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O homem que é homem

O homem que é homem

por Fernando Domingos Chitela

Após uma jornada laboral, Bento vestiu o seu calção preferido e, sem pôr a camisola, sentou-se ao lado da Helena, sua esposa. Ela transportava um barrigão que alojava um bebê que lá estava fazia uns oito meses. Mas o tamanho da barriga não diferia muito da do Bento. Ele habituara-se a relaxar com umas cervejinhas no fim de cada dia de labuta como repórter fotográfico, na cidade de Luanda.

— Como é que vai o meu herdeiro? — perguntou enquanto passava a mão direita na barriga da Helena.

— Ele está a pular de alegria. Parecem pulos de boas-vindas, marido.

— Este rapaz vai ser meu companheiro. Meu grande amigo.

— Vê se não te empolgues. Os rapazes costumam ser mais amigos das mães, não sabes?

— Depende. Eu fui mais amigo do meu pai... Você mesmo sabe.

— Hum! Vai sonhando.

Bento soltou um sorriso e preferiu não aprofundar a conversa. Tinha a certeza de que o filho seria o grande companheiro que ele próprio tinha sido para o seu falecido pai. Depois das aulas, passava o dia na oficina a ajudá-lo, e o pai levava-o para todo o lado enquanto experimentava os carros dos clientes. Bento chegou a conhecer quase todos os amigos do seu pai, incluindo uma das suas namoradas. Ele não permitia que Bento ficasse na cozinha ou fizesse qualquer tipo de trabalho doméstico. Quando a mãe o obrigasse a fazê-lo, o pai vinha em sua defesa. E quando ela o fizesse na ausência do pai, Bento fazia-o de cara trancada. Contava ao pai assim que ele chegava. O pai vociferava algumas palavras contra a mãe e ela respondia, e daí surgia uma discussão.

Numa manhã ensolarada, Bento levantou-se da cama, aprontou-se, deu uma limpadela na máquina fotográfica e esperou bater a hora onze para cobrir uma festa infantil que Gilberto decidira dar na sua casa. Bento devorou o pequeno almoço que Helena servira e foi.

— Grande mestre, ainda bem que chegaste — disse Gilberto, segurando uma garrafa de cerveja.

— Sim, cheguei, meu Boss.

— Começa já a fazer as fotos. Se quiseres tomar umas, estás a vontade. É só falares com a minha esposa. Você já sabe como é.

— Está bem, Boss.

Gilberto abraçou Bento, dirigindo-se aos presentes.

— Este aqui é o fotógrafo da família. Foi ele quem fez aquelas fotos fixadas na parede da sala, incluindo aquela grande que vocês estavam a elogiar em que estou com a minha esposa. Ele também é quem faz as fotos para alguns familiares e colegas meus. É nosso fotógrafo de longa data.

Bento olhou à volta e o número de crianças parecia ser igual ao dos adultos, mas a quantidade de bebida alcoólica superava de longe o número dos presentes. As crianças trajavam, na sua maioria, roupas que combinavam com a decoração das mesas e das paredes. O DJ posicionou-se num canto ao lado do portão. Colocou duas colunas de som grandes nas extremidades da entrada principal da casa e começou a tocar músicas infantis e samba. Quando anoiteceu, mudou para Kuduro.

As mães juntaram-se às crianças no palco. Os homens ficaram a apreciar o rebolar, mas sem ninguém olhando para o rebolar da sua própria esposa. Depois o DJ colocou a música Apupu, de John Trouble. A batida arrastou todos os homens para o palco.

Cada um dava o seu toque. As crianças, não conseguindo encontrar qualquer relação entre os rostos dos pais que viam naquele momento e os que estavam habituadas a ver, sobretudo quando eles voltavam da labuta diária, gritaram de alegria. Bento abandonou a máquina fotográfica e se jogou ao meio. Levantou ligeiramente o pé direito e remexeu a bunda como se fosse mulher. Poisou o pé. Deu uns toques de break-dance. Parou. Voltou a remexer a bunda. As crianças e as suas respectivas mães entraram em delírio. Bento preparou-se para dar o toque final, mas um dos bêbados pisou no fio de uma das colunas de som e a música parou. Todos começaram a xingar o homem que fizera aquilo.

Bento olhou para o telefone. Havia mais de dez chamadas não atendidas provenientes do número da Helena. Fez as últimas fotografias e foi para casa, voando que nem uma bala. Quando chegou, encontrou o pequeno Bento estendido na cama a curtir um sono profundo. Era uma cópia quase perfeita dele, faltando apenas o barrigão e as bochechas.

— Está ai o teu companheiro. Estava a ligar para ti mas não atendias. Tive o parto mesmo aqui em casa. As vizinhas é que me ajudaram a ter o bebê. Já não deu tempo para ir ao hospital. Agora, prepara só alguma coisa para elas.

A concentração do olhar de Bento ao seu filho inutilizou todos os outros sentidos. Ele não ouvira o que Helena dissera. Ela repetiu a informação e ele apenas acenou com a cabeça.

Daquele dia em diante, Bento começou a trabalhar dobrado alargando o seu nicho de clientela. Contou principalmente com a ajuda de Gilberto, que não se cansava de publicitar a obra dele a todos quanto conhecia. Bento fez questão de exigir que Helena ficasse apenas em casa a cuidar do Bento Júnior. Quando a criança começou a falar bem, Bento levava-o a passear pela vizinhança enquanto Helena aprontava o jantar.

Aproveitava aquelas ocasiões para infundir os seus ensinamentos ao filho, segundo os quais o filho de homem deve tomar conta da sua mãe e controlá-la; o homem que é homem não pode fazer trabalhos domésticos; e o homem que é homem não chora e etc., etc., etc.

Por outro lado, a mãe, quando Bento se ausentava para o trabalho, punha Bento Júnior a fazer trabalhos domésticos, ensinava-o a ser um cavalheiro e a tratar qualquer mulher com carinho, dando, inclusive, pequenos presentes nos momentos em que ela menos esperasse, algo também reforçado pela televisão e pela escola.

Certo dia, quando todos ainda se encontravam à mesa, após o jantar, Helena informou Bento que Gilberto havia morrido, vítima de um acidente rodoviário. Bento levantou-se, dirigiu-se à casa de banho, trancou-se nela. Chorou por quase uma hora.

Passado algum tempo, Bento recebeu uma chamada da esposa do Gilberto solicitando os seus préstimos. Decidiu prestar o serviço sem cobrar nenhum tostão. Assim que chegou à casa, viu a esposa de Gilberto em abraços com um homem estranho.

Tentou recuar mas já era tarde. A esposa de Gilberto apresentou-o ao homem como sendo o novo esposo. Bento não conseguiu fixar o nome dele na sua cabeça, nem se esforçou. O tal homem contava algumas histórias engraçadas e os filhos de Gilberto, principalmente o primeiro, correspondia rindo sem o menor controlo. Bento disse que vinha fazer aquelas fotos atendendo a consideração, mas que tinha apenas uma hora por ter um outro compromisso. A viúva pediu que todos assumissem as poses que quisessem para fazerem as fotos. Quando ia saindo, Bento ouviu o homem pedindo à esposa para fazer uma foto de casal para substituir a que estava bem no centro da parede da sala. O pedido estremeceu a alma. Sem saber como, fez a tal foto, torcendo no íntimo que a mesma saísse mal.

Bento chegou em casa, saudou a família quase sem abrir os dentes. Jogou-se na cama. À sua mente vinha o rosto do primeiro filho do Gilberto. Questionava-se se Bento Júnior seria capaz de fazer o mesmo com ele depois de tanto ensinamento. Continuou deitado de barriga para cima e apenas saiu quando era hora do jantar, e também porque alguns amigos seus haviam chegado. Ficou a tomar umas com eles. Helena não tirava o seu olhar dele. No meio da sexta cerveja, Bento soltou um grito:

— Ó Júnior! Vem cá.

Bento Júnior veio a correr.

— Um dia se eu morro, tua mãe arranja um outro homem, você vai deixar que eles troquem aquela foto que está lá no centro da sala? — perguntou Bento empurrando a mesinha onde eles haviam posto as bebidas.

Júnior olhou para o rosto sorridente dos amigos do pai e para a cara trancada da mãe, e respondeu:

— Eu ia fazer o quê, pai?

— Ouve bem. Se você permitir que a tua mãe e um cão qualquer façam isto, eu vou ressuscitar e venho te apertar o pescoço durante a noite. Estás a ouvir?

Bento Júnior saiu a correr. Foi para o seu quarto. Ao mesmo tempo, os presentes ouviram o som de estilhaçamento de louça que Helena trazia para mesa. Ela correu, tropeçou, levantou-se e foi em direcção ao quarto de Bento Júnior.

Fernando Domingos Chitela

Fernando Domingos Chitela é mestre em Tradução pelo Chartered Institute of Linguists e estudante de Gestão de Empresas pela Cambridge International College.

Formou-se em escrita criativa na Metamorfose, onde frequenta atualmente o curso de Revisão e Leitura Crítica. É autor de um romance inédito, atualmente em concurso num prémio literário da lusofonia.

Dedica-se à ficção realista que atravessa memória de infância e adolescência, explorando as rupturas que marcam o crescimento em contextos sociais de transformação.