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O Alfaiate

O Alfaiate

por Alexis Rodrigues de Almeida

O Alfaiate

O sol já se punha sobre os telhados irregulares da vila imperial quando o casal começou mais uma discussão, como acontecia quase todos os dias nas últimas semanas. 

— Até quando vamos suportar essa situação, Manoel? Nossas panelas estão vazias — falou a esposa baixando a voz, mas mantendo o olhar acusador.

Manoel, não sabia o que responder. No fundo a esposa tinha razão, mas ela não queria entender a situação como um todo.

— Helena, você, mais do que ninguém, devia saber como tenho me esforçado. Hoje eu percorri toda a vila novamente.

A mulher soltou aquele sorriso que tinha a força de uma espada atravessando a alma já atormentada do esposo.

— Desse jeito?

Ele olhou sem graça para suas roupas puídas.

O casal não tinha filhos. À medida que envelheciam, Helena ficava cada vez mais insegura. O que aconteceria se ficasse sozinha no mundo? Essa angústia, transformada em amargura, era despejada sobre o marido em cada atitude e em cada palavra dia após dia, levando a relação entre eles a um grau insuportável.

Manoel, que se colocava na posição de provedor do lar, cada dia que passava mais se encolhia, esmagado pela dor de não poder cumprir sua responsabilidade para com sua esposa.

Naquele instante perceberam a presença de um forasteiro que se aproximava deles.

Era um velho de estatura baixa. Tinha cabelos brancos que chegavam até os ombros e uma barba que descia até o peito. Trazia uma mochila que mal lhe cabia nas costas.

— Perdoem minha indelicadeza — disse o estranho enquanto ajustava sua mochila, — mas não pude deixar de ouvir sua conversa. 

— Não temos nada para o senhor — disse Helena ainda inflamada pela discussão com o marido.

O velho sorriu enquanto baixava a cabeça. Ele soube desde o início que não seria fácil, mas não lhe cabia questionar, apenas obedecer.

Levantou novamente a cabeça e continuou sem alterar o tom de voz.

— Eu sou alfaiate e estou aqui para costurar uma roupa para seu marido. Só preciso de comida e um lugar para repousar essa noite.

— E o que tem de tão especial nessa roupa? — perguntou a mulher.

— O que posso dizer por enquanto é que ela lhes abrirá muitas portas. Algumas que vocês nem imaginam.

Manoel percebendo a agressividade crescente na voz da mulher, logo interferiu. 

— Por favor, perdoe a minha esposa. Ela anda muito nervosa ultimamente pela nossa situação. Venha, ainda temos um pouco de comida e podemos dividir com o senhor. 

O velho foi acomodado por Manoel em um cubículo nos fundos da casa, onde mal cabia a esteira de dormir. Após a refeição, o forasteiro recolheu-se ao seu quarto.

No dia seguinte, a casa parecia diferente. O hóspede saira cedinho, deixando para trás a roupa prometida. A vestimenta ajustou-se perfeitamente ao corpo do homem.

Ao sair à rua naquela manhã, Manoel percebeu os olhares dos vizinhos para ele. Eram olhares de admiração, não mais de desprezo.

Ao voltar mais tarde para casa, sentia-se leve. Pela primeira vez em muito tempo Helena viu um sorriso no rosto do esposo. Não era apenas alguém vestindo uma roupa nova. Ele parecia ser um novo homem. E isso a incomodou.

Tantas oportunidades lhe eram oferecidas a cada dia que agora ele podia escolher. Logo assumiu cargos de responsabilidade na vila. 

Tempos depois as portas da corte também se abriram, mas o grande salto foi quando Manoel foi elevado ao posto de intendente real.

O casebre, onde o casal vivera seus piores momentos, deu lugar a uma casa que chamava a atenção pelo tamanho e beleza. 

Os primeiros meses foram só de felicidade, mas com o passar do tempo, a mulher se sentiu sufocada pela inveja. Era vista com frequência resmungando e se maldizendo por todos os cantos da casa. Nem os empregados suportavam mais tamanha rabugice. Culpava o marido por se sentir excluída da vida nobre da corte.

Todas as tardes se dirigia ao jardim onde ficava horas em silêncio, levando a mão ao peito, como se quisesse aliviar a dor que vinha de dentro e parecia lhe corroer a alma. Estava assim amuada no jardim numa certa tarde quando o alfaiate apareceu diante de sua casa. Na esperança de obter novo favor, logo ofereceu abrigo e comida ao velho antes mesmo que ele pedisse qualquer coisa.

— Senhor alfaiate, aquela roupa que o senhor fez para meu marido de fato é muito especial, como o senhor pode ver. Desde aquele dia nada mais nos faltou — disse a mulher enquanto apontava para a casa e para o jardim.

— Fico feliz pelo seu reconhecimento, por isso não entendo porque a encontrei assim tão cabisbaixa.

A mulher se aproximou do visitante e falou com voz mais baixa, como se quisesse ocultar de todos o que ia pedir.

— Senhor, eu queria ter um vestido que me fizesse brilhar como meu marido.

O velho olhou no fundo dos olhos da mulher.

— Eu acredito que posso ajudar — respondeu o alfaiate —, mas há uma condição.

— Qualquer coisa, mas me faça tão importante quanto ele, por favor. 

— Quero que preste muita atenção ao que vou lhe dizer. A senhora não poderá, em hipótese alguma, ver sua imagem refletida enquanto estiver usando o novo vestido que vou lhe fazer. Se isso acontecer, as roupas desaparecerão, tanto a sua quanto a do seu esposo, e tudo voltará a ser como era no início.  Sem medir as consequências, a mulher não hesitou em aceitar a condição imposta.

Mais tarde, ao tomar conhecimento do acordo, o marido ficou profundamente irritado. Num momento de ódio, despejou palavras duras sobre a mulher:

— Você está aqui, mas seu coração continua preso naquele casebre.

Ao retomar a calma e vendo que não conseguiria convencê-la do contrário, mandou que os empregados destruíssem todos os espelhos da casa.

Como da primeira vez, o alfaiate se recolheu ao seu quarto e se entregou à tarefa de confeccionar o vestido prometido.

Pela manhã, a mulher, incontida em sua ansiedade, correu até o quarto de hóspedes, onde se deparou com um vestido básico, sem qualquer detalhe, muito inferior aos que frequentemente recebia de presente do esposo. Muito a contragosto e amaldiçoando o alfaiate, ela seguiu o conselho de Manoel e provou a roupa nova. O marido, quando a viu, teceu tantos elogios que a fez sorrir novamente.

Desde esse dia não se falava em outra coisa senão no vestido da esposa do intendente real.

Para seu delírio, passou a participar das festas da corte. Uns diziam que ela era de família nobre, outros diziam que seu esposo era de linhagem real.

A cada novo dia ou novo local em que a mulher aparecia, o vestido se apresentava com um estilo e uma cor diferentes. Tantos eram os comentários e elogios recebidos em todos os eventos que a curiosidade já invadia e dominava todos os seus sentidos.

O marido, ao seu lado, sempre lhe soprava ao ouvido:

— Não dê atenção a isso. Lembre-se das palavras do alfaiate.

Mas aquelas advertências fluíam como uma brisa e logo se dissipavam.

Os dias foram passando até que chegou a tão esperada noite do baile real. O salão emudeceu e todos os olhares acompanharam a entrada de Helena, que parecia flutuar enquanto andava. A música parou. As conversas animadas deram lugar a um murmúrio.

O vestido que Helena usava naquele dia era superior a todos os outros. Cabelo, maquiagem e acessórios acentuavam a beleza inigualável do vestido azul celeste. A roupa tinha vida própria e parecia saber exatamente como se mostrar dependendo da ocasião. E aquela era, sem dúvida, a ocasião mais importante da vida de Helena.

De um grupo de mulheres mais próximas, Helena ouviu claramente o que diziam.

— Vejam só, que azul magnífico! 

— E aquelas estrelas parecem diamantes.

— Olhem só! Eu juro que vi uma estrela cadente escorregando pelo vestido de alto a baixo.

— Vejam! As estrelas estão piscando!

Alguns olhares eram de admiração, outros, de inveja.

O baile continuava noite adentro e os comentários continuavam borbulhando em todo o salão. Diante de tanta atenção, a curiosidade da mulher finalmente venceu.

— Manoel, por favor, peça a alguém que me leve ao quarto de vestir da princesa. É muito importante. Preciso orientar as camareiras.

Manoel coçou a cabeça, não sabendo ao certo como atender aquele pedido esquisito da mulher, mas conhecendo a esposa, ela não desistiria. Falou com um e com outro até que lhe indicaram uma dama da corte que levou Helena até o aposento.

Ao entrar no quarto, Helena foi atraída até a penteadeira, ou melhor, até o espelho da penteadeira. Era como se fosse um metal sendo atraído por um ímã.

Um grande choque. A imagem refletida mostrava o mesmo vestido sem graça do início.

Helena lembrou do alfaiate olhando dentro dos seus olhos no momento em que ela lhe pediu aquele vestido. Sentiu um profundo vazio.

Por uma fração de segundo só houve silêncio. Depois, era como se o mundo estivesse se desfazendo ao redor, mas também dentro dela. Ficou assim paralisada por alguns instantes que pareceram não ter fim.  As camareiras não sabiam o que fazer. Helena estava paralisada, com olhos esbugalhados de terror, parecendo ter visto um fantasma.

Naquele momento Helena entendeu que toda sua vida estava dentro daquela roupa e ela estava prestes a se acabar.

De repente, o vestido foi reduzido a pó diante dos seus olhos. Helena se viu somente com as roupas de baixo. Gritou de susto e vergonha. As camareiras logo a acudiram, cobrindo-a com um manto.

— Onde foi parar o vestido? — perguntavam umas às outras.

Chamaram a princesa às pressas.

— Tirem-na daqui! — ordenou a princesa num tom ríspido.

Manoel, que se encontrava no salão de festas, também ficou seminu e foi retirado às pressas.

Os dois foram expulsos do palácio. Ao retornarem para casa, ficaram sem palavras ao perceberem que em lugar do palacete reinava de novo o velho casebre. De volta à vida e à morada antigas, o casal voltou também aos hábitos anteriores. Retomaram as discussões diárias, mas agora com maior intensidade e por razões diferentes.

O casebre parecia ainda pior que antes. Aquele lugar, que outrora fora seu lar, agora lhes causava nojo. A vida de opulência era apenas um sonho distante. O sonho deu lugar a um pesadelo real. O jardim, repleto de flores coloridas e perfumadas, deu lugar a um pedaço de chão irregular e coberto de pedras e ervas daninhas. 

Cheio de ódio, Manoel atribuía toda a culpa à esposa. Ela, por sua vez, culpava o marido por tê-la deixado para trás. 

Numa certa tarde, estavam assim, imersos na gritaria e na troca de acusações, que nem perceberam a aproximação do velho alfaiate. Esquecendo a discussão, a mulher se lançou aos pés do velho e suplicou:

— Senhor alfaiate, foi o céu que o trouxe aqui novamente. Olhe para nós. Olhe para nossa situação. Por favor, tenha piedade. Entre em nossa humilde casa e nos dê o prazer de sua companhia só mais essa vez.

O velho não falou nada no primeiro momento, nem mesmo olhou para o casebre.

Apenas fitou os olhos do casal. Suspirou profundamente e disse:

— Perdoem-me, mas hoje não devo pousar nesta cidade. — E continuou sem perder a mansidão, mas agora olhando para o casebre. — Não é possível cobrir tanta nudez.

Diante das palavras do alfaiate, o casal se desmanchou em lágrimas de verdadeiro arrependimento.

O marido olhou para o velho com o desespero de quem percebeu que dessa vez não haveria milagre para eles. O desespero deu lugar à resignação por se verem obrigados a voltar à velha vida e buscarem a mudança dentro deles mesmos.

O alfaiate, olhando para ele, assentiu levemente, ajeitou a mochila nas costas e seguiu sua jornada.

 

 

Alexis Rodrigues de Almeida

Alexis Rodrigues de Almeida é escritor apaixonado por grandes clássicos da literatura. Autor de alguns contos publicados em coletâneas, explora temas como relações familiares, dilemas éticos, sempre buscando contar uma boa história, que traga reflexão para os leitores de uma forma prazerosa. Participou de diversas coletâneas de contos, e atualmente dedica-se a escrever sua primeira narrativa longa.