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O cemitério

O cemitério

por Maria Sofia

O dia está quente e os passarinhos cantam, não de forma bela, mas quase que macabra. O cemitério não aparenta carregar o pesar e nem o verdadeiro significado do que realmente acontece nesse lugar. As pessoas são gentis, educadas e ouso dizer até alegres. Assim que chegamos fomos direcionados para onde ficam os túmulos. A caminhada para chegar até o cemitério havia sido longa, o sol do meio-dia queimava a minha pele a ponto de arder mas eu tinha que chegar no túmulo da minha melhor amiga. A pequena estrada até as quadras de lápides está repletas de árvores de pequeno porte com flores brancas e troncos finos, além dos arbustos ornamentais que assemelham-se a cercas vivas com flores corais com tons definitivamente mais vivos que qualquer um ali a sete palmos de distância. Durante a caminhada, penso em como Renata acabou naquela situação.

O coveiro nos guiou até o jazigo e com ajuda de uma serra e um machado começou a destroçar a grama artificial, o que explica o motivo de tudo parecer tão vivo e alegre. O paradoxo estava claro. Quase uma comemoração para nós que ainda não havíamos enfrentado aquele destino. O modo como ele corta a grama é agressivo, por seus antebraços bronzeados e grossos, dá para perceber que ele trabalha aqui há um bom tempo. Após dez minutos, a cova está finalmente aberta. Eu finalmente verei o que sobrou de Renata. Meu marido deu um aperto em minha mão e notou que eu estava tremendo, apesar de ver corpos todos os dias no IML nada se compara ao ver alguém que você ama ali, sendo comido pela terra.

Enquanto o coveiro fora lavar as mãos na mangueira que se encontrava ali perto, aproximei-me devagar com receio do estado que poderia estar dentro da cova. Avistei apenas insetos, principalmente baratas, e um buraco fundo que exala um péssimo odor. Ao retornar, o homem com cuidado, pôs os pés dentro do buraco fundo, apoiando-se em madeiras que provavelmente seguram a terra. Ainda próxima, meu marido a dois passos de mim percebo um olhar no rosto do homem de espanto. Ele mergulhou o braço e ali de dentro retirou uma caixa metálica. Nem um sinal de caixão e muito menos de um corpo, apenas a caixa misteriosa que reluzia com os raios de sol.

Maria Sofia

Leitora apaixonada por romances e criadora de histórias. Entre páginas e ideias, transformo sentimentos em palavras.