por Bruna Tessuto
Muito se fala, no mundo da escrita, sobre se inspirar na realidade para escrever ficção. Mas isso é bastante amplo: pode ser uma história inteira da realidade que vira ficção, pode ser uma fala que ouvimos na rua que dispara o início da história, pode ser uma pessoa real que nos instiga a criar um personagem.
Dentro dessa lógica, as notícias também podem ser um ponto de partida. Socorro Acioli (foto), no seu aclamado A cabeça do santo, começou a escrever o livro a partir de um recorte de jornal que tinha em casa. O recorte trazia a notícia de uma cabeça oca e gigantesca de Santo Antônio que, há anos, estava largada no meio da cidade Caridade, no Ceará. E, a partir daí, Socorro criou o personagem fictício que entraria dentro da cabeça – que acreditava ser uma gruta – para se abrigar e começaria a ouvir rezas ressoando na cabeça do santo.
Socorro recorreu aos recortes que tinha para ter uma ideia para escrever. Já a jornalista Patricia Xavier, autora de Só você me escuta no escuro, utilizou notícias para escrever por se sentir angustiada com o "não desfecho" delas. "Como jornalista, eu sempre senti uma certa angústia em não saber como as histórias terminavam, o que faziam as pessoas depois de um acontecimento tão importante que as levou a ser o foco de reportagens. Aparecem por dois minutos na televisão, algumas linhas nos jornais e somem. Acho que também quero, ao colocar essas pessoas como personagens na ficção, dar mais tempo a elas, mostrar quem são, como são impactadas pelo que acontece em suas vidas. Eu tenho uma curiosidade imensa sobre as pessoas, às vezes sinto a dor delas, então escrevo", conta.
Assim, a partir das notícias, Patricia desenvolveu contos que, de modo ficcional, exploram essas vivências, trazendo o que poderia ter acontecido antes da notícia ou depois. "Em alguns contos, a notícia é o final. E a minha escolha foi não revelar qual era o ponto de partida real em cada um deles porque o que interessa pra mim é retratar a indignação que eu senti, expressar um desejo de que muitas situações pudessem ser diferentes. Uma reportagem em jornal, revista, às vezes uma entrevista, pode virar música, filme, série ou roteiro de podcast. O que penso é que tudo pode virar ficção, os recortes de jornais, uma conversa, uma imagem, um momento da vida, um sonho. Isso é o que mais me atrai na literatura, as possibilidades."
- Assim como Socorro Acioli, vale termos um acervo – de recortes ou de prints –com notícias que consideramos instigantes. Na hora do famoso bloqueio criativo, recorrer a esse material pode garantir o ponto de partida para nosso texto ficcional.
- Como questiona Patricia Xavier, o que acontece depois que a notícia sai dos noticiários? Fazer esse tipo de reflexão quando lemos sobre algum acontecimento pode nos ajudar a pensar possibilidades de criação a partir do recorte de realidade.
- Sobre o processo de criação, Patricia comenta que escreve as histórias aos poucos na cabeça e só coloca no papel quando enxerga o final. "Às vezes, fico sem saber pra onde ir, então eu paro e guardo a história em um cantinho da cabeça. De repente, dirigindo ou lavando a louça, todo o resto vem, um único caminho, um enredo pronto, o que tinha que ser."
- Assim como Socorro e Patricia, escolher escrever a partir de notícias que nos impactam, nos incomodam, nos geram curiosidade. O que nos remexe de alguma forma é o combustível que nos movimenta a criar.
Bruna Tessuto formou-se em Teatro pela UFRGS e é graduanda em Letras pela mesma universidade. Atua como editora e promove mentorias em parceria com a Metamorfose, onde também coordena grupos de leitura e escrita e atua como professora no Curso de Formação de Escritores, do qual é egresssa. Lançou os livros "Os bastidores de Emma" (2018), "Pela voz delas" (2022), livro em que ficcionalizou depoimentos de mulheres reais, e "Até que o divórcio vos reúna" (2024), todos com ficcionalização de histórias reais. Desde 2020 interpreta a fantasma Dulce Miranda nas Visitas Guiadas do Theatro São Pedro