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O EGO NA FOGUEIRA

O EGO NA FOGUEIRA

por Ildeu Geraldo de Araújo

O EGO NA FOGUEIRA

Tanto insistiram comigo que decidi queimar o meu ego. Peguei-o pelo pulso e saí o arrastando em direção à fogueira. Ele ia chorando:

— Mas que te fiz eu? Em que te contristei? Só te dei alegria. Sempre te soprei aos ouvidos os elogios que recebias para que nunca os esquecesse. Quando recebias uma crítica, eu te dizia que era inveja ou ignorância do importuno crítico. Se a consciência te pesava por algum delito, eu diminuía sua importância e bradava teus feitos, ampliando teu heroísmo. Se discordavam de ti, eu desqualificava teu opositor pela sua ignorância ou má fé. Que te fiz eu? Em que te contristei?

— Para de citar os Evangelhos, você é o diabo!

— Eu, diabo? Eu e tu somos um! Então tu és o diabo?

— Não somos um! — gritei-lhe enfurecido. — Você é o que divide! Você me divide!

— Bem, se eu te divido, eu sou parte de ti. Se tu me queimares, queimas a ti mesmo.

— Que silogismo barato! Você é parte de mim, concedo, mas a parte nefasta que quero arrancar e eliminar.

— Se me livrasse dos meus demônios, perderia os meus anjos.

Fiquei calado, mas continuei a arrastá-lo. Quando passamos perto de uma árvore ele se agarrou a ela e me fez parar. Eu estava exausto e confuso.

— Descansa um pouco, vamos conversar. És um bom sujeito. Nesta tua longa vida realizaste muita coisa, fizeste o bem a inúmeras pessoas. Eu sou só uma pequena parte da tua personalidade, para que arrancar-me de ti? Será que nas tuas bondades não tem uma participação minha? A vaidade pode ser um impulso para a boa ação.

— Não, não e não! Você não vai manchar as obras meritórias que realizei! As fiz tendo em mira o bem não a vangloria!

— Tudo bem, não precisas ficar bravo! Se te incomodo tanto, eu prometo ficar quieto. É só falares menos. Se ficares mais recatado e não me atiçares, ninguém vai perceber que eu existo. Não há necessidade de me queimares, finjo de morto. Que tal?

— Não! Não me venha com embromação! Foi difícil e sofrido decidir eliminá-lo. Agora que decidi, não volto atrás.

— Mas precisas me incinerar? Que método bárbaro, medieval, inquisitorial!

— A recomendação é clara: Queimar o ego!

— Não poderia ser uma injeção letal?

— Não! Você vai pra fogueira! — e o arremessei no meio das labaredas.

Voltei para casa sentindo um grande vazio interior. Ele estava me esperando na varanda.

Ildeu Geraldo de Araújo

Ildeu Geraldo de Araújo nasceu, em 1938, viveu em Belo Horizonte a maior parte de sua vida. Casado com Maria Nylza, desde 1963, tem cinco filhos e seis netos. Formou-se em engenharia mecânica e elétrica pela UFMG e exerceu seu ofício por vinte e cinco anos na Usiminas, Universidade do Trabalho, Tecnokor. Depois foi consultor e dirigente empresarial por vinte e seis anos. Publicou, pela ARTEAR editora, o livro de contos "Da fortuna de amar" – 2020 e a novela "Terra firme entre as ondas" – 2022, que trata da relação familiar de uma empresária, um sindicalista e a jovem filha do casal no ambiente da ditadura militar e da redemocratização ocorridas no Brasil no século XX.