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Ninho de Papel

Ninho de Papel

por Carlos Darzé

Ninho de Papel

Dona Sada virou e revirou o envelope amarelo três vezes, cada vez mirando de soslaio seu marido e acrescentando um tique à expressão em seu rosto. Carta, franzir das têmporas, Sr. Pires, carta, sobrancelha alta, Sr. Pires, lábio amassado no canto direito:

– Mais dois dias desse envelope aqui sem abrir e ele faz mesversário! Devo assar um bolo, Pires? – inquiriu Dona Sada, com sua voz esganiçada de ironia. 

– Tem seu nome no envelope, Sada? Não, né! – rebateu o marido. – Então não se meta, mulher. Vá cuidar de seus sequilhos que já devem tá pretinhos uma hora dessas. – Sr. Pires sacou o envelope de sua mão. Dona Sada, se dando conta que tinha esquecido a fornada de trezentos sequilhos, chispou para a cozinha feito raio. 

Com a mão na tampa do forno, lembrou que estava sem luva térmica. Tirou uma de gatinho da gaveta, voltou e equilibrou a assadeira fumaçando para o balcão da cozinha. Não adiantou a correria. Os biscoitinhos já estavam na cor de caramelo. "Merda! Deus me perdoe, vou ter que refazer tudo." 

Dona Sada tinha passado a manhã enrolando seus melhores sequilhos para a festa do prefeito de Barra da Estiva. Fosse para outro freguês, talvez corresse o risco de enviar algo mediano; mas, para o prefeito e a primeira dama, um deslize só e pronto: "meu nome está na praça".

Ela era conhecida por seus sequilhos de coco com goiaba, e sempre usava o tempo de forno para fazer as tarefas de casa atrasadas, tirar as roupas do varal que já esturricavam ao sol, terminar a bainha da calça de uma de suas três filhas, apanhar o lixo da varanda que havia varrido mais cedo. Sempre voltava no tempo certo dos biscoitinhos. Nos afazeres domésticos, seu corpo era militar, tudo metódico e coordenado. Nesse dia, não: queimou.

 Dona Sada voltou borbulhando ao encontro do Sr. Pires em sua oficina, onde ele terminava uma de suas gaiolas de canário, já fazendo dele o réu do estrago.

– Tá vendo como você me atrapalha, Pires? Abre logo essa carta, até Geraldo já perguntou. Resolve logo isso. Eu sei que é do banco.

Banco. 

"Tem que partir pra cima, Lauro." A voz de Geraldo ainda lhe martelava a cabeça, como se o irmão mais velho tivesse encostado na porta da oficina. 

– Que mania de deixar tudo pra depois. Cadê a carta, Pires? 

– Já falei que tô resolvendo, Sada.

– Vai deixar o que pra depois, pai? – Julietinha passava animada pelo corredor. Ela amava assistir seu pai trabalhar na oficina. 

– Oh, minha filha, nada não. Sua mãe tá me aporrinhando como sempre. Só preciso de mais um tempinho pra terminar essa aqui. Olha que beleza: três andares de gaiola, talas firmes de bambu seco, área de banho e tudo – disse o Sr. Pires, ligando o triturador de papel da oficina. O barulho engoliu o resto da fala de Sada.  

– Que homem? – Sada deu meia-volta. Não podia com Julietinha e o pai juntos, a fã e seu ídolo. 

– Parece um hotelzinho de canários, pai. Que lindo.

Hotelzinho.

Geraldo chamava tudo aquilo de brinquedo. Perda de tempo. A voz de Geraldo voltou rente ao ouvido:  

– Um homem com seu sobrenome, formado em Direito, vivendo desse jeito? E Sada vendendo quitutes pra prefeito? 

– Foi só uma encomenda da primeira dama. E já disse que é temporário, é o tempo de arrumar o dinheiro pra terminar meu galpão de codorna. Minha criação vai decolar, vocês vão ver. 

– Deixe de ser idiota, Lauro. Você fala dessa merda de codorna há anos e isso nunca deu em nada – disse Geraldo, estourando o entusiasmo do irmão. – Mas pode deixar que eu tô ajeitando algo pra você. Falei com meus contatos de Brasília. Logo você vai receber uma confirmação e vai me agradecer. – Geraldo falava do banco como quem falava de salvação. 

Julietinha já chamava o pai pela terceira vez.

– Pai, e isso aqui serve pra quê?

– Desculpa, meu amor. Feche os olhos e dê cá sua mão, você vai entender. 

O Sr. Pires a fez tatear devagar no fundo da gaiola. Os dois respiravam baixinho quando enfim Julietinha desvendou a charada: 

– Essa é a caminha deles, não é? Que fofinho. Muito aconchegante, pai! 

– Bom que gostou, meu biscoitinho – disse o Sr. Pires, beijando a testa da filha. 

A confirmação havia chegado via Correios há mais de três semanas. O tal envelope amarelo, com selo do Banco Nacional e endereço de Brasília, agora se misturava a serragem e fibra de coco. Triturados, formavam um volume aerado e espesso, ideal para ninhos de canários-da-terra.

Carlos Darzé

Carlos nasceu em Itaberaba, Bahia, em uma família barulhenta, afetuosa e obcecada por comida. Foi em Salvador que iniciou sua relação com a arte. Com formação iniciada nos Estados Unidos e passagem pela Universidade Federal da Bahia, construiu uma trajetória de 20 anos no teatro, atuando como ator, produtor, tradutor, preparador e diretor.

Sua escrita surge da cena: começou criando textos para o teatro e desenvolvendo trabalhos sob encomenda, até expandir sua pesquisa no MPhil em Theatre and Performance no Trinity College Dublin, onde investigou a interculturalidade e memória nas artes performativas.

Hoje, entre Dublin e Salvador, transita pela escrita criativa sem se fixar em um único gênero. Embora ainda pouco publicada, sua produção percorre a poesia, a prosa poética, a dramaturgia e o conto curto ? sempre como campo de experimentação.

Sua linguagem é marcada pela inquietação, pela recusa de formas rígidas e pelo desejo de atravessar gêneros. Interessado por psicanálise e pelas tensões entre culturas, Carlos transforma o cotidiano e os vínculos familiares em matéria de criação, explorando as forças invisíveis que moldam a vida comum.

Acredita na literatura como potência transformadora - uma forma de pensar, deslocar e, sobretudo, reinventar o mundo através da palavra.