós. O cheiro de mofo se confundia com o aroma que vinha da cozinha sem teto: uma mistura de frango a vinagrete com maionese.
Meu pai carregava a esperança de abandonar o trabalho de operário cortador de couro de sapatos numa pequena fábrica de uma rua do Brás. Ele havia ganhado no jogo do bicho — uma milhar na cabeça, jacaré — o que lhe deu a oportunidade de acreditar numa vida melhor para toda a família. Com isso, conseguira comprar um caminhão Chevrolet, velho para a época, mas suficiente para ingressar no ramo promissor de sucatas.
O relógio marcava 23h55. Minha avó, a coisa mais sublime que Deus inventou, começou a chamar todos para a comemoração, mostrando um relógio comprado no Mappin, em prestações. Faltavam apenas alguns minutos para a meia-noite, e precisávamos brindar com Guaraná Antarctica. Copos na mão de todos: 10? 9? 8? 7? 6? 5? 4?
De repente, ouvimos um grito vindo da entrada do quintal, onde havia vinte casas. A nossa era a antepenúltima, número 18.
— Rebollo! Rebollo! — nome de meu pai.
— Corre, corre, seu caminhão está pegando fogo!
Da nossa casa até a rua, precisávamos passar por todas as outras casas até chegar à Rua Caetano Pinto, onde o caminhão estava estacionado, ardendo em chamas. Todos nós ficamos desesperados. Eu, minha mãe e meu irmão chorávamos copiosamente. Minha avó não teve coragem de sair de casa. Eu fiquei perto do meu pai, não o largava do meu campo de visão. Olhava para ele o tempo todo, talvez para ver sua reação.
Ele era meu porto seguro, apesar de não aliviar nas surras quando eu aprontava daquelas. No meio do tumulto, do caos instalado, com todos chorando e os verdadeiros amigos preocupados com a situação, meu pai, com um leve sorriso no rosto, falou baixinho para minha mãe:
— Não tem problema nenhum. Daqui a pouco compro outro e viro sucateiro. Só vai demorar mais um pouquinho.
Até hoje lembro daquele dia e carrego comigo a maior lição que meu pai deixou: a lição da fé, da coragem, da garra, da esperança, da confiança e da força. Vi tudo isso naquele homem bruto, tosco até, mas com um coração maior que a Rua Caetano Pinto.
Waldyr Rebollo
Waldyr Mateo Rebollo tem formação em Administração de Empresas, especialização em Marketing, estudos em Sociologia pela Universidade São Marcos e em Comunicação pela Universidade de Nova York. Dedica-se ao estudo do I Ching e é estudioso de Taoísmo, Budismo e Teosofia.
Amante de Realismo Mágico, tem um livro em gestação.