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Nunca é tarde para começar: sobre o desafio de se iniciar na escrita depois de idosa

Nunca é tarde para começar: sobre o desafio de se iniciar na escrita depois de idosa

por Janeth de Oliveira Silva Naves

Os manuais e os professores de escrita que me perdoem, mas ouso começar com um clichê. Não encontrei nada mais original para o título de uma história que também é pouco original: o relato de uma pessoa comum que encontra um novo ofício e uma nova paixão depois de idosa, quando acreditava que encerrara a sua missão, concluíra sua trajetória de trabalho e a criação dos filhos; a tão aguardada hora de parar.  

A solidão imposta pela pandemia me fez conversar comigo mesma através da escrita, sem planejamento, sem pretensões. Gostei do resultado e um amigo jornalista também gostou e me emprestou o livro Escrever ficção do Assis Brasil. Daí para o curso online de Formação de Escritores da Metamorfose foi um pulo; não um pulinho sem repercussões, mas um grande salto para quem vinha de anos de dedicação a uma carreira na área da saúde. Além do desafio de penetrar em uma nova seara, havia as dificuldades próprias da língua e o convívio com professores e colegas que já navegavam nessas águas, o que, a princípio, me intimidou. Some-se a isto, o fator idade, que me colocava em uma suposta situação de desvantagem com relação aos mais jovens, devido às diferentes referências que eu trazia. 

Diante da nova atividade, com seus obstáculos naturais, o mais comum seria hesitar ou desistir. Narrativas internas disputavam lugar: uma voz sabotadora me pedia para parar, dizendo chega de desafios. Outra se contrapunha, dizendo não pare, você agora tem todo o tempo do mundo, faça o que lhe dá prazer.  

Segui em frente e descobri que, além do prazer que a escrita proporciona, ela me ajuda a organizar os pensamentos, a me compreender melhor, a estar mais presente e a observar o mundo com olhos de ver. 

Sob o comando dos mestres, as histórias foram surgindo, os motes que eles traziam desafiavam e despertavam a minha inspiração. As correções orientavam as revisões, os cortes, a procura da palavra certa, o tamanho das frases, a organização dos parágrafos, o ritmo, o subtexto e o sentido final. A satisfação e a confiança cresciam na medida em que eu vencia o medo da avaliação e da comparação e via meus textos publicados em coletâneas. As provocações não pararam e as narrativas longas se apresentaram como possibilidade, um passo ousado a me desafiar. 

Mais uma vez, duvidei da minha capacidade, mas decidi pagar para ver. Ousei publicar meu primeiro romance aos sessenta e seis anos. Passados dois anos, publiquei o segundo, já estou escrevendo o terceiro e recebi hoje o pacote da editora com os livros da décima primeira coletânea de contos com minha participação. 

Quando comecei o primeiro curso de escrita em 2022, jamais imaginei que isso seria possível. Na maior parte do tempo eu duvidei, mas além de uma voz interna, houve outras vozes que me fizeram acreditar e descobrir que há leitores para todos os gostos, e há quem goste do que eu escrevo; uma alegria inesperada para essa etapa da vida. 

Há ainda um longo caminho de aperfeiçoamento pela frente até eu produzir um livro à altura dos autores que me encantam como leitora, porém o mais estimulante e recompensador tem sido a travessia. Parafraseando a Carol Canabarro, uma colega escritora que conheci durante o Curso de Formação, o importante "é o prazer tangível de ver a própria evolução. Cada técnica dominada é uma vitória."  

Não me importa o sucesso, se venderei muitos livros ou se ganharei algum prêmio; cada vez que escrevo, estou me deleitando com a escrita e, posteriormente em contemplar a obra produzida. 

Valeu ter me lançado, valeu ter perseverado! 
 

Janeth de Oliveira Silva Naves

www.janetholiveiranaves.com.br

Janeth de Oliveira é Farmacêutica, doutora em Ciências da Saúde e professora aposentada da UnB. Publicou os romances "Saudade da Chuva", em 2023, e "As conversas que não tivemos", em 2026. Participou de dez coletâneas de contos e crônicas.