por Alexis Rodrigues de Almeida
Europa Ocidental, ano de Nosso Senhor de 1165
Arthur, aldeão nas terras do nobre Dalibor, vassalo do rei Frederico, arava sua gleba quando o arado atingiu um obstáculo. Era uma caixa de bronze comprida e estreita. Tinha cerca de um metro e meio de comprimento e era ornada com imagens de dragões.
Com a idade de quarenta e cinco anos, Arthur era um lavrador experiente, mas aquele achado o deixou perplexo.
Ao abrir a caixa, encontrou um objeto enrolado em um tecido de veludo vermelho. "Que raios é isso?", pensou ele ainda mais assustado. Dentro do tecido, encontrou um cajado de madeira. Parecia ser carvalho. Se não tivesse sido encontrado naquelas condições, ninguém o diferenciaria daqueles usados pelos pastores da região.
Nos dias que se seguiram, Arthur comentou sobre o achado com alguns vizinhos e com os de casa, mas ninguém trouxe alguma informação que ajudasse a esclarecer o mistério. Por algum tempo resolveu deixar a questão de lado, passando a usar o cajado no dia a dia para cuidar de suas ovelhas. Mas logo percebeu algo inimaginável. Em qualquer lugar onde o cajado tocava, as plantas cresciam rapidamente, de um dia para outro. Um filhote de animal tocado pelo cajado se tornava adulto em poucos dias.
Todos os vizinhos logo se deram conta, com espanto, como as plantações e o rebanho de Arthur cresciam de forma acelerada e começaram a comentar o fato. Os comentários chegaram aos ouvidos do senhor Dalibor, dono das terras.
— Senhor Dalibor, é uma honra recebê-lo em minha humilde casa.
— Sim, sim. Todos por aqui devem sentir o mesmo. Mas lembre-se que sua humilde casa, assim como todas as terras onde ela se encontra, pertencem a mim.
— Mil perdões, senhor. Foi só uma força de expressão.
— Entendo, meu caro... Arthur, não é isso?
— À suas ordens, senhor.
— Ouvi alguns comentários muito estranhos, senhor Arthur. Dizem que seus rebanhos e plantações têm crescido muito, ultimamente. O senhor tornou-se um rico aldeão em menos de um ano. Eu vim aqui pessoalmente testemunhar esse milagre. Gostaria de saber como se deu tudo isso.
— Meu senhor, tenho muitos filhos para me ajudar. Eles cresceram, ficaram fortes. Nós trabalhamos dia e noite. A senhora minha esposa também é muito trabalhadora.
— Ora, ora, senhor Arthur. Muitos dos seus vizinhos também têm família grande e trabalhadora. Contam-se histórias por aí, senhor Arthur. Dizem que tudo floresce rapidamente por onde o senhor passa. Ouvi também histórias sobre um cajado com poderes sobrenaturais. O senhor andou perguntando sobre ele pela vizinhança, não foi mesmo?
— Sim, senhor. Encontrei-o enterrado enquanto arava minha terra.
— Minhas terras, senhor Arthur. Minhas terras. Não esqueça disso. São todas minhas, as terras e tudo que nelas for encontrado. Deixe-me ver o tal cajado.
O pobre Arthur olhou para os lados, num pedido mudo de socorro. Atrás do senhor Dalibor, viam-se soldados de sua guarda pessoal. Muito bem armados.
Ao lado de Arthur, sua esposa e filhos. A mulher, com um lenço amarrado à cabeça, não ousava levantar os olhos para o visitante. Os filhos eram cinco. O mais novo tinha apenas doze anos, enquanto o mais velho contava com vinte anos. Era o mais indignado com a situação e em dado momento teve que ser contido pelo pai. Arthur reconhecia sua condição de inferioridade e sabia que reagir naquele momento seria sua desgraça e de toda a família. Entregou o cajado nas mãos do seu senhor, enquanto inclinava a cabeça em sinal de obediência.
Os olhos de Dalibor faiscaram de delírio ao verem o objeto que Arthur segurava cuidadosamente com as duas mãos.
Vim aqui pessoalmente requisitar esse cajado. Ele é meu por direito. Mas não se preocupe. O senhor não será punido por ter escondido isso de mim. Sabemos que não fez por mal, não é mesmo? Tenho certeza disso. Vou, agora mesmo, levar a notícia ao rei e tudo ficará bem.
* * *
No dia seguinte, já refeito do susto, Arthur reuniu a família.
— Preciso falar com o rei hoje mesmo.
— Arthur, não faça isso. Vamos ficar bem. Nós vivíamos muito bem antes daquele cajado e agora estamos muito melhores. Vamos ficar bem. Esqueça aquela coisa — suplicou a esposa, juntando as mãos como se fosse uma prece.
— Helena, não vou em busca de recuperar o cajado. Bem que eu gostaria de fazer isso, mas nem sei como. Mas eu tenho o dever de alertar o rei. Aquele cajado é muito poderoso. Ele possui poderes desconhecidos por nós. Eu vi muita maldade nos olhos daquele homem. Certamente ele vai usar esses poderes contra nosso rei Frederico. Eu sinto isso.
— Pai, deixe-me ir com o senhor, disse David, o filho mais velho.
— Sim, pai, deixe-nos ir com o senhor — completaram outros dois.
— Não, meus filhos. Será uma jornada muito arriscada. David, você é o mais velho. Deve ficar e cuidar de todos.
Arthur selou seu cavalo e partiu, levando mantimentos para um dia de viagem. Em vários momentos da jornada pensou em desistir. Lembrava das palavras da esposa. Por que ele colocaria em risco a sua segurança e a da família para tentar defender um rei que mal olhava para eles?
Cada momento de hesitação era acompanhado por um sentimento de vergonha. Não, ele devia lealdade ao rei. Mesmo que isso o levasse à morte. Era o certo a fazer.
* * *
Como previsto, chegou à entrada da cidade nas primeiras horas do dia seguinte. Para sua surpresa, encontrou os portões fechados. Não era uma prática do rei Frederico. A cidade sempre ficava de portões abertos. O comércio da região era próspero. O reino vivia em paz havia pelo menos duas décadas.
— Abram os portões — gritou ele, — preciso falar com o rei.
— Vá embora, homem. Aqui não tem nada para você — respondeu um guarda, do alto da torre de vigia.
Novamente Arthur pensou em desistir, dar meia volta e retornar para a segurança de sua casa. Mas novamente recuperou lá do fundo sua responsabilidade de súdito leal.
— Sou Arthur Floyd e tenho algo muito importante para dizer ao rei. É assunto de interesse do reino.
Após alguns minutos de espera, ouviu os portões da cidade se abrirem. Os guardas o levaram ao castelo e o conduziram à sala de audiências.
As portas foram abertas e Arthur foi conduzido à força e jogado ao chão. Ao olhar pra cima seus olhos foram invadidos por uma imagem que o deixou paralisado. O homem sentado no trono não era o rei Frederico. Era o senhor Dalibor.
— Ora, ora, senhor Arthur. O senhor veio tão rápido ver o rei. Vai me dizer qual assunto o trouxe até aqui? Eu o poupei dos seus atos de traição. Eu poderia ter lançado o senhor e toda sua família na prisão, ou mesmo ter levado todos à forca. O senhor sabe que eu poderia ter feito isso.
— Eu preciso falar com o rei.
— Pode falar, senhor Arthur. Eu sou o novo rei.
— O rei Frederico. Onde ele está?
— Isso não lhe diz respeito, homenzinho. Agora abra sua boca de uma vez por todas. Mas tenha cuidado com as palavras. Talvez dessa vez eu não seja tão benevolente.
— O senhor traiu o rei. Foi esse cajado, não foi? Ele lhe deu poderes.
— Sim, meu caro. Você não sabe nada mesmo, não é? Este é o cajado sagrado de Bartolomeu V. Quem o tiver em suas mãos pode tudo. Quando ouvi todas aquelas histórias a seu respeito, imaginei, com certa incredulidade, que poderia ser ele. Mas ao segurá-lo em minhas mãos, logo tive certeza disso. Você é mesmo um tolo. Com esse cajado você poderia ter destruído a mim e aos meus guardas num piscar de olhos.
Os livros de registro da família real relatavam a história de poder do rei Bartolomeu V, que vivera no século VIII. Contava-se de uma era de prosperidade e paz que jamais se repetira desde a morte do soberano. Contava-se de boca em boca que todo o poder real vinha de um cajado que Bartolomeu trazia sempre consigo, mas os registros reais não confirmavam essa história e nem mesmo faziam referência ao tal cajado.
Dalibor apontou o cajado para uma estátua do rei Frederico, esculpida em mármore. Pronunciou uma palavra mágica: ZÂHAR. No instante seguinte a estátua se desintegrou em milhares de pedaços.
— O senhor matou o rei Frederico?
— Eu teria me deliciado fazendo isso, mas não o fiz. Ele está preso nas masmorras do castelo. Ficará lá por um bom tempo — escarneceu Dalibor, soltando uma gargalhada que ecoou por todo o salão.
— O senhor não sairá impune.
Dalibor mais uma vez sorriu deixando claro seu escárnio ao olhar para Arthur.
— É mesmo? — disse ele levantando-se do trono e indo em direção ao pobre homem, que o olhava assustado. — Então me diga, senhor Arthur, quem me punirá? Será você, homenzinho desprezível? Ou será aquele rei fraco preso lá embaixo? Me diga. Quem vai me punir?
Dalibor aproximou-se de Arthur, apoiou a ponta do cajado sob o queixo do pobre homem, forçando-o a ficar em pé.
Vestido com um manto vermelho e com o cajado em sua mão direita, Dalibor passou a falar enquanto andava em círculos pelo salão, alternando a direção do olhar entre Arthur e os demais que se encontravam no salão. Ameaçava a todos que ousassem se opor a ele.
Os soldados estavam todos a postos e não era possível distinguir entre aqueles que eram fiéis ao rei Frederico e aqueles que estavam alinhados ao traidor. O medo marcava cada músculo e ruga no rosto de todos. Os auxiliares da corte nem mesmo ousavam olhar para Dalibor.
Aproveitando um momento de distração, Arthur correu em direção a Dalibor. Mas este apontou-lhe o cajado e gritou: ZÂHAR!
Um grande clarão rasgou a sala de audiências. Todos olharam com espanto para Arthur, que se achava envolto em uma bola de fogo que não o tocava. Ouviu-se um ruído ensurdecedor. Migalhas de pedra voaram para todos os lados. Uma nuvem de pó cobriu o ambiente. Ao se dissipar a poeira, ouviu-se um murmúrio por toda a sala. O cajado estava caído aos pés de Arthur. O corpo carbonizado de Dalibor jazia junto ao que restou do trono real.
Os guardas recuaram quando Arthur segurou o cajado e viu-se uma aura azul brilhante que envolvia o lavrador. Os soldados fiéis ao rei Frederico prenderam e desarmaram os guardas de Dalibor.
* * *
Três dias depois...
— Este reino deve sua existência à lealdade do bravo Arthur Floyd — anunciou o rei Frederico diante de toda a corte — todas as terras, antes pertencentes ao traidor Dalibor, agora serão suas e de sua descendência para sempre.
— Sou eternamente grato por sua generosidade, vossa alteza. Quanto ao cajado...
— Ele é seu por direito — interrompeu o rei. — Foi você quem o achou. E não há ninguém mais indicado para cuidar dele. Sua lealdade foi posta à prova e ficará registrada para sempre em nossa história.
Você saberá usar seus poderes para a prosperidade de todo o reino.
* * *
Arthur saiu do palácio acompanhado de Helena e dos filhos, que acompanhavam os pais cheios de orgulho, diante dos olhares de admiração de toda a corte.
Nos anos que se seguiram, Arthur era visto com frequência andando pelos campos de trigo e pelos grandes pastos de ovelhas e bois que se estendiam por todos os lados. Gostava de sentir a terra com as próprias mãos e tocar a lã das ovelhas com as pontas dos dedos. Era assim que ele decidia quando era necessário intervir com o poder do cajado. Era uma exigência dele que ninguém se acomodasse e que o trabalho e o cuidado com a terra e com os animais deveria continuar como sempre foi.
Era sempre reverenciado ao entrar na cidade. Muitos acorriam a ele em busca de milagres ou de algo que facilitasse suas vidas. Mas Arthur era irredutível, os médicos tinham as melhores escolas e eram eles os responsáveis pelos cuidados com a saúde do povo. Todos deveriam trabalhar para garantir seu sustento.
O cajado jamais seria usado para criar um povo fraco e preguiçoso. Ele apenas daria eco ao valor dentro de cada um.
Alexis Rodrigues de Almeida é escritor apaixonado por grandes clássicos da literatura. Autor de alguns contos publicados em coletâneas, explora temas como relações familiares, dilemas éticos, sempre buscando contar uma boa história, que traga reflexão para os leitores de uma forma prazerosa. Participou de diversas coletâneas de contos, e atualmente dedica-se a escrever sua primeira narrativa longa.