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O ALMOÇO DE DOMINGO

O ALMOÇO DE DOMINGO

por Ildeu Geraldo de Araújo

O ALMOÇO DE DOMINGO

Mamãe e Zenith iam à missa das sete, papai, eu e minhas duas irmãs íamos à das onze. A banda da Guarda Civil tocava durante a missa. O Tião, colega de papai na Guarda Civil e padrinho da irmã mais nova, tocava piston.

Eu ficava esperando a hora da elevação da hóstia para ouvir a Banda tocar a introdução do Hino Nacional. Aquilo me emocionava.

Após a missa a corporação dava uma retreta na porta da Igreja.

Depois íamos para casa levando o Tião para almoçar conosco.

Mamãe, com a ajuda da Zenith, já tinha matado o frango, que era cozinhado com quiabo, e feito a macarronada, servida numa travessa toda enfeitada com azeitonas espetadas em palitos, parecia um canteiro de flores.

Papai abria uma cerveja e até nós, crianças de seis e quatro anos, tomávamos um dedinho da bebida.

Eu estranhava, quando íamos às casas dos tios ou de algum amigo da família, que as crianças não participassem da mesa dos adultos. Mamãe fazia questão que nós nos sentássemos com eles e as eventuais visitas e eu, um menino de seis anos, considerado muito ativo, participava da conversa.

Mamãe servia o almoço em travessas e pratos de louça — durante a semana comíamos em pratos esmaltados e nos servíamos diretamente das panelas que ficavam na beirada do fogão de lenha —, o frango com quiabo era servido na panela de pedra, onde tinha sido preparado, para não esfriar.

Além da macarronada, do frango com quiabo, do angu, tinha sempre couve, chuchu refogado, batata passada na manteiga e uma conserva de legumes feita por papai.

A sobremesa era queijo fresco e doce de pêssegos verdes, colhidos no nosso quintal e com seu sabor levemente amargo que ainda sinto na boca quando me lembro daqueles dias tão longínquos e felizes.

O café era servido, as crianças iam brincar, papai e mamãe faziam sala para o Tião e Zenith ia arrumar a cozinha.

Zenith tinha a pele muito clara e levemente sardenta, repartia os cabelos ruivos ao meio e fazia duas grossas tranças. Sua mãe morreu quando ela tinha quatro anos, seu pai, irmão da mamãe, se casou de novo, os três filhos foram morar com minha avó e Zenith, quando mamãe se casou, veio para Belo Horizonte e morou conosco até ficar moça.

Não é prima, é minha querida e saudosa irmã.

Ildeu Geraldo de Araújo

19/08/2023

Ildeu Geraldo de Araújo

Ildeu Geraldo de Araújo nasceu, em 1938, viveu em Belo Horizonte a maior parte de sua vida. Casado com Maria Nylza, desde 1963, tem cinco filhos e seis netos. Formou-se em engenharia mecânica e elétrica pela UFMG e exerceu seu ofício por vinte e cinco anos na Usiminas, Universidade do Trabalho, Tecnokor. Depois foi consultor e dirigente empresarial por vinte e seis anos. Publicou, pela ARTEAR editora, o livro de contos "Da fortuna de amar" – 2020 e a novela "Terra firme entre as ondas" – 2022, que trata da relação familiar de uma empresária, um sindicalista e a jovem filha do casal no ambiente da ditadura militar e da redemocratização ocorridas no Brasil no século XX.