por João Domingos Bimbato
Paulo Leminski dizia "inverno/primavera/poeta é/quem se considera". Se o leitor ainda não percebeu, aspiro ao nobre ofício de escritor. Acho que ainda não ouso me considerar como tal, de modo análogo ao que pensava o bigodudo curitibano. Nota a quem nutre esse altaneiro anelo, e a mim mesmo, portanto: a concorrência é certa, sagaz. Pertinaz, esperta.
Afinal, não somos, eu e você, que talvez também pense em ser escritor, os únicos que outras pessoas elogiam por de algum modo saber brandir a palavra. É bem provável que você fosse um dos melhores alunos de português, ou fizesse textões de sucesso no Facebook, lá na época dos maias, lembra? Eu até levava jeito na escola, mas com frequência cometia "erros" de coesão. Imagino que, atarantados, os professores não tinham lá tanto tempo para corrigirem as provas de redação. Por isso, recorriam ao recurso de ver se algum vocábulo se repetia no parágrafo, e pronto: lá estava a rubra "infração" à caneta, que a meu ver de "infrator" era necessária por clareza ou estilo. Menos um ponto. Acontece. Fazer o quê? Por outro lado, não sinto falta da polêmica nas redes sociais, mas alguns – com certeza, amigos – elogiavam minhas pretensiosas linhas.
Três coisas são certas em cafeterias, no Brasil, aqui na África do Sul ou qualquer canto do planeta: cafeína, cheiro bom e aspirantes às letras. Dizem que, pelos elevados preços das assinaturas de jornais, quem se queria pensante no passado frequentava os cafés, que tinham periódicos à disposição. Teriam, por esse motivo, adquirido certa pinta intelectual entre debates, cadeiradas e saraus.
Noto meus colegas ambicionais lado a lado no café, laptops abertos sobre uma bancada, fones maiores que a cabeça, olhares concentrados no computador. Bate aquela comichão: o que escrevem? Quantas páginas já produziram e qual é a meta diária de palavras deles? Imagino-os arquitetando o arco narrativo: exposição, incidente incitante, ação ascendente, clímax, resolução, tudo certinho, mas também arrojado, moderno, pra frentex. Niemeyeres da palavra.
Pela intensidade da mirada à tela, não é qualquer romancezinho ou conto, não. É ficção científica ou literatura fantástica da braba. Devem estar, neste momento, dando à luz o próximo Jabuti ou SALA ("South African Literary Awards"), e eu, aqui, a deambular. É transpiração, amigo. Escreve quem comparece: quando a inspiração chegar, nos encontrará trabalhando, sinalizam nossos Picassos do verbo. É fórmula química, que imprime, no imaginário de quem lê, o inefável das estrelas e das luas dos universos de onde redigem suas passagens os nossos candidatos a imortais.
Enquanto isso, o que faço é encafifar-me na crônica, "gênero menor". Se é que o que escrevo é crônica. Já pensei que fosse ensaio. Certa vez me arrisquei num poema, e um amigo poeta me disse que meu texto "ainda não era poesia". É difícil bater o martelo. Vou na do Eduardo Galeano, que rejeitava rótulos e fronteiras entre as formas de escrever, não porque eu ache bela essa proposta, mas porque não sei demarcar esses limites mesmo.
Professores de escrita advertem: se quer ficar rico como escritor, esquece. Dá para viver do ofício, mas isso requer seus muitos pulos – "o conceito de estratégia...". Mas vai quê. Tendemos sempre a, não sabendo que é impossível, ir lá e descobrir. Como a falta de coesão, porém, também acontece de Ronaldos do logos embolsarem bons tostões. Alguns permanecem Ronaldos. Outros se tornam Neymares. Mas ricos. Se cada falta de coesão minha valesse um real, eu nem aqui estaria. Mentira. Estaria, sim. Contando, lépido e fagueiro, como fiz para ganhar dinheiro com a escrita. "As regras existem para serem quebradas!", dizem por aí.
De todo modo sigo aqui, tocando o arco narrativo de ouvido, incoeso de quando em vez, até mesmo por falta de atenção – quem nunca, não é? Se alguém vier a me ler, ficarei feliz, mas, pela minha saúde mental, penso que vou comprar um pouco mais, devagar e sempre, as palavras do Leminski. Quem disse que você é escritor? Eu, ué.
Por isso, muito obrigado a quem curte aqui meus escritos. A generosa curtição poderá de algum modo ajudar a divulgar estes rabiscos que se querem textos e, quem sabe, me reafirmar na autodesignação de beletrista. Aguardem um livro algum dia!

João Bimbato é diplomata de carreira desde 2010, experiência que atravessa seu olhar ao deslocamento, à identidade e à memória, buscando transmitir à capital íntima de si e de quem lê algum significado desde o território do ser e existir e seus estados - sonhar, pensar, sentir.
Atualmente, vive na África do Sul. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.