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O elevador

O elevador

por Isabel Pfahl

O elevador

— Viu a movimentação no salão hoje, Nair?

— Bom dia pra você também, né, Vera? Passei pelo hall mais cedo, quando fui na feira hoje com a minha filha e meu genro, mas nem reparei. É aniversário de alguém?

— Bom dia, menina. Também pensei nisso, mas pelo jeito não é aniversário não. Como tá a Renata e o Rogerinho? 

— Estão ótimos. O Rogério foi promovido, veio me buscar pra ir na feira com o carro novo que ele trocou.

— Ai, que benção, né Nair? Rogerinho sempre foi estudioso. Eu lembro quando ele começou a namorar a Renata, fazia faculdade com meu sobrinho.

— Pois é, eu tinha razão quando falei pra Renata que ele era um bom partido. Oh, Vera, será que esse elevador tá com problema de novo? Tá demorando muito, eu tô com fruta pra guardar na geladeira.

— É mudança.

— Mudança? Tá mudando mais gente pra cá?

— Tá sim, no 802. Falaram que é festa de noivado.

— Noivado? De quem?

— Do casal do 204, acredita?

— O casal do 204? Eles não são casados?

— Pois foi exatamente isso que eu estranhei.

— Vera do céu, eu sempre achei que eles já eram casados.

— Eu também, menina. Mas me diz, que carro que o Rogerinho comprou? 

— Então... Eles moram juntos há anos. Ah, e o Rogerinho comprou um desses carros que carrega na tomada, sabe?

— Eu mudei pra cá em 2014 e eles já estavam juntos. O filho da Sueli comprou um carro desses também, tão na moda.

— Pai amado, já tem mais de dez anos que moram juntos e não são casados?

— Vai ver nunca oficializaram.

— Jamais que eu ia deixar minha Renata fazer uma coisa dessas, viver como marido e mulher e não ser casada.

— Hoje em dia isso não quer dizer muita coisa, né Nair?

— Mesmo assim, noivar depois de dez anos é estranho.

— Estranho nada. Tem gente que demora mesmo, às vezes nem casa. Tem gente que tem filho primeiro pra depois casar. Falando nisso, o Pedrinho tá grande, vi ele outro dia quando a madrasta veio trazer, uma lindeza de criança. O Rogerinho é um bom partido mesmo.

— Mas era diferente, a Renata casou de papel passado, Vera. Hoje em dia o povo acha que casamento é detalhe, quando o homem demora muito pra casar, ou já se acomodou ou tá esperando coisa melhor aparecer.

— Credo, Nair.

— Ué, todo mundo sabe disso, não fui eu que inventei, não.

— Eu, hein! Olha só, menina, o prédio hoje tá mais movimentado que shopping.

— Também, é gente noivando, gente saindo, gente nova chegando todo mês.

— E ninguém fala com ninguém, ninguém se conhece. Antigamente as pessoas conversavam, sabe? A gente sabia das pessoas, das coisas.

— Ah, mas de gente assim, eu nem quero saber nada, Vera. Na minha casa foi tudo muito certo. Nada dessas modernidades escandalosas, minha Renata sempre foi menina direita. É por isso que eu nem gosto dessas conversas, é cada coisa que a gente ouve.

— Pois eu sou da mesma opinião. Não sou de me meter na vida de ninguém, Deus me livre de ficar de disse-me-disse. Cega eu não sou, mas ficar por aí comentando com os outros? Jamais.

— Bom dia, Dona Vera, Dona Nair! Esse elevador ainda tá com defeito?

— É mudança.

— É mudança.

— Olha, então dei sorte, chegou. Eu seguro a porta pra vocês.

— Obrigada.

— Obrigada.

— ...

— ...

— ...

— Tchau, Dona Vera! Dona Nair! Até mais.

— Tchau.

— Tchau.

— Viu o tamanho do anel, Nair? Deve ter sido uma fortuna.

— O que o Rogério deu pra Renata era mais bonito.

Isabel Pfahl

Estudante de Letras - Português pela Universidade Estadual de Londrina (Uel) e pesquisadora na área de literatura e estudo da narrativa. Atuação em revisão, adaptação e tradução de livros para o português brasileiro, compartilhando amostras de traduções na plataforma Wattpad. É advogada criminalista e especialista em Direito Penal e Processo Penal - porque histórias também existem fora da ficção.

It's all about how to tell a good story!

Wattpad @itspfahl