por Carol Canabarro
Ela olha para suas mãos apoiadas no teclado e titubeia. Os dedos esqueceram a agilidade dos tempos da máquina de escrever e recuam, indicando que o "bonde" da escrita pode não existir mais para você.
No quarto ao lado, sua neta de pele vertendo colágeno e dedos hábeis também recua diante do notebook. Num mundo em que todos falam com tanta propriedade sobre qualquer assunto, o que ela teria a dizer? Se a menina soubesse o que é um bonde, o imaginaria lotado.
Avó e neta desistem da escrita. Elas acreditam que os motivos são diferentes, mas o que acomete as duas tem o mesmo nome: Ansiedade Geracional.
Essa moderna forma de pressão, alimentada pela constante comparação nas redes sociais e pela crença de que existe um calendário secreto do sucesso, transforma a criação artística numa corrida contra o tempo em que você parece estar sempre no contrafluxo.
Nesse ponto é importante lembrar que escrever é menos sobre idade e mais sobre maturidade. Na literatura, data de nascimento tem pouco ou nada a ver com isso. O que importa é a capacidade de se dedicar a projetar sua voz. Ou seja, mesmo que não existam mais bondes ou que outros já tenham discorrido sobre o tema, sua escrita pode, sim, ser necessária.
Quem começa a escrever aos 50, 60, 70 anos traz décadas de observação do mundo: dores filtradas, alegrias digeridas, uma compreensão do ser humano que não se aprende em curso de escrita criativa.
A própria literatura nacional está cheia de exemplos que desmontam o mito da precocidade:
- Cora Coralina (foto) publicou seu primeiro livro aos 75 anos, depois de décadas trabalhando como doceira. A vida não "atrapalhou" sua arte, ela a cristalizou.
- Manoel de Barros viveu quase anônimo no Pantanal até os 70, quando o reconhecimento o encontrou. Sua obra prova que o tempo de "envergar a linguagem" não deve ser apressado.
- Zélia Gattai começou a escrever memórias aos 63, para só então se tornar uma das autoras mais lidas do país.
Esses nomes não são exceções que "compensam o atraso". Eles são a prova de que a literatura não tem pressa.
Se o escritor mais velho teme ter "perdido o tempo", o jovem escritor frequentemente teme não ter vivido o suficiente. Ele olha para os grandes autores e se pergunta: "O que eu tenho a dizer com 20 anos? Minhas dores são profundas o bastante? Minhas experiências têm peso?"
Essa é outra face da mesma ansiedade: achar que a voz própria precisa vir com lastro de vivências e que juventude é sinônimo de superficialidade.
Outro equívoco.
O escritor jovem traz urgência, estranhamento fresco diante da vida e uma coragem de rasgar regras que também é valiosa. Mary Shelley escreveu Frankenstein aos 18. Não porque tivesse vivido muito, mas porque tinha uma pergunta poderosa para fazer ao mundo.
Por aqui, aos 19 anos, Raquel de Queiroz publicou "O Quinze", chacoalhando as estruturas do meio literário brasileiro que desacreditava na capacidade de uma mulher jovem de escrever de maneira profunda e desenvolta sobre questões sociais e sobre a psicologia das personagens. Mesmo subestimada, ela não parou. Tornou-se a primeira mulher na Academia Brasileira de Letras e colecionou prêmios até o final da vida.
Mesmo questionadas, a história dessas duas escritoras demonstra que a vontade de escrever era maior do que o medo de não serem reconhecidas. Uma consciência plena de que a literatura já morava nelas, independentemente da idade em que foram publicadas.
O ponto, afinal, não é a idade em que você decide escrever. É a verdade que carrega na escrita. Verdade que pode ser encontrada aos 17, 27, 57 ou 77 anos.
Voz única não surge quando você começa.
Ela surge quando você persiste e, mais do que isso, quando você para de se perguntar se é o momento certo.
A escrita não olha para o seu RG. Ela olha para a data em que você resolveu subir no "bonde literário".
Adélia Prado, outro exemplo de escritora brasileira que subverteu o "calendário secreto do sucesso", diz num poema delicado e profundo:
"Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera."
É isso: tudo que parece parado pode estar apenas adubando. Tudo que parece tardio pode estar apenas esperando o instante exato de florescer.
Se você está começando agora, com 16 ou com 60, não está nem "adiantado" nem "atrasado".
Você está no seu tempo. E o tempo, para escrever, sempre foi agora, sendo neta ou avó.
Seu manuscrito não tem idade, sua história não perdeu a validade e suas mãos, enrugadas ou não, estão prontas. Acreditar nisso é a primeira etapa a ser vencida para ter o tão sonhado livro com seu nome na lombada.
Carol Canabarro, apaixonada por literatura e animais. Foi atleta, garçonete, especuladora financeira, professora. Morreu duas vezes, ressuscitou em ambas. Hoje é escritora, egressa do Curso de Formação de Escritores da Metamorfose, autora da narrativa longa "Mirando o gol, acertando as estrelas", colunista no próprio site, aluna na pós-graduação em Literatura, Arte e Filosofia da PUC-RS e serva de quatro gatos.