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O aroma do café

O aroma do café

por Ana Cristina Sampaio Alves

O aroma do café

Há quanto tempo não via minha mãe? Não sei como aquele pensamento cruzou a minha mente. Talvez ter olhado pela janela e visto o dia cinzento e chuvoso, enquanto segurava a caneca de café pintada à mão, comprada na última viagem à China. Saboreava um café quentinho, cem por cento arábica, grãos moídos minutos antes. Sim, eu adorava o ritual de preparar o café e sorvê-lo em pequenos goles, olhando as árvores que balançavam no jardim. Desta vez não havia sol e a garoa corria fina.

Sem querer, fui transportada pela minha memória aos calabouços da minha infância. Vi minha mãe ao pé do pequeno fogão todo riscado coando café num bule de alumínio. Ela usava aqueles coadores de pano antigos, o cheiro se espalhava pela cozinha de chão batido e eu estava sempre em pé atrás dela com a caneca escura na mão, aguardando aquele líquido quentinho e ralo. Sim, gosto de café desde que me entendo por gente!

A lembrança me fez sorrir instantaneamente. Mas aquela mexida de lábio no canto da boca não durou mais que poucos segundos. Quando percebi, minha atenção saiu do café e se fixou nas paredes da cozinha sem reboco, os tijolos aparentes que nunca receberam argamassa nem tinta. Percebi que meus lábios derretiam e ficavam imóveis, talvez um pouco entreabertos. Olhei ao redor, com os olhos da infância, e enxerguei tudo. Quis sair da cozinha e voltar para a minha janela, para a xícara chinesa, mas já não conseguia.

Pousei-a no aparador e busquei na bolsa o celular. Liguei para a minha mãe, o telefone tocou várias vezes antes dela atender. A ligação parecia estar muito longe, ou era a voz dela que saía fraca, quase inaudível.  Perguntei como estava, ela respondeu que como Deus queria, quis saber se precisava de alguma coisa, disse que não, que minha irmã cuidava bem dela.

Hesitei, ainda, antes de dizer que tinha lembrado de quando ela fazia café e eu mal esperava esfriar para tomar, pois gostava do cheiro e do gosto desde pequena. Ela respondeu que se lembrava bem disso.  Após um breve silêncio, perguntou como eu estava e, sempre mais corajosa que eu, falou que tinha saudades. Senti um nó na garganta, uma vontade de abraçá-la como nunca fizera, de convidá-la para vir tomar café comigo ao pé da lareira da minha sala, sentindo o aroma dos grãos selecionados e apreciando o jardim bem cuidado da minha janela.  

Ao invés do convite, respondi que minha vida era uma loucura, sempre viajando para lugares muito distantes, cansada de andar de avião, sem tempo nem para respirar ou cuidar de mim. Com aquela voz tão suave e longínqua, sugeriu que eu descansasse mais, que não quisesse agarrar tanto o mundo com as mãos, como a menina que só se contentava com a nota dez na escola. Suspirei nessa hora, pois a visão da garota revoltada, rígida e infeliz que fui me veio à memória no mesmo instante.

E como o desconforto de tantas entranhas infantis fossem me fazendo mal, lembrei que o café esfriara repousado sobre o móvel, e que a ligação já se demorava mais que o normal.

-- É verdade, mãe, tenho que correr menos na vida, mas há tanto o que fazer, são tantas demandas, que fica difícil administrar, você entende, né?

Claro que entendia, ela sempre me entendeu. Por isso mesmo nunca esteve em minha casa, onde há tantos quartos e banheiros que seria difícil escolher um para ficar; onde reina a beleza e a harmonia nos móveis, tapetes, quadros e luminárias; onde tomar café é o único prazer que resta de uma infância que teimo em nunca mais visitar.  

Ana Cristina Sampaio Alves

Ana Cristina Sampaio Alves escreve desde a infância. Ainda criança, já se considerava uma novelista, mesmo que as histórias fossem um misto de contos de fadas com personagens reais. Escolheu o jornalismo como profissão, o qual a permitiu transitar por todo tipo de texto, desde os mais técnicos até os mais criativos, em diversos segmentos de mídias. Continua explorando a escrita e agora se aventura na literária, tendo publicado alguns contos e dezenas de crônicas. Esse é o gênero em que melhor transita. 

Embora não tenha ainda publicado narrativas longas, já participou da edição de coletâneas de contos. Segue buscando aprimorar o texto que emociona e traz reflexão. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.