por Taíssa da Silva Daniel
Mais uma noite de festa. Uma grande mesa de madeira nobre, forrada com toalha de gala, carrega um buffet muito farto. Flores reais fazem parte de toda decoração, acrescentando beleza natural. Muitos garçons servem inúmeros convidados, todos luxuosamente vestidos, acomodados pelo jardim e pelo salão principal. Para o entretenimento, apenas um único rapaz. Ele faz ajustes no microfone e instrumentos de som.
Thomas é requisitado para as festas da família Dubois já faz um tempo. Pagam muito bem, poderia ser motivo suficiente para alegria completa. Mas todos eventos são muito caóticos. Sorriem, bebem muito, mas, pela visão privilegiada que o músico tem do salão, consegue observar cada movimentação quando as máscaras se desfazem e dão espaço a angústias que o dinheiro não tem como solucionar. Isso o aflige em cada uma dessas festas. Está acontecendo mais uma vez nesta, e ele nem mesmo terminou de passar o som ainda.
O músico dá uma revisada no repertorio pedido: em um geral músicas muito agitadas e barulhentas. Músicas boas, sim, mas que nesse cenário de glamour e sentimentos abafados potencializarão o não pensar, não sentir e só seguir. Como músico, artista, ele não concorda. Não tem dinheiro que pague sua crença de que a arte deve levar o melhor para o público a que ela é destinada. Com isso, sem consultar os organizadores do evento, decide por si próprio adaptar todo o repertório. Isso poderá levá-lo a não ser mais contratado, mas não se importa.
Troca a guitarra pelo violão e começa com um solo suave, passando os olhos por todos da festa, até encarar duas mulheres um pouco alcoolizadas, uma derramou bebida no vestido da outra. Riem, fingem estar tudo bem. Mas a que teve seu vestido afetado desvia seu olhar que parece lançar fogo de tanta raiva. Deve ter custado uma fortuna o vestido.
O músico, então, começa a tocar uma música cuja letra fala de acontecimentos da vida, que uns parecem dar certo, outros não, mas que talvez seja apenas a maneira como encaramos cada um deles. Os convidados em geral reagem com naturalidade à música, mas os organizadores da festa parecem estranhar, ela não faz parte das canções escolhidas. Não intervêm.
Cantando, Thomas continua a observar o público para decidir a próxima melodia. Observa alguns senhores sentados à mesa, beliscando alguns docinhos, muito alheios e irritados, enquanto os outros da família, sentados ao lado, conversam muito. Talvez eles não quisessem nem estar ali, talvez até preferissem estar trabalhando. Para a próxima música, escolhe uma que fale do valor do tempo, tempo que passamos com aqueles que amamos, tempos que não voltam mais. Alguns momentos parecem inofensivos, mas são eles que preenchem o espírito. A letra é em inglês, mas sabe que quase todos dali conseguem compreender.
Vê que alguns já se reúnem na pista de dança para acompanhar. Movem-se seguindo o ritmo. E uma mulher, mais afastada de todos, está nitidamente incomodada por estar dançando sozinha. Então, para a próxima música, decide cantar uma que fale da expectativa de esperar um olhar, algum olhar qualquer, mas perceber que talvez simplesmente a própria pessoa nem se ofereça essa atenção que busque.
Na sequência, observa, lá ao fundo, algumas crianças que estavam brincando juntas, se afastarem. Uma chora. Um brinquedo de caminhão fica jogado no chão, quebrado. Nenhum adulto acode a situação. Lamentando não poder intervir, o músico soma duas músicas para cantar. Uma fala de brigas, de choro, importância de procurar um abraço, um conforto, um carinho. Já a outra fala de filhos: atenção e carinho constantes.
Para escolher a próxima canção, Thomas observa que a jovem, filha da família Dubois, apareceu na comemoração. Ela vem em todas as festas, sempre chega tarde, e seus olhos lhe chamam muito a atenção por estarem sempre tristes. Ele canta uma música que fala de ver sua tristeza silenciosa, e a ela direcionar tudo de bom.
Lá no jardim, um garçom cata a comida que deixou cair no chão, enquanto alguns convidados fazem comentários, nitidamente infelizes a observar suas posturas corporais. A próxima canção vem falar sobre empatia e sobre não sermos melhores do que ninguém.
Assim o som segue por toda festa, que só vem a terminar no final da madrugada. Thomas reúne seus instrumentos em silêncio, nenhum responsável veio conversar com ele, ainda. Pode ser sinal de que não irão chamá-lo nunca mais, por ter bagunçado todo repertório, ele não sabe, mas não se arrepende de nada. Como artista, seu foco foi levar luz, e até esperança, aos presentes.
- Oooiii!!
O músico se vira, muito rápido, em busca de quem o chama. Encontra a jovem, filha da família Dubois.
- Te assustei? Me perdoe! Estava tão concentrado aí, né?
- Não... Está tudo bem! – Ele leva o braço para trás do pescoço, coçando fortemente.
- Gostei muito do repertório dessa noite. Aquela música, "Tristeza Oculta", me tocou muito. Faz tempo que não a ouvia.
- Sério? Nossa, que bom. – Seu braço, volta a descer, de caminho a encontrar o outro de volta. – Fico muito feliz.
- Qual a arroba do senhor para eu começar a seguir?
- Olha, pode ser surpreendente, mas não tenho um.
- Então deveria fazer! Vai divulgar muito o seu trabalho. Quanto a nós, irei conversar com meu pai para ele continuar te chamando, como tem feito.
A jovem move a mão em sinal de despedida e se afasta. É um desafio suavizar a dor do outro, sem invadir espaço pessoal não autorizado. E parece que através das melodias, poderá continuar buscando isso, em novos eventos. Enviando "notas de amor".
Conto presente na coletânea "TODA FORMA DE AMOR".
Carioca, nascida em 1995 e formada na área da saúde. Desde infância tem intensa conexão com as artes. Através da escrita, mas também por meio do desenho e da dança.
Escreve principalmente ficção. Histórias que transmitam conflitos e aprendizagens humanos, por meio de personagens de outras realidades. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.