por Ana Cristina Sampaio Alves
Se o dia da morte é um dia que vale a pena ser vivido, como diz o título de um livro famoso que ainda não li, quero morrer com a memória intacta. Imagino meu corpo em cima de um leito de hospital. Estou magrinha, quase pele e osso, talvez com uma doença terminal, talvez seja apenas a velhice e meus órgãos estão se desligando sozinhos. Não importa, o corpo já não me serve muito, mas a memória, essa sim, estará a mil por hora.
Então, entre respirações profundas e entrecortadas, olhos fechados ou entreabertos, estarei a recordar. Serão várias décadas de memórias e pretendo revê-las todas. Espero ter tempo suficiente para isso. Quero começar pelos filmes. Aliás, já o tenho feito em vida, visitando streamings de películas das décadas de 70, 80 e 90, anos de ouro na minha formação de cinéfila. Não posso esquecer das músicas marcantes, então vou deixar por escrito o que quero ouvir no quarto do hospital. São tantos músicos e canções na minha trajetória, tantas emoções diferentes ao escutar cada uma delas, tantos artistas que me consolaram e alegraram, que é melhor fazer uma playlist das cem mais e pedir que a toquem para mim antes da passagem.
Não posso esquecer de encher as paredes de fotografias, de modo a recordar os melhores momentos da minha vida. Fotos da juventude (essas sobraram poucas), dos filhos (em todas as fases e momentos), das minhas viagens de bicicleta mundo afora, das outras tantas viagens e descobertas, sem esquecer minhas selfies mais bonitas. Quero ver minha transformação física ao longo da vida e de como cuidei da minha aparência. Vou começar a fazer esse álbum agora para facilitar a produção do mural no meu leito de morte.
Quero também recordar todos os apartamentos em que morei. Como é bom reviver as diferentes fases da vida pelo local que habitamos. No começo, uma quitinete, depois os apartamentos maiores para criar os filhos, até finalmente ir reduzindo o espaço até terminar num quarto de hospital. Quero pensar sobre isso ao final, pois talvez me prepare melhor para a partida definitiva.
Vou convidar também familiares e amigos para me visitarem nos momentos que antecedem à passagem. Os que suportarem e quiserem, claro. Espero sinceramente que não sejam poucos, pois assim partirei certa de que deixei alguma marca em cada um deles. Quero olhar para cada rosto e recordar a emoção que me causou. Talvez haja perdões a pedir e conceder; talvez sejam apenas sorrisos e abraços. Esse momento será tão solene e crucial para a minha travessia que penso em começar a trabalhar esses relacionamentos desde já. Perdões podem e devem ser resolvidos agora. Vamos deixar para o hospital apenas os sorrisos e abraços.
Então, saio dessa reflexão com uma lista de tarefas a executar para que o momento da minha morte seja perfeito. A pior sensação nessa derradeira hora deve ser a nostalgia do que não se viveu, e isso, tenho certeza, não é para mim.
Ana Cristina Sampaio Alves escreve desde a infância. Ainda criança, já se considerava uma novelista, mesmo que as histórias fossem um misto de contos de fadas com personagens reais. Escolheu o jornalismo como profissão, o qual a permitiu transitar por todo tipo de texto, desde os mais técnicos até os mais criativos, em diversos segmentos de mídias. Continua explorando a escrita e agora se aventura na literária, tendo publicado alguns contos e dezenas de crônicas. Esse é o gênero em que melhor transita.
Embora não tenha ainda publicado narrativas longas, já participou da edição de coletâneas de contos. Segue buscando aprimorar o texto que emociona e traz reflexão. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.